Sempre acreditei que a expressão vinha depois. Depois do pensamento, depois da emoção, depois do olhar. Agora descubro que ela começa muito antes, nessa camada invisível onde o mundo primeiro encontra maneira de se fixar em nós. Os pintores chamam-lhe uma camada de preparação, ou uma camada de aderência. Ainda não mostra nada... mas prepara tudo. Talvez o meu corpo não seja outra coisa senão essa preparação silenciosa. Eu não sou uma imagem. Sou, antes de tudo, aquilo sobre o qual as imagens aprendem a permanecer.
Excerto dos Cadernos de Igniatius
Onde se descobre que, enquanto Lucian, por sua conta e risco, explora os lugares surpreendentes que figuram nos desenhos e cadernos de Igniatius, Félix não procura demonstrar seja o que for. Descobre escrevendo. Os seus lentos e numerosos desvios não atrasam o pensamento; tornam-se o seu próprio ritmo... onde a frase apenas contorna o seu objeto para lhe permitir aparecer mais plenamente. Aqui, Félix não expõe uma teoria da expressão... faz ele próprio a experiência do que significa exprimir.
Caderno de Félix
Às vezes ocorre-me pensar que certas palavras esperaram séculos antes de encontrar alguém que finalmente lhes permitisse dizer aquilo que desde sempre sabiam. Permanecem ali, entre as mais comuns, gastas pela conversa quotidiana, polidas como seixos que apanhamos sem já lhes prestar atenção, até ao dia em que uma delas, quase contra a nossa vontade, deixa de servir para falar das coisas e começa, em vez disso, a fazê-las aparecer. Hoje parece-me que a palavra expressão pertence a essa estranha família. Sempre a compreendi como o simples ato de dizer aquilo que se pensa; contudo, depois destas horas passadas diante destes desenhos, tenho a sensação de nunca me ter verdadeiramente aproximado do seu sentido, como se a própria palavra me tivesse observado durante muito tempo antes de eu finalmente começar a devolver-lhe o olhar.
Dei por mim a seguir-lhe a origem, não por gosto da erudição, mas porque me parecia que a palavra ainda resistia, que conservava em si uma memória quase inteiramente coberta pelo uso. Exprimere: fazer sair por pressão. Esta imagem, tão concreta que quase parece grosseira — a da azeitona de onde lentamente se faz surgir o azeite ou da uva de onde se extrai o vinho — não me abandona desde então. Porque não se trata apenas de fazer sair aquilo que já lá estava, como quem retira um objeto escondido de uma caixa... alguma coisa muda no próprio instante em que aparece. O vinho já não é a uva. O azeite já não é a azeitona. Aquilo que é expresso não abandona simplesmente o seu invólucro... torna-se outro ao tornar-se visível.
Pergunto-me então se não estaremos enganados sempre que acreditamos exprimir um pensamento já formado. Talvez o pensamento ainda não exista. Talvez espere precisamente pela expressão para começar a tornar-se aquilo que virá a ser. Regressa-me aquela intuição de Merleau-Ponty, de quem já nem sei se continuo a ler ou se prossigo para além dele: a expressão não traduz um pensamento; fá-lo nascer. À medida que escrevo estas linhas, compreendo menos aquilo que queria dizer do que no momento em que me sentei diante desta página... e, no entanto, compreendo melhor aquilo que está a nascer sob a minha mão. Estranho paradoxo: não é porque sei que escrevo... é porque escrevo que um saber ainda informe começa a abrir caminho, à procura de um olhar.
Os desenhos diante de mim provocam-me exatamente a mesma impressão. Durante muito tempo olhei para eles como consequências de uma intenção, como se um pensamento prévio se tivesse simplesmente depositado sobre o papel. Hoje começo quase a suspeitar do contrário. E se estes desenhos tivessem exprimido o seu autor antes mesmo de ele saber quem era? Não quero dizer apenas que o representam... fazem-no acontecer. Não contam aquilo que ele pensava; tornam-se pouco a pouco o lugar onde o seu pensamento aprende a reconhecer-se. Talvez seja por isso que se tornou tão difícil distinguir aquele que desenha daquele que olha, aquele que narra daquele que é narrado. À medida que as imagens se multiplicam, cada um parece sair de si mesmo como uma forma ainda inacabada à procura da sua própria luz.
