“Os seus raciocínios incidem sobre a diagonal em si, não sobre a diagonal que traçam. Das coisas que desenham e que têm o seu reflexo nas águas, servem-se delas como de imagens para tentar ver essas coisas em si mesmas, que de outro modo só se veem pelo pensamento.”
Platão, A República
Onde quer que esteja—no seu consultório ou no gabinete de Félix, tão confortável quanto uma sala de estar, ou ainda, como hoje, empoleirado numa montanha, longe de tudo—Lucian relê as suas notas. Ele comenta em voz alta, imaginando-se no gabinete do seu supervisor. À distância, poder-se-ia imaginar um ator ensaiando um texto que terá de representar num palco de teatro.

No consultório de Félix
— Vê, Félix, acreditarás em mim… chegou um caderno, literalmente “chegou sozinho”. Não sei como… Um caderno no qual Sang Chaud—que, como já sabes, é uma personagem imaginária… imaginada pelo meu paciente Igniatius—relata algo que não terás dificuldade em compreender.
— Se me disseres o que diz esse caderno, meu caro Lucian?
— Ele conta, em detalhe e de forma um pouco caótica, aquilo que vou tentar simplificar…
— Por favor!
Félix não acrescenta nada—embora hesite, Lucian sabe, em acrescentar algo… Quase o vê a pensar: Leva o teu tempo… mas não o diz.
Retomo a leitura:
— “No meio da pista de um circo, ele próprio situado numa das ilhas do Arquipélago onde esta história tem lugar—um circo sem feras nem domador—um homem chamado Don Carotte debate-se com as suas próprias sombras, que tenta dominar. Tendo desaparecido da vista do seu fiel Sang Chaud—eu próprio—reaparece a partir de dentro…”
De dentro de quê? Ainda me pergunto…
“Foi assim que comecei a emagrecer… e a crescer… a pensar de outro modo… a assemelhar-me… até o encarnar… ele, Don Carotte… Evidentemente, isso não lhe agradou, pois ele quer sempre ser o primeiro…”
— Acompanhas-me, Félix?
— Acompanho.
Continuo.
— Sang Chaud…
Lucian retoma.
— Não acreditarás em mim, Félix…
— Acredito, Lucian. Continua.
— Isto não está no caderno… É apenas a minha opinião. Insensivelmente, Sang Chaud—que era o inverso de Don Carotte—tornou-se “à sua imagem”…
— Vejo, diz Félix.
Lucian continua.
— Eu disse-te: há já algum tempo Sang Chaud se rebela contra Igniatius… e este, na nossa sessão anterior, queixava-se disso!
“Como se fosse conveniente, até lícito, que uma personagem te escapasse e quisesse tornar-se seu próprio mestre… ou mesmo seu autor”, disse-me ele, acrescentando: “Imagina isso, Lucian!”
Em voz baixa, Lucian pensa intensamente.
— Vejo bem que Félix me observa e pensa que já não sou totalmente eu mesmo… Ele tem razão… deve ser visível, e é verdade que já não sou inteiramente eu…
A voz de Félix, vinda de longe, retoma, e eu recomponho-me.
— Retoma simplesmente o caderno, Lucian, por favor, e voltemos ao que ele diz.
— Pois bem, neste caderno, Don Carotte—visivelmente furioso também—interroga Sang Chaud… que tomou o seu lugar… compreenda quem puder… Lembra-te: se acredito na história contada por Igniatius, Don Carotte deveria ter desaparecido! E, no entanto, neste caderno leio que eles falam entre si… Está escrito… Don Carotte pergunta:
— O que se poderá passar na cabeça de Igniatius para arquitetar um golpe destes? Como poderia eu existir em ti… enfim…
Depois, na página seguinte, Sang Chaud—que confessa já não ser totalmente ele mesmo—anota:
“Nesse momento Don Carotte já não está diante de mim; esqueceu-me e imagina estar diante de Igniatius. Eis o que acrescenta:
— Sob a forma, ainda que depurada, deste… perdoa a expressão… balofo?”
Sang Chaud, ainda numa espécie de entre-dois, não totalmente à imagem de Don Carotte, mas sem relevar a afronta, escreve no caderno a resposta que dá a Don Carotte.
“— Quem é, então, esse chamado Igniatius, de quem até agora nunca ouvi falar?”
Don Carotte responde-lhe:
— É o nosso criador…
Lucian, um pouco cansado, tem dificuldade em seguir o seu próprio discurso. Ele deixa de falar. Félix deixa passar algum tempo e, sem apressar nada, pergunta:
— Como é que tu, Lucian, compreendes “o que se diz” neste caderno?
— É assim, meu caro Félix, que, para Sang Chaud, começa a difícil ascensão do espírito refratário de Don Carotte. Ele tem em si duas vozes que literalmente não conseguem nem ouvir-se… nem sequer sentir-se!
— Isso é muito interessante, Lucian. Gostarias de desenvolver esses dois últimos pontos?
A pergunta foi feita num tom calmo que não era realmente uma pergunta, mas antes um marco, quase uma indicação.
Lucian, já não muito presente, ouve-se dizer:
— Já não vejo, hesito. Sinto mais do que sei que Don Carotte, Sang Chaud e Igniatius são um só…
E acrescenta, sem pensar muito:
— Três em um… que dá nascimento a Anatole… a luz que se levanta…
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