mardi 14 avril 2026

(30) A abracadabrante história da Criança Lua

 
 
«O fundo da busca noética é talvez este: trata-se de recuperar os domínios perdidos do psiquismo conquistados pelo inimigo. Trata-se de ganhar pós-linguagem sobre a pré-linguagem e sobre a interdependência humana de que ela é o vetor. Tese. A definição do pensamento mítico é simples: se o mito é a narrativa que funda o grupo, então, no interior dessa narrativa (a língua transmitida), o narrador é o grupo que mobiliza as suas cinco estratégias de caça sobre o meio que vai discernindo pouco a pouco na pressão envolvente. A matilha permanece o mestre, por pouco sincronizada que esteja com os novos tempos.
Se pensar depende da linguagem coletiva adquirida na língua ancestral do grupo, poderá o pensamento despender essa dependência? Não. Nenhum grupo «inventou» a língua que fala.
Nenhum sujeito fez a experiência do passado que transmite. A pulsação do coração de cada um não é desencadeada pelo seu próprio coração — mas pelo pulso do coração da mãe. A língua não é inventada pelos grupos que a falam. De forma curiosa, a sua natureza não é de modo algum artificial nem técnica. (Não é divina nem humana, mas é sem nomoteta e é não-tética.) A magnífica possibilidade teórica que Étienne de La Boétie destacou é impossível. Pode-se libertar tanto quanto possível, mas não se pode ser livre. Se pensar depende da linguagem coletiva adquirida na língua natural, poderá o pensamento pensar o mais possível a sua dependência em relação àquilo que precede o grupo que a língua solidarizou? Talvez, um pouco, sim.
Pode-se até morrer para pensar.
É por isso que é preciso contemplar o vazio a montante de todas as coisas. Pode-se renascer de morrer. (Pode-se ser desalojado.) Pode-se morrer de pensar. (O pensamento tem conteúdo.) O nascimento pode ser prosseguido no seu estranho terror errante. (Pode-se renascer. Pode-se recomeçar a vida.) O primeiro mundo pode avançar o seu focinho no segundo mundo. O primeiro reino ainda reina sobre o último reino.
O outrora ainda surge. O sol ainda ilumina.
O que é mais antigo no tempo está ligado ao que é mais espontâneo na sua forma.
Escólio. É por isso que a natureza é o melhor dos visíveis.
O seu jorro ainda brota por detrás da primeira visibilidade. Continua a ser um estranho olhar retrospectivo.»
 
Pascal Quignard, Morrer de Pensar
 
 
 Caderno da Criança-Lua
 
Estes cadernos falam de coisas difíceis de dizer, mas que quase todos já sentiram sem saber nomeá-las. Escrevi-os muito antes de falar, antes mesmo de saber quem eu era… ou quem somos… Nesses tempos, algo em nós já existia. Há uma vida mais antiga do que as nossas ideias, e do que a nossa vontade, mais antiga até do que a nossa maneira de dizer «eu».
Falar de «busca noética» é falar da procura do pensamento. Mas não se trata aqui de aprender coisas como na escola. Trata-se de saber o que pensar quer dizer no mais profundo. De onde vêm os nossos pensamentos?
Caderno de Lucian
De onde vêm os pensamentos da Criança-Lua? São realmente dele… ou nossos? Ou vêm-nos de um mundo mais antigo do que nós?
Só posso admirar-me pelo facto de a Criança-Lua ter podido ter este tipo de leitura… e isso leva-me também a reconsiderar o facto de ser Igniatius quem a transmite. Ele fala pouco, mas traz muito…
Quando ele diz, retomando o que leu, que é preciso «recuperar os domínios perdidos do psiquismo conquistados pelo inimigo», isso pode parecer muito abstrato. Na realidade, a ideia é bastante simples. Quer dizer que uma parte da nossa vida interior nos foi retirada… talvez recoberta… até ocupada. Por quê? Pelo grupo, pelo hábito, pela língua comum, pelo que todos dizem… pensam… transmitem… ou repetem. O «inimigo» não é apenas alguém de fora. É também tudo aquilo que, em nós, repete incessantemente o que vem dos outros.
Ou seja: acreditamos pensar livremente, mas uma grande parte do que pensamos já nos foi dada. A língua que falamos… não a inventámos. As histórias, as imagens, os medos, as formas de ver o mundo já existiam antes do nosso nascimento. Entramos numa casa já construída.
É por isso que, como Quignard, a Criança-Lua, pela boca de Igniatius, fala de mito. Aqui, o mito não significa apenas uma velha lenda com deuses e monstros. O mito é, mais amplamente, a grande narrativa em que um grupo humano se reconhece. É a história que ele conta a si mesmo para saber quem é, o que deve temer ou amar. O mito dá forma ao mundo. Neste caso, a um mundo no qual outro mundo se instalou…
E dentro dessa história, dentro do seu mundo… no interior do de Igniatius… a Criança-Lua apercebe-se… e diz… na esteira de Quignard, que não é verdadeiramente um indivíduo que fala. Seria o grupo. O narrador, no fundo, seria uma matilha. Isso quer dizer que a palavra humana não é, em primeiro lugar, solitária. Ela já traz a marca dos outros, dos antepassados, da coletividade. «Mesmo quando falo sozinho, algo do grupo ainda fala em mim.»
Estas palavras ressoam profundamente. Colocam uma questão quase dolorosa: se pensar depende da língua recebida do grupo, poderá alguém libertar-se dessa dependência?
Será Igniatius independente da Criança-Lua… ou de Don Carotte… ou o contrário? A resposta é severa: não… não completamente. Pode-se libertar um pouco, ganhar alguma distância, ver um pouco mais claramente. Mas tornar-se absolutamente livre, não. Porquê? Porque o próprio meio com que pensamos, a língua, não vem de nós.
O exemplo do coração e da mãe é essencial. Diz que o batimento do coração de cada um não é inicialmente desencadeado pelo seu próprio coração, mas pelo da mãe. Esta imagem diz algo de muito simples e muito profundo: a nossa vida começa na dependência. Antes de sermos separados… se alguma vez o somos… vivemos num outro ritmo que não o nosso. Somos primeiro ligados. Não começamos como seres independentes. Começamos como seres transportados.
E o que é verdadeiro para o corpo é também verdadeiro para a língua e para o pensamento… e também para Igniatius… para a Criança-Lua, para Don Carotte, para Sangue Quente, para Pinóquio o Outro… e para mim… e para todos nós…
 
 
 

 

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