dimanche 13 septembre 2026

(209) A abracadabrante história da Criança Lua

 

Onde Félix, ao dar cor aos esboços que supõe serem de Lucian e que figuram nos seus cadernos de viagem, ainda não consegue reproduzir inteiramente o traço característico desses desenhos… e, sendo obrigado a simplificar, apercebe-se de que alguma coisa tem de ser posta em jogo para que uma passagem possa ter lugar e… entretanto… o seu espírito liberta-se e viaja…

 

 

Caderno de Lucian

Volto a pensar no espectador que paga o seu lugar para entrar no teatro ou sob o chapiteau, e pergunto-me se o dinheiro que dá não será o preço menos interessante de todos. Foi preciso sair, vir até aqui, sentar-se entre outros, aceitar durante algum tempo que alguma coisa aconteça sem que ele seja inteiramente senhor do que acontece. Talvez o verdadeiro preço comece quando abandona a segurança de certos hábitos, quando já não consegue olhar para aquilo que se passa como se isso não tivesse qualquer consequência sobre a maneira como olha.

Alguma coisa tem de ser posta em jogo para que a passagem tenha lugar.

Não necessariamente alguma coisa de grande, e sobretudo não essa espécie de conversão solene que certos livros parecem exigir do leitor antes mesmo de ele ter começado a lê-los. Pode ser quase nada: uma certeza que se tornou inutilizável, uma distinção que até então se mantinha perfeitamente e que começa a esbater-se, um lugar exterior ao qual julgávamos ter direito e que pouco a pouco descobrimos não existir.

Pergunto-me então se não terei procurado durante demasiado tempo compreender aquilo que contêm estes cadernos, estes blocos, estas cartas e estes desenhos.

Talvez devesse antes olhar para aquilo que me obrigam a fazer.

Contêm histórias, fragmentos, figuras, recordações que já nem sempre sei a quem pertencem, mas também resistências, repetições, lacunas, vestígios incompletos, passagens que não coincidem, portas que se abrem para lugares por onde julgávamos já ter passado. Ainda não sei o que tudo isto virá a formar, nem sequer se será justo pensar já em termos de livro.

Mas se um livro viesse um dia a nascer de tudo isto, talvez não contivesse o caminho. Poderia conter apenas vestígios suficientes para que alguém fosse obrigado a fazê-lo.

E, se assim for, tenho então de admitir algo que me diz respeito mais do que eu teria desejado: julgava estar a descrever o momento em que me apercebi de que já não podia observar esta história a partir da margem, mas talvez esse momento não tenha qualquer privilégio particular, talvez seja apenas um dos lugares onde aquilo que já tinha começado se torna visível.

Talvez eu não tenha deixado a margem quando compreendi que estava dentro do rio. Já lá estava. E aquilo que hoje me permite aperceber-me disso talvez não seja a própria corrente, pois eu poderia ainda deixar-me levar por ela sem a ver, mas aquela antiga função que julgava ter abandonado e que permanece algures, imóvel no meio daquilo que passa, como a rocha em torno da qual a água de repente embranquece.

Aquele que, um dia talvez, passar por estas páginas poderá sorrir do meu atraso, até ao momento em que se perguntar há quanto tempo a corrente passa também por ele.


 

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