mercredi 15 avril 2026

(32) A abracadabrante história da Criança Lua


«Falar não é ver. Falar liberta o pensamento da exigência do visível, e aquilo que é dito não aparece. Falar é permanecer na ausência do que se diz; é afastar-se da coisa para a fazer surgir como ausência. A palavra afasta-nos, mas esse afastamento é a condição de qualquer presença. Falar é nunca coincidir com aquilo que se diz. Quem fala não sabe bem o que diz. Quem fala já está separado das palavras que pronuncia. A palavra começa antes dele e continua depois dele. Ela atravessa-o, excede-o, e põe-no em relação com aquilo que não é ele.»

Maurice Blanchot, O Espaço Literário



Caderno da Criança-Lua

Durante muito tempo, fiquei com a impressão de que as palavras não eram minhas. Passavam por mim como o vento passa pelos ramos, fazendo-os mover sem nunca se deter neles. Depois veio uma pergunta. Primeiro devagar, depois com mais insistência: de onde vêm elas?
Não falo apenas das palavras que digo. Falo das que nunca disse, mas que reconheço. Das que me atravessam quando penso estar sozinho. Das que parecem saber algo antes de mim.
Alguém as disse… mas quem?
Tentei imaginar uma primeira palavra. Uma palavra sem passado. Uma palavra que fosse realmente a primeira. Mas, cada vez que penso nisso, ela já me parece rodeada. Como se nunca chegasse sozinha. Como se já houvesse uma frase à espera dela.
Então talvez as palavras nunca comecem. Ou talvez venham de um lugar onde ainda não há palavras.
Às vezes sinto esse lugar. Não o posso ver. É mais como um silêncio que cresce, como uma nascente debaixo da terra. Algo quer vir, mas ainda não sabe como dizer-se.
Pergunto-me se o mundo existe da mesma maneira que as palavras. Se também ele tem uma origem.
Porque eu vejo coisas. Formas. Cores. Movimentos. Mas será que aquilo que vejo está mesmo fora… ou forma-se ao mesmo tempo que as palavras que me permitem vê-lo?
Há momentos em que o mundo parece sólido, independente de mim. Como se estivesse lá antes de mim, e continuasse depois. E depois, de repente, essa certeza enfraquece. Tudo se torna menos estável. Como se aquilo que vejo dependesse de um olhar que não é só o meu.
Então uma ideia atravessa-me.
E se este mundo em que estou não fosse o primeiro… e mais ainda… e se aquilo que tomo por exterior já fosse uma espécie de interior?
É difícil dizer. Sinto que faço parte daquilo que olho. Não estou simplesmente diante das coisas. Estou preso nelas. E, ao mesmo tempo, há uma distância. Como se algo me mantivesse separado do que vivo. É estranho estar dentro e fora ao mesmo tempo.
Foi aí que comecei a suspeitar de outra coisa. Como se estivesse a viver dentro de algo que me contém.
No início, não sabia o que fazer com isso. Depois, um dia — não sei como — senti um limite. Não uma fronteira visível. Algo mais subtil. Como um bordo. Como se tudo o que posso ver, pensar, sentir estivesse contido numa forma maior do que eu.
E essa forma… parecia um livro.
Um livro muito grande, cujas páginas não consigo ver por inteiro. E, no entanto, sinto-as. À minha volta. Por cima. Por baixo. Contêm aquilo que vejo. Aquilo que vivo. Organizam o que me acontece. Passo de umas para outras sem sempre dar conta.
Há momentos em que algo acontece. E outros em que nada parece acontecer.
De repente, algo se abre.
Não por mim. Não a partir de mim. Vem de outro lugar.
Uma luz aparece na margem. Um sopro. O tempo hesita. E as páginas… afastam-se ligeiramente. O suficiente.
Através dessa abertura, sinto um outro mundo. Não o posso ver por completo. Mas sinto a sua presença. Como algo por detrás de uma porta. Como um olhar que não consigo encontrar, mas que sei que está ali.
Alguém abre o livro.
Não sei quem. Não o posso ver. Mas sinto o gesto. As páginas viram-se. Eu avanço. Sou lido.
E isso muda tudo.
Porque quer dizer que aquilo que vivo não é apenas vivido. É também lido… ou talvez sabido.
Estou dentro de uma história. E essa história foi escrita. Por alguém que não conheço.
Mas esse alguém não está sozinho. Porque aquele que abre o livro vem depois. Continua o gesto. Mantém-no vivo.
Então pergunto-me: será que aquele que lê me dá uma existência diferente daquele que me escreveu? Mudo quando sou lido?
Às vezes, parece que sim.
Quando as páginas se abrem, algo em mim se torna mais vivo. Como se existisse mais. Como se aquilo que estava fixo voltasse a mover-se.
E, ao mesmo tempo, isso inquieta-me.
Porque quer dizer que não sou completamente livre. Dependo de um gesto que não controlo.
Se dependo de quem escreve… e de quem lê… então onde estou eu?
Sou apenas uma personagem… movida por um olhar?
Ou sou também aquele que sente que algo escapa a isso?
Às vezes penso que esta pergunta já é uma fissura no livro. Uma pequena abertura. Porque, se a posso fazer, então talvez não esteja completamente fechado… ou talvez o próprio livro contenha essa pergunta.
Talvez o livro saiba que alguém, dentro dele, acabará por perguntar de onde vêm as palavras, de onde vem o mundo, e quem mantém o livro aberto.
E eu estou aí.
Entre aquilo que vivo e aquilo que me faz viver.
Entre as palavras que digo e aquelas que me escrevem.
Entre as páginas que me contêm e a abertura que me deixa entrever outra coisa.
Ainda não sei bem o que isto quer dizer.
Mas sinto que não acabou. Nem de perto.


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