
Carta de Lucian a Félix
Félix,
Há já algum tempo que uma frase me preocupa e alimenta numerosas páginas dos meus cadernos. Seria incapaz de dizer em que momento entrou pela primeira vez na minha cabeça. Nem sequer sei se já lá estava antes da viagem... antes do paquete... ou antes daquele momento acerca do qual continuo sem conseguir decidir se merece verdadeiramente o nome de naufrágio. A palavra é demasiado nítida para aquilo que abrange. É simplesmente a palavra que o meu espírito escolheu para reunir, a posteriori, vários acontecimentos cuja própria sucessão ainda me escapa.
«... e por que razão escrevemos, senão para escapar à prisão do eu e às suas banalidades?»
Gabriel Josipovici, Moo Pak, Les Nomades–Quidam éditeur, p..20
Parece-me curioso que esta frase me regresse aqui. Caminho há longos dias por este Arquipélago, do qual possuo apenas uma representação parcial. É um pouco como se cada desvio revelasse um fragmento que se junta aos anteriores sem que seja possível adivinhar a ordem final. Assim, não sei se o conjunto que desse modo se forma corresponde a algo mais do que à minha própria maneira de reunir as suas partes. Ainda mais curioso é o facto de esta frase me reconduzir quase imediatamente ao navio, àquela enorme construção no interior da qual vivíamos com a segurança perfeitamente natural de pessoas que sabem que flutuam sem precisarem de se lembrar disso a cada instante.
Penso muitas vezes, pensamento estranho, que um paquete deste género é uma das máquinas mais aperfeiçoadas que o homem imaginou para lhe permitir esquecer o mar. Caminhávamos nele, de dia e de noite, como sobre uma terra que nos acompanhava. A arquitetura do navio, as cabinas, os corredores, as passagens, as escadas, os salões, os horários das refeições, todas essas pequenas continuidades domésticas mantinham cuidadosamente à distância uma evidência: a imensa massa de água que rodeava o casco e da qual apenas alguns centímetros de metal nos separavam.
Foi preciso que alguma coisa acontecesse. Prefiro escrever isto a fingir que sei exatamente o quê. Foi preciso que alguma coisa acontecesse para que essa evidência, que até então o navio tornara tão eficazmente inútil, voltasse de repente a estar presente em cada um dos nossos gestos. Não me lembro de tudo. Ou melhor, lembro-me de demasiadas coisas e já não sei quais pertencem ao que realmente aconteceu, e quais foram fabricadas depois para que aquilo que aconteceu pudesse entrar numa história possível de contar. Mas guardo, com uma nitidez embaraçosa, a impressão de um chão que já não confirmava aquilo que o meu corpo esperava dele. Lembro-me de um horizonte que já não cumpria corretamente a sua função. De objetos que tomavam uma direção inesperada. Enquanto alguma coisa dentro de mim trabalhava com uma rapidez extraordinária para tornar novamente praticável um espaço que já não o era.
É sem dúvida esta experiência que me faz ouvir a frase de outra maneira hoje. Começo a perguntar-me se o eu do qual ela pretende que a escrita nos permite escapar não se parece mais com aquele paquete do que eu teria imaginado. Não, evidentemente, porque estivesse destinado ao naufrágio. Isso faria da metáfora uma profecia bastante pobre. Mas porque ele também constitui uma organização no interior da qual circulamos com tanta facilidade que acabamos por esquecer que se trata de uma organização.
Dispomos dos nossos corredores, dos nossos compartimentos, dos nossos hábitos de pensamento, das nossas maneiras de reconhecer as coisas antes mesmo de as termos verdadeiramente examinado. Enquanto nada vem perturbar essa economia, chamamos de bom grado a isso ver, compreender, recordar, ser nós próprios, sem nos perguntarmos quanto trabalho silencioso foi necessário para produzir essa continuidade, de tal modo ela nos parece evidente.
[…] continua

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