Onde Félix, viajante cansado… mas de espírito alerta, acaba de reler aquilo que escrevera outrora a propósito dessas ilhas que apareciam uma após outra no nevoeiro… e na sua cabeça…
Caderno de Félix
Acabo de reler aquilo que escrevera outrora a propósito desta história que tanto me cansava quanto me prendia, dessas ilhas que apareciam uma após outra no nevoeiro, desse pé suspenso sobre o vazio que procurava menos a ideia do chão do que o próprio chão, e ainda ouço nessas páginas o homem que eu era então, aquele que já acreditava ter-se aproximado o suficiente daquilo que lhe acontecia para poder segui-lo sem se proteger demasiado, embora continuasse, apesar de tudo, a caminhar pela margem, a olhar para os seus próprios passos como se pertencessem a outra pessoa, a perguntar-se para onde o levavam e que terreno poderia enfim recebê-los, sem compreender que aquilo que assim me mantinha suspenso talvez não estivesse à espera de nenhum chão já formado e que um dia teria de aceitar que a própria passagem, quando verdadeiramente acontece, desloca até no corpo a maneira como nele fazemos pesar o nosso peso.
Aquilo que Igniatius acaba de escrever traz-me de volta a esse lugar… mas, a partir daí… a página antiga já não se mantém exatamente como se mantinha antes… e eu não saberia dizer que se tornou falsa, pois ainda reconheço aquilo que nela sentira, esse avanço sobre um vazio em que cada apoio parecia ter de ser descoberto no último instante… Só que alguma coisa se introduziu na imagem e começou a trabalhá-la por dentro, como uma raiz que não se limita a encontrar a fissura por onde poderá passar mas que, à medida que nela se entranha, afasta as suas bordas, retém ali um pouco de água, um pouco de poeira, e acaba talvez por fazer do próprio lugar onde nada parecia poder sustentar-se um lugar que antes dela não existia.
É assim que leio agora aquilo que Igniatius conta de Pinocchio o Outro, não como a história de um homem que teria perdido a fala e que, por algum desvio feliz, a teria reencontrado graças a uma marioneta, pois parece-me que isso seria ainda querer repor em ordem aquilo que, justamente, não aconteceu nessa ordem, mas como algo de muito mais incerto e, por essa mesma razão, muito mais vivo, uma vez que os pedaços regressam primeiro, um a um, sem que Igniatius saiba o que formam, que a marioneta começa a compor-se antes de o seu nome estar ali para a reter, que ela se parece o suficiente com o Pinocchio conhecido para que a reconheçamos e suficientemente pouco para que já comece a escapar-lhe, e depois que, no próprio momento em que o Outro se impõe, não como um adjetivo acrescentado a uma figura já concluída mas como o nome de uma espécie de levantamento dessa figura contra um nome próprio que a reconduziria depressa demais àquilo que ela já não é… alguma coisa fala… Não sei como dizer isto de outra maneira sem lhe retirar aquilo que me atinge. Alguma coisa fala, e essa coisa não tem boca, ou antes, a boca que deveria encontrar-se ali… talvez nunca tenha sido desenhada… talvez tenha sido apagada… enquanto aquele através de quem essa fala passa já não falava ele próprio, de tal maneira que a cena se vira do avesso com uma simplicidade tal que se torna quase impossível apreendê-la assim que tentamos reduzi-la a uma explicação: a marioneta fala através daquele que deveria fazê-la falar, e é ao dar-lhe — ou ao deixá-la tomar, já nem sei qual destes dois verbos convém — essa voz que Igniatius se descobre a falar, sem antes ter precisado de se perguntar se ainda era capaz de o fazer.
Sinto quanto esta frase me desloca porque toca precisamente naquilo que eu julgara compreender da passagem, nesse instante em que o corpo abandona um apoio antes de o seguinte estar assegurado, salvo que aqui talvez nem sequer exista um apoio à espera em algum lugar, nenhuma margem para a qual se possa tender e da qual se pudesse dizer, depois, que já lá estava, apenas invisível, pois a própria fala parece fazer surgir o espaço no qual se torna possível, e pergunto-me então se aquilo a que outrora chamava o entre-dois não seria ainda demasiado pobre, demasiado dócil à geografia que eu conhecia, como se o entre tivesse necessariamente de ser esse intervalo entre duas coisas já constituídas, quando talvez possa acontecer que as próprias coisas se tornem outras no espaço que se abre entre elas.
