«O
mundo não é aquilo que penso, mas aquilo que vivo; estou aberto ao
mundo, comunico indubitavelmente com ele, mas não o possuo, ele é
inesgotável.
Não há, de um lado, as coisas, e do outro, uma consciência que as perceciona; há uma espécie de tecido comum onde se prendem ao mesmo tempo os objetos e o sujeito.
A perceção não é uma ciência do mundo, nem sequer um ato, uma tomada de posição deliberada; é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam e que eles pressupõem.
O mundo não é um objeto cuja lei de constituição eu possua em mim; é o meio natural e o campo de todos os meus pensamentos e de todas as minhas perceções explícitas.
A verdade não «habita» apenas o «homem interior», ou melhor, não há homem interior: o homem está no mundo, é no mundo que se conhece.
Quando regresso a mim a partir do dogmatismo do senso comum ou do dogmatismo da ciência, encontro não um foco de verdade intrínseca, mas um sujeito entregue ao mundo.»
Não há, de um lado, as coisas, e do outro, uma consciência que as perceciona; há uma espécie de tecido comum onde se prendem ao mesmo tempo os objetos e o sujeito.
A perceção não é uma ciência do mundo, nem sequer um ato, uma tomada de posição deliberada; é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam e que eles pressupõem.
O mundo não é um objeto cuja lei de constituição eu possua em mim; é o meio natural e o campo de todos os meus pensamentos e de todas as minhas perceções explícitas.
A verdade não «habita» apenas o «homem interior», ou melhor, não há homem interior: o homem está no mundo, é no mundo que se conhece.
Quando regresso a mim a partir do dogmatismo do senso comum ou do dogmatismo da ciência, encontro não um foco de verdade intrínseca, mas um sujeito entregue ao mundo.»
Maurice Merleau-Ponty, Fenomenologia da Perceção
Caderno do Nounours
Agora,
aqui está algo um pouco mais subtil. Quando se começa a prestar atenção
a esses óculos invisíveis de que eu falava há pouco…
— Nós não vemos…
— É precisamente isso… uma maneira de ver o mundo… com óculos invisíveis… bem… começa-se a descobrir que poderíamos usar outros.
— Como assim?
— Por exemplo, em vez de dizer «há uma coisa», poderíamos dizer: «algo está a acontecer». Vê a diferença?
— Não…
— No primeiro caso, o mundo é feito de objetos. No segundo, é feito de acontecimentos. E, de repente, já não é exatamente o mesmo mundo. Assim, uma ontologia implícita seria isto:
— É precisamente isso… uma maneira de ver o mundo… com óculos invisíveis… bem… começa-se a descobrir que poderíamos usar outros.
— Como assim?
— Por exemplo, em vez de dizer «há uma coisa», poderíamos dizer: «algo está a acontecer». Vê a diferença?
— Não…
— No primeiro caso, o mundo é feito de objetos. No segundo, é feito de acontecimentos. E, de repente, já não é exatamente o mesmo mundo. Assim, uma ontologia implícita seria isto:
uma
maneira de ver aquilo que existe, que usamos sem pensar, mas que
influencia tudo o que dizemos e compreendemos. E talvez tornar-se atento
não seja apenas aprender coisas novas. É também começar a ver os óculos
invisíveis que sempre usámos.
— Mas… mais concretamente… qual seria a diferença entre dizer «há coisas» e «algo está a acontecer»?
— Dizer «há coisas»… é supor um mundo já recortado, já colocado diante de ti. Dizer «algo está a acontecer» é já reintroduzir movimento, o aparecer, uma espécie de surgimento… e o gesto vai ainda mais longe: já não há, de um lado, aquilo que é, e do outro, aquele que vê. Há um campo comum, uma espécie de tecido… feito de fios entrelaçados.
— Dizer «há coisas»… é supor um mundo já recortado, já colocado diante de ti. Dizer «algo está a acontecer» é já reintroduzir movimento, o aparecer, uma espécie de surgimento… e o gesto vai ainda mais longe: já não há, de um lado, aquilo que é, e do outro, aquele que vê. Há um campo comum, uma espécie de tecido… feito de fios entrelaçados.
Ou seja, até os «óculos invisíveis» não estão simplesmente pousados nos olhos de um observador: fazem parte do próprio mundo.
— Então seria preciso… mudar de óculos!?
— Tornar-se atento não é apenas mudar de óculos. É começar a sentir que ver nunca é neutro, que ver já é estar envolvido numa certa maneira como o mundo advém.
— Tornar-se atento não é apenas mudar de óculos. É começar a sentir que ver nunca é neutro, que ver já é estar envolvido numa certa maneira como o mundo advém.
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