mardi 14 avril 2026

(31) A abracadabrante história da Criança Lua


«A linguagem é a casa do Ser. No seu abrigo habita o homem. Os pensadores e os poetas são os guardiões dessa morada. A sua guarda consiste em realizar a manifestação do Ser, na medida em que, pelo seu dizer, conduzem essa manifestação à linguagem e a conservam na linguagem.»

Martin Heidegger, Carta sobre o Humanismo




Caderno de Lucian

Falamos a partir de uma dependência mais antiga do que nós. Há, portanto, na nossa vida, uma espécie de dívida originária. Não uma culpa, mas uma anterioridade impossível de apagar.
Quando Pascal Quignard diz que a língua não é «nem divina nem humana», quer dizer que ela ultrapassa essa oposição. Não é simplesmente fabricada como um instrumento. Nem caiu do céu como uma lei sagrada. Precede-nos, circula, transmite-se, transforma-se, mas ninguém pode verdadeiramente dizer: «eis quem a fundou». Ela está aí antes de nós, e nós recebemo-la.
É por isso que ele corrige antecipadamente o sonho de liberdade total. Diz, em suma: pode-se libertar tanto quanto possível, mas não se pode ser absolutamente livre. Esta frase pode parecer pessimista. Na realidade, é sobretudo lúcida. Recorda-nos que não somos, quem quer que sejamos, começos puros. Estamos sempre já presos em ligações.
Mas o texto… todo o texto… não se detém nesta dependência. Procura uma abertura. Essa abertura é a possibilidade de pensar a nossa dependência. Não podemos sair completamente da língua, nem do grupo, nem da origem. No entanto, podemos aproximar-nos do que nos precede. Podemos tentar sentir aquilo que, em nós, vem de antes de nós.
É aqui que surge a ideia de «pré-linguagem» e de «pós-linguagem». A pré-linguagem é aquilo que existe antes das palavras: as sensações primeiras, as emoções brutas, os ritmos do corpo, os medos arcaicos, o vínculo à mãe, o grito, a noite, o terror, a fome, a presença, a ausência. Tudo isso existe antes do discurso. Não sei se a Criança-Lua conhece isso…
A pós-linguagem não é simplesmente aquilo que vem depois de falar bem. É antes um estado em que o pensamento tenta ultrapassar a linguagem comum sem a abolir. Como se, através das palavras, se tentasse alcançar algo que as palavras não contêm totalmente. A literatura, em Quignard, vai frequentemente nesse sentido: serve-se da língua para tocar aquilo que precede a língua.
Neste sentido, pensar verdadeiramente não consiste apenas em organizar ideias. Pensar verdadeiramente seria aproximar-se dessa zona muito antiga em nós, dessa obscuridade primeira, desse nascimento que nunca está completamente concluído.
É por isso que ele escreve: «é preciso contemplar o vazio a montante de todas as coisas». O «vazio» aqui não é apenas o nada. É o antes. É o que havia antes das formas demasiado nítidas, antes dos nomes, antes das explicações. Contemplar esse vazio é aceitar olhar para aquilo que, em nós, ainda não está bem ordenado. É arriscado, porque aí perdemos os nossos pontos de referência.
Daí as frases muito fortes: «Pode-se morrer para pensar», «Pode-se morrer de pensar». Não devem ser entendidas apenas no sentido físico. Quignard quer dizer que pensar até ao fim pode abalar a existência. Pensar verdadeiramente pode desfazer as seguranças habituais. Pode desestabilizar, fazer cair certezas, fazer vacilar a identidade que se julgava imutável. Pensar não é sempre confortável. Toca o nascimento, a perda, a morte.
E, no entanto, há neste texto uma promessa. Ele diz também: «Pode-se renascer. Pode-se recomeçar a vida.» Isto quer dizer que essa descida à origem não é apenas destrutiva. Pode também abrir um novo começo. Ao atravessar algo de muito antigo, de muito obscuro, pode-se reencontrar uma forma de vida mais viva, menos aprisionada nos automatismos do grupo.
Quando escreve: «O primeiro mundo pode avançar o seu focinho no segundo mundo», a imagem é quase animal. O primeiro mundo é o mundo arcaico, primitivo, anterior às palavras, anterior às regras sociais. O segundo mundo é o mundo organizado, civilizado, falado, regulado. O primeiro não desapareceu. Ainda avança a sua cabeça no segundo. Continua a atravessá-lo. O passado mais antigo não está morto. Ele regressa.
É isso que ele diz ainda mais simplesmente: «O outrora ainda surge.» O outrora é o muito antigo. Mas aqui, como para a Criança-Lua, não é um passado fechado atrás de nós. É um passado que insiste, que regressa, que aflora no presente. Aquilo que é mais antigo em nós é frequentemente também aquilo que surge de forma mais espontânea: um medo súbito, um desejo, uma imagem, uma emoção sem explicação, uma atração pela noite, pela floresta, pelo mar, por um rosto, por uma música. O mais antigo não foi abolido. Continua a trabalhar em nós.
É aqui que surge a frase final sobre a natureza.
«A natureza é o melhor dos visíveis.»
Isto quer dizer: entre todas as coisas que vemos, a natureza é talvez aquilo que ainda deixa melhor aparecer essa origem mais antiga. Porquê? Porque não é inteiramente fabricada pelo homem. Ela surge. Cresce. Jorra. Transborda. Vem de um fundo mais antigo do que as nossas construções.
Quando ele acrescenta que o seu «jorro ainda jorra por detrás da visibilidade primeira», quer dizer que, na natureza, algo da origem ainda é visível. Não completamente, não claramente, mas de modo sensível. Uma luz sobre o mar, um ramo ao vento, um animal que surge, o brilho do sol — tudo isso pode dar-nos a impressão de ver algo que vem de muito mais longe do que aquilo que podemos nomear.
A última expressão, «um estranho olhar retrospectivo», é magnífica. Significa que ver a natureza não é apenas olhar para a frente. É como olhar para trás, para um passado sem memória precisa, para uma profundidade anterior à nossa vida consciente. A natureza faz-nos sentir algo de arcaico. Recorda-nos um mundo primeiro que nunca conhecemos verdadeiramente como sujeitos, mas de onde viemos.
Simplificando muito, poder-se-ia dizer que este texto diz o seguinte: o ser humano acredita muitas vezes que pensa sozinho, mas nunca pensa sozinho. Pensa numa língua que recebeu, em narrativas que não escolheu, numa dependência mais antiga do que ele. No entanto, pode tentar regressar a essa origem obscura. Isso perturba-o, coloca-o em risco, mas também pode fazê-lo renascer. E a natureza é, para ele, um dos raros lugares onde essa origem ainda se deixa entrever.
Há, portanto, nesta passagem, três ideias muito simples, ainda que ditas de forma difícil. Primeiro, não começamos por nós mesmos. Depois, pensar verdadeiramente consiste em aproximar-se do que precede as nossas palavras. Por fim, esse esforço não traz uma liberdade total, mas uma lucidez mais profunda, por vezes dolorosa, por vezes renovadora.


Aucun commentaire: