jeudi 16 avril 2026

(33) A abracadabrante história da Criança Lua


«O mundo não é aquilo que penso, mas aquilo que vivo; estou aberto ao mundo, comunico indubitavelmente com ele, mas não o possuo, ele é inesgotável.
Não há, de um lado, as coisas, e do outro, uma consciência que as perceciona; há uma espécie de tecido comum onde se prendem ao mesmo tempo os objetos e o sujeito.
A perceção não é uma ciência do mundo, nem sequer um ato, uma tomada de posição deliberada; é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam e que eles pressupõem.
O mundo não é um objeto cuja lei de constituição eu possua em mim; é o meio natural e o campo de todos os meus pensamentos e de todas as minhas perceções explícitas.
A verdade não «habita» apenas o «homem interior», ou melhor, não há homem interior: o homem está no mundo, é no mundo que se conhece.
Quando regresso a mim a partir do dogmatismo do senso comum ou do dogmatismo da ciência, encontro não um foco de verdade intrínseca, mas um sujeito entregue ao mundo.»
 
Maurice Merleau-Ponty, Fenomenologia da Perceção
 
 
Caderno do Nounours
 
Agora, aqui está algo um pouco mais subtil. Quando se começa a prestar atenção a esses óculos invisíveis de que eu falava há pouco…
— Nós não vemos…
— É precisamente isso… uma maneira de ver o mundo… com óculos invisíveis… bem… começa-se a descobrir que poderíamos usar outros.
— Como assim?
— Por exemplo, em vez de dizer «há uma coisa», poderíamos dizer: «algo está a acontecer». Vê a diferença?
— Não…
— No primeiro caso, o mundo é feito de objetos. No segundo, é feito de acontecimentos. E, de repente, já não é exatamente o mesmo mundo. Assim, uma ontologia implícita seria isto:
uma maneira de ver aquilo que existe, que usamos sem pensar, mas que influencia tudo o que dizemos e compreendemos. E talvez tornar-se atento não seja apenas aprender coisas novas. É também começar a ver os óculos invisíveis que sempre usámos.
— Mas… mais concretamente… qual seria a diferença entre dizer «há coisas» e «algo está a acontecer»?
— Dizer «há coisas»… é supor um mundo já recortado, já colocado diante de ti. Dizer «algo está a acontecer» é já reintroduzir movimento, o aparecer, uma espécie de surgimento… e o gesto vai ainda mais longe: já não há, de um lado, aquilo que é, e do outro, aquele que vê. Há um campo comum, uma espécie de tecido… feito de fios entrelaçados.
Ou seja, até os «óculos invisíveis» não estão simplesmente pousados nos olhos de um observador: fazem parte do próprio mundo.
— Então seria preciso… mudar de óculos!?
— Tornar-se atento não é apenas mudar de óculos. É começar a sentir que ver nunca é neutro, que ver já é estar envolvido numa certa maneira como o mundo advém.
 
 

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