Percebo então que este movimento não pertence apenas aos desenhos. Pertence, antes de mais, ao próprio corpo. Falamos incessantemente do corpo como daquilo que exprime, mas talvez fosse necessário inverter esta maneira de dizer. O corpo não é apenas aquilo que exprime; é aquilo que está continuamente a ser expresso. Nunca existe por inteiro num presente imóvel. Cada encontro inflete impercetivelmente uma maneira de caminhar... cada espera modifica uma forma de levantar os olhos. Julgamos reconhecer um rosto porque os seus traços permanecem relativamente semelhantes... contudo, aquilo que reconhecemos nunca é uma forma fixa, mas a continuidade de uma metamorfose.
Começo então a pensar que o corpo humano talvez não seja outra coisa senão uma imagem que nunca deixa de se tornar imagem de si mesma. Não uma imagem contemplada do exterior, como um retrato suspenso numa parede, mas uma imagem que continua a produzir-se enquanto é olhada. Talvez seja isso que há tanto tempo me comove sem que eu consiga dar-lhe um nome quando contemplo certos desenhos: eles não mostram uma personagem... prosseguem o seu aparecimento. Não descrevem Don Carotte; continuam a fazê-lo nascer. Não representam o Menino Lua; prolongam silenciosamente o sonho através do qual ele se torna, pouco a pouco, o Menino Lua. Até os papagaios, aos quais ingenuamente atribuía o papel de narradores, me parecem agora eles próprios exprimidos por esta história que julgam apenas comentar... ou contar. Tornam-se à medida que falam. Como se o relato não fosse a sua obra, mas a sua origem.
Esta ideia conduziu-me a outra que ainda mais me surpreende. Sempre considerei a imagem como algo que conservava um instante; começo agora a acreditar que ela conserva, pelo contrário, um devir. Uma verdadeira imagem não retém o tempo: retém a sua capacidade de continuar. Eis porque certas obras parecem respirar mais intensamente hoje do que no tempo em que foram criadas. Nunca pertencem por completo à sua época porque nunca deixam de exprimir aquilo que nelas ainda não tinha terminado de aparecer. Permanecem abertas como uma nascente cujo jorro cada olhar renova.
Compreendo então — ou pelo menos parece-me compreender — porque sempre desconfiei das explicações definitivas. Explicar significa muitas vezes considerar que a expressão chegou ao fim. Ora, nada me parece mais estranho ao que estes desenhos realizam diante de mim. Eles não dizem: «é isto que deves compreender». Exercem sobre o olhar uma pressão lenta, quase impercetível, que obriga alguma coisa em mim a procurar uma forma que ainda não possuía. Não sou eu que os interpreto... são eles que exprimem pouco a pouco uma região de mim mesmo que até então permanecia silenciosa. Talvez seja isto olhar verdadeiramente... aceitar que a imagem continue o seu trabalho em nós muito depois de os nossos olhos se terem afastado dela.
E apercebo-me finalmente de que existe uma ligação secreta entre duas palavras que sempre julguei estranhas uma à outra: impressão e expressão. Talvez uma vida inteira se desenrole entre estas duas pressões inversas. O mundo imprime-se em nós com uma paciência cuja profundidade quase nunca medimos; depois, por vezes anos mais tarde, sem sabermos que acontecimento acabou finalmente por afrouxar esse aperto, alguma coisa começa enfim a exprimir-se. Julgamos criar... talvez estejamos apenas a responder a uma impressão muito antiga que esperava, desde há muito, o instante favorável para encontrar a sua passagem.
Então atravessa-me um pensamento, tão discreto que ainda não ouso dar-lhe inteira razão: pode muito bem acontecer que o verdadeiro contrário da expressão não seja o silêncio. Pelo contrário, o silêncio prepara-a muitas vezes. O seu verdadeiro contrário seria antes a compressão, essa maneira que os hábitos, as certezas ou as definições por vezes têm de manter as coisas encerradas numa forma que ainda as impede de nascer. A expressão, essa, afrouxa lentamente esse abraço. Nada acrescenta ao mundo; limita-se a devolver-lhe a possibilidade de continuar a aparecer. E talvez seja por isso que uma verdadeira imagem permanece sempre mais jovem do que a sua idade... não conserva o passado; prossegue obstinadamente esse trabalho de nascimento através do qual o próprio presente aprende, uma vez mais, a tornar-se presente.

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