vendredi 17 avril 2026

(34) A abracadabrante história da Criança Lua

 

«O mundo não é aquilo que penso, mas aquilo que vivo; estou aberto ao mundo, comunico indubitavelmente com ele, mas não o possuo, ele é inesgotável.
Não há, de um lado, as coisas, e do outro, uma consciência que as perceciona; há uma espécie de tecido comum onde se prendem ao mesmo tempo os objetos e o sujeito.
A perceção não é uma ciência do mundo, nem sequer um ato, uma tomada de posição deliberada; é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam e que eles pressupõem.
O mundo não é um objeto cuja lei de constituição eu possua em mim; é o meio natural e o campo de todos os meus pensamentos e de todas as minhas perceções explícitas.
A verdade não «habita» apenas o «homem interior»; ou melhor, não há homem interior: o homem está no mundo, é no mundo que se conhece.
Quando regresso a mim a partir do dogmatismo do senso comum ou do dogmatismo da ciência, encontro não um foco de verdade intrínseca, mas um sujeito entregue ao mundo.»

Maurice Merleau-Ponty, Fenomenologia da Perceção


Caderno do Nounours

Agora, meus pequenos, aqui está algo um pouco mais subtil. Quando começamos a prestar atenção a esses óculos invisíveis de que eu falava há pouco…
— Nós não vemos…
— É precisamente isso… uma maneira de ver o mundo… com óculos invisíveis… bem… começa-se a descobrir que se poderiam usar outros.
— Como assim?
— Por exemplo, em vez de dizer «há uma coisa», poderíamos dizer: «algo está a acontecer». Vês a diferença?
— Não…
— No primeiro caso, o mundo é feito de objetos. No segundo, é feito de acontecimentos. E, de repente, já não é exatamente o mesmo mundo. Assim, uma ontologia implícita é isto: uma maneira de ver o que existe, que usamos sem pensar, mas que influencia tudo o que dizemos e compreendemos. E talvez tornar-se atento não seja apenas aprender coisas novas.
— Então o que é?
— É também, por pouco que pareça, começar a ver os óculos invisíveis que sempre usamos.
— Mas… mais concretamente… qual é a diferença entre dizer «há coisas» e «algo está a acontecer»?
— Dizer «há coisas»… é supor um mundo já recortado, colocado diante de ti. Dizer «algo está a acontecer» é já reintroduzir movimento… então pode aparecer… uma espécie de surgimento… E o gesto vai ainda mais longe: já não há, de um lado, aquilo que é, e do outro, aquele que vê. Há um campo comum, uma espécie de tecido… feito de fios entrelaçados. Ou seja, até os «óculos invisíveis» não estão simplesmente pousados nos olhos de um observador… fazem parte do próprio mundo.
— Então seria preciso… mudar de óculos!?
— Tornar-se atento não é apenas mudar de óculos. É começar a sentir que ver nunca é neutro, que ver já é estar envolvido numa certa maneira como o mundo advém.
— Não sabemos bem a diferença entre «vir» e «advir»…
— Há, entre «vir» e «advir», uma diferença que parece primeiro mínima, um simples prefixo, e que, no entanto, envolve duas maneiras radicalmente diferentes de pensar aquilo que acontece.
Vir é o movimento mais simples, talvez o mais antigo. Algo vem, ou alguém vem. Há uma origem, mesmo que vaga, e um percurso. Supõe um deslocamento no espaço ou no tempo, mas ainda legível. Pode-se quase sempre perguntar: de onde vem? E muitas vezes uma resposta é possível, mesmo aproximada.
Aquilo que vem pode ser esperado… pode ter sido chamado ou preparado. Mesmo quando surpreende, permanece na ordem do que podia, de certa forma, ser previsto. O verbo conserva uma familiaridade: pertence ao mundo das coisas que circulam, dos seres que se deslocam… enfim, dos acontecimentos que se inscrevem numa continuidade.
Advir, pelo contrário… é outra coisa…
Em «advir», há esse prefixo ad-, que indica não só uma direção, mas também uma espécie de realização. Aquilo que advém não se limita a vir… chega ao ser, produz-se como acontecimento.
E é aqui que a diferença se mostra realmente… aquilo que advém não pode ser simplesmente reconduzido a uma origem clara. Não é algo que se desloca até nós; é algo que surge na ordem do real, que começa a existir como acontecimento.
— Poder-se-ia dizer… aquilo que vem desloca-se no mundo… e… aquilo que advém faz mundo ao aparecer.
— Exatamente… em «vir», ainda há continuidade…
— Sim… e em «advir», há uma rutura…
— Quando uma pessoa vem, entra num espaço já existente. Mas quando algo advém — um encontro, uma palavra… — esse acontecimento transforma esse próprio espaço. Depois, nada é exatamente igual. Não é apenas algo que se acrescenta… é uma reconfiguração. Por isso, «advir» está profundamente ligado à ideia de acontecimento no sentido forte. Não um facto entre outros, mas aquilo que marca um antes e um depois. Um acontecimento que advém não estava simplesmente à espera algures; não existia ainda como tal. Torna-se o que é ao advir.
Tocamos aqui algo quase vertiginoso… aquilo que advém não vem apenas até nós…
— O que faz então?
— Atinge-nos… e por vezes até nos constitui.
Não se sai intacto do que advém. É também por isso que se diz: isso aconteceu-me. A forma indica uma passividade essencial. Onde «vir» pode ser ativo (eu venho), «advir» é muitas vezes aquilo que nos acontece sem que sejamos a sua origem nem o seu mestre.
Algo advém, e ao advir, acontece-nos… no sentido forte… toca-nos… ou transforma-nos.
— Se percebemos bem… «vir» pertence ao movimento… e «advir» ao surgimento.
— É isso… «vir» supõe ainda um mundo estável onde as coisas circulam. «Advir» designa o momento em que algo abre o mundo de outra maneira.

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