« Da história, ela espera apenas uma coisa de nós: que a ergamos, isto é, que a suspendamos, para que possa ser lançada de novo, representada de novo. Para recomeçar. A história nunca deixa — estruturalmente — de desejar precisamente quando regressa sobre si mesma e faz memória de si. Constantemente procura ou reencontra novos ritmos. Quer ser capaz de bifurcar, de separar certas coisas demasiado familiares e de pôr outras em contactos inesperados: maneiras de imaginar. Quer fazer cessar o que parecia estabelecido, fazer começar o que parecia impossível. Quer fazer variar a canção da existência, sem esquecer nada daquilo que já foi tentado.»
Georges Didi-Huberman,
Imaginar Recomeçar
O que nos ergue (2), p. 37
Les Éditions de Minuit
Onde Félix, ainda diante da insondável massa de documentos que se acumulava diante dele — e dentro dele —, adormecera. Durante o sono, ouve uma voz que não reconhece e, ao despertar, apressa-se a anotar aquilo que compreende apenas pela metade e que não cessa de lhe escapar.
Excerto do Jornal do Arquipélago
Pouco antes do crepúsculo, e antes que tivessem podido reconhecer os lugares da sua viagem anterior, sentimo-los regressar… esses seres de palavra fecunda e ágil, de pés desajeitados e mãos armadas de cajados.
Julgavam, sem dúvida, aproximar-se de uma floresta. Nós já reconhecíamos a maneira como os seus passos hesitavam muito antes de os seus olhos reencontrarem o menor ponto de referência. Não reconhecemos os caminhos como os homens o fazem. Reconhecemos, antes, aquilo… ou aqueles… que os atravessam.
Muito antes da sua chegada, os musgos colonizadores haviam prosseguido o seu trabalho; as raízes, o seu paciente comércio com a pedra; as lianas, num silêncio suspenso, a sua lenta conversa com a luz. Nada esperara pelo seu regresso. Os lugares nunca suspendem a sua existência. Continuam simplesmente a ser, até que um olhar, uma vez mais, os venha encontrar.
Gostamos desses raros instantes. É o momento em que aquele que acredita regressar descobre que nunca se entra duas vezes na mesma paisagem. Não apenas porque o lugar mudou, mas também porque aquele que regressa já não é inteiramente aquele que partiu.
Vimo-los abrandar o passo. Talvez digam que escolheram caminhar mais devagar. A nós parece-nos, antes, que a sua própria medida do tempo, sem que o saibam, consente pouco a pouco em harmonizar-se com outra. As árvores nada lhes impõem. Apenas lhes recordam uma duração que já traziam consigo sem o saber.
Conhecemos mal os nomes. Eles passam mais depressa do que as estações. Em compensação, reconhecemos certas maneiras de olhar. Há olhares que procuram possuir… outros compreender. Outros ainda esquecem, pouco a pouco, que estão a olhar. É muitas vezes nesse preciso instante que alguma coisa começa.
Já vimos isso inúmeras vezes. A pedra nada ensina… acolhe. O mar nada explica… liga. O vento nada conserva… distribui. E, contudo, do seu silencioso acordo nascem por vezes seres que imaginam ter descoberto aquilo que os esperava desde sempre.
Quando a lua atravessa a abóbada das árvores, não vemos a noite suceder ao dia. Apenas sentimos que um antigo equilíbrio reencontra uma forma de respiração. As sombras mudam de lugar sem jamais abandonar aquilo que as sustém.
Assim prosseguem eles o seu caminho…
Outros hão de segui-los…
Outros ainda lerão os seus cadernos, contemplarão os seus desenhos, refarão os seus percursos, julgando procurar os mesmos lugares.
Nunca sabemos o que vêm procurar.
Sabemos apenas que raramente partem levando consigo aquilo que tinham vindo encontrar.
Talvez seja essa a nossa maneira de habitar o mundo.
Não somos nem as ilhas, nem as florestas, nem as falésias, nem os vulcões, nem sequer o mar que as separa.
Somos aquilo que, entre todos eles, nunca deixa de os conduzir uns aos outros.
E quando, muito mais tarde, os seus nomes tiverem entrado no silêncio, as suas passagens continuarão, ainda assim, a habitar os nossos mil lugares.
É assim que nasce o equívoco jornal a que Félix, por falta de melhor nome, chama Jornal do Arquipélago.

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