Igniatius já não é exatamente aquele que era antes de Pinocchio o Outro falar, mas Pinocchio o Outro também já não é apenas aquela marioneta que as suas mãos tinham recomposto, e eu já não consigo decidir qual dos dois arrasta o outro, porque a pergunta se desfaz no próprio momento em que a faço, tendo o movimento já deslocado aquilo que eu gostaria de tomar como ponto de partida.
Volto a esse nome, o Outro, e parece-me agora que ele não separou apenas a marioneta de Pinocchio, mas abriu alguma coisa de mais vasto, algo que podia passar também por Igniatius sem lhe pertencer, como se dizer eu sou outro ainda não exigisse saber de que se é outro, nem sequer de quem, e como se o gesto de se nomear dessa maneira tivesse bastado para fazer mover em torno dele fronteiras que nenhum deles traçara conscientemente.
Penso então no Enfant Lune, evidentemente, mas este pensamento já não me chega como uma comparação que eu pudesse desenvolver tranquilamente sentado à minha secretária; vem antes ao meu encontro como uma sensação já conhecida cuja origem eu tivesse esquecido, alguma coisa na maneira como um ser se nomeia a si próprio e, ao fazê-lo, se retira ligeiramente da mão que pretenderia segurá-lo por inteiro… não para se tornar independente no sentido banal da palavra, muito menos para erguer contra a sua origem uma nova soberania, mas para fazer aparecer que já havia nele mais do que aquilo que aquele que o olhava julgava lá ter colocado.
E de repente compreendo porque me cansavam os meus antigos mapas. A minha alma de explorador dizia-me que bastava completá-los. Eu ainda não sabia que cada nova ilha podia modificar o mar. Julgava que o Arquipélago se revelava pouco a pouco, que uma terra aparecia aqui, depois outra mais longe, e que eu acabaria por conseguir ligá-las todas na mesma folha, quando começo agora a sentir que nenhum mapa pode permanecer intacto quando aquilo que recebe altera as distâncias, as correntes, talvez até a orientação daquele que o segura entre as mãos. Pinocchio o Outro não acrescenta simplesmente alguma coisa àquilo que eu sabia de Igniatius. A sua presença desloca Igniatius… e Lucian com ele. E eis-me deslocado por minha vez, não porque tenha aprendido algo mais, mas porque aquilo que eu já sabia deixou de se encontrar exatamente no mesmo lugar.
Releio esta velha frase:
Por vezes, uma única raiz basta.
Eu julgava então estar a falar da rara oportunidade que uma raiz teria de encontrar no basalto uma fissura suficientemente profunda para a receber, e vejo agora que ainda atribuía demasiada importância ao lugar, como se este tivesse de estar pronto antes da raiz, como se ela se limitasse a ocupar uma possibilidade que já lhe era oferecida. Agora vejo-a de outra maneira. Ela entra onde quase nada parece poder entrar, insinua-se ali sem saber o que encontrará mais abaixo, cresce porque está a crescer, e a pedra, sem deixar de ser pedra, começa também ela a tornar-se de outra maneira aquilo que era, enquanto o minúsculo espaço entre ambas já não é um simples vazio, mas algo que vai tomando forma à medida que se encontram… Talvez seja isso que eu ainda não tinha compreendido quando escrevia que um pé procura o chão. Talvez aconteça que, ao pousar-se, contribua para fazer aparecer o lugar onde poderá sustentar-se.
Pour la première phrase, j’ai évité une traduction trop mécanique de « la manière dont on pèse ». « a maneira como nele fazemos pesar o nosso peso » garde volontairement quelque chose d’un peu étrange : le poids n’est plus seulement une quantité, il devient une manière corporelle d’être en appui.


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