vendredi 21 août 2026

(180) A abracadabrante história da Criança Lua



Onde se vê que, por vezes, é necessário perder o pé para aprender o que significa caminhar… e… que certas lições começam precisamente quando o professor falta… e… que Lucian, demasiado ocupado a salvar a própria pele, estava prestes a descobrir que um corpo pode compreender muito antes daquele que o habita.

Diário de Lucian

Debati-me primeiro contra essa ausência, como se a violência dos meus gestos pudesse obrigar o mar a devolver-me um chão, mas quanto mais nadava com a vontade de escolher inteiramente a minha direção, mais cada vaga me revelava a desproporção entre a força que lhe opunha e aquela de que ela dispunha sem sequer ter de a exercer contra mim; ganhava alguns metros quando o seu movimento seguia o meu, perdia-os quando o refluxo me retomava, julgava avançar enquanto uma massa de água mais vasta me deslocava lateralmente, e foi apenas à medida que o cansaço começou a dissolver essa obstinação que pude enfim sentir aquilo que, até então, apenas me maltratara.
Havia na vaga um momento em que ela chegava antes de se tornar visível, um impulso sob o meu corpo, uma elevação à qual eu podia consentir em vez de me opor, depois aquele instante quase impercetível em que, chegado ao cimo do seu movimento, podia dar algumas braçadas na direção que ela própria me emprestava, antes de a água recuar e de ser necessário deixar de querer vencê-la para conservar forças suficientes até à seguinte; e assim, sem que alguma vez tivesse escolhido aprendê-lo, comecei a compor com aquilo que me ultrapassava, a entrar na medida desconhecida daquela dança começada no convés, já não procurando corrigir cada movimento, mas descobrindo que alguns dos meus gestos só se tornavam possíveis na condição de serem realizados no interior de um movimento maior do que eles.
Que estranho professor de dança teria sido aquele, pensei talvez, sem conseguir dar a essa ideia mais do que a existência de um clarão fugitivo, pois já não se tratava agora de me mostrar um passo, mas de me retirar até o chão sobre o qual eu poderia repeti-lo, de me fazer compreender pelas pernas, pelos braços, pela respiração, aquilo que nenhum discurso teria podido produzir com tanta certeza, a saber, que há movimentos nos quais só tomamos parte depois de termos renunciado a ser o seu princípio; e, se alguma coisa de Igniatius se encontrava ali, eu ainda não podia sabê-lo, tal como não podia compreender quão singular era que eu, que viera procurar nas imagens o vestígio de uma palavra, fosse obrigado, antes de lá chegar, a seguir esse caminho inverso em que o corpo fala primeiro e as palavras, ofegantes, só chegam depois.
Uma massa escura aparecia por vezes entre as cristas, desaparecia quando eu voltava a descer ao cavado da ondulação, depois regressava mais larga, e levei algum tempo a compreender que aquilo que inicialmente tomara por algum objeto à deriva era a própria terra, talvez uma das ilhas, ainda não sob a forma tranquilizadora de uma margem, mas como um amontoado de rochas entre as quais a água saltava em grandes jorros brancos; ora, essa terra que eu desejara quando os meus pés procuravam em vão o fundo tornou-se, à medida que me aproximava dela, uma outra ameaça, pois o mar, encontrando finalmente aquilo que o detinha, voltava-se sobre si mesmo, quebrava-se, precipitava-se entre os blocos, recuava com uma violência acrescida, de tal modo que o lugar onde eu esperava recuperar o pé era precisamente aquele onde a água e a pedra pareciam tornar qualquer apoio mais perigoso.
Tentei primeiro afastar-me, depois uma vaga empurrou-me para os rochedos; aproveitei o seu movimento, depois o seu recuo voltou a levar-me, e durante um tempo cuja duração seria incapaz de medir fui assim transportado para terra e devolvido ao mar, avançando e recuando nessa fronteira onde nem uma nem o outro me possuíam inteiramente, até que o meu pé encontrou enfim uma pedra e a alegria quase brutal daquela resistência reencontrada me levou a pousar nela todo o meu peso, erro imediato pelo qual a rocha coberta de água me puniu sem mais intenção do que tivera o mar, pois o meu pé escorregou, o joelho embateu numa aresta e fui lançado para trás antes de ter podido compreender que recuperar o péexigiria uma paciência diferente daquela com que aprendera a deixar de procurar o fundo.
Voltei, porém, porque agora sabia que existia alguma coisa sob a água, e quando a minha mão encontrou por sua vez a rocha já não tentei içar-me para cima dela de um só esforço, mas deixei que a vaga me erguesse até ela, procurando durante essa breve ascensão uma fissura onde os meus dedos pudessem agarrar-se, depois esperando pelo impulso seguinte para ganhar mais alguns centímetros, como se o próprio mar, depois de durante tanto tempo me ter retirado todo o apoio, tivesse agora de me emprestar momentaneamente a sua força para que eu pudesse escapar-lhe; e quando finalmente o meu antebraço passou sobre uma aresta, um joelho encontrou uma cavidade e o meu ventre tombou sobre a pedra, permaneci ali estendido sem saber se estava realmente fora de água, pois a espuma continuava a passar em redor das minhas pernas e cada nova vaga vinha ainda recordar-me que a terra à qual acabara de chegar não era aquela separação nítida que eu imaginara a partir do navio.
Levantei-me lentamente, e foi então que compreendi, ou antes, que o meu corpo me impôs mais uma vez que compreendesse depois dele, que recuperar o pé não significa recuperar imediatamente o equilíbrio, pois a rocha estava imóvel sob mim enquanto eu continuava a balançar, os meus joelhos corrigindo inclinações que já não existiam, o meu tronco inclinando-se no sentido contrário ao de uma ondulação ausente, os meus braços afastando-se de cada vez que o meu corpo antecipava um balanço de que a terra nada sabia; o movimento que pertencera ao paquete, depois ao mar em redor de mim, instalara-se nos meus músculos, e eu caminhava sobre aquela ilha como se alguma coisa em mim tivesse conservado a memória imediata da água, não essa memória pela qual nos recordamos de um acontecimento passado, mas aquela, mais profunda, pela qual o corpo continua, durante alguns instantes, a habitar o mundo que acaba de desaparecer.

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