«As palavras dos homens vão-se com o vento, não ficam. Atravessam o ar, perdem-se, desaparecem. Mas aquilo que tocaram, aquilo que despertaram, isso permanece por muito tempo, como um rasto invisível.»
Jean-Marie Gustave Le Clézio, Deserto
Nos seus cadernos, o Nounours, seguro de si… deixa contudo aparecer, por vezes, uma leve instabilidade, como uma fenda por onde passam aqueles que o acompanham.
Caderno do Nounours
A palavra não pertence a quem a diz,
Nem sequer a quem a escuta e a segue;
Ela erra entre os dois, obscura e sem morada,
Como um sopro antigo que procura e permanece.
Metade dom, metade perda, escapa e regressa,
Ninguém sabe de onde nasceu este movimento;
Pois algo, nela, insiste e se retira,
Uma chose sem nome que deseja e suspira.
Digo «chose»… e já a palavra vacila e foge,
Como um resto de sombra perdido na noite;
Uma chose, uma cause em surda cumplicidade,
Que move sem origem e perturba o nascer.
Quem julga falar nunca verdadeiramente começa,
Entra num fluxo maior que os seus passos;
Quem julga ouvir inclina a sua espera,
Mas é outra coisa ainda que os habita.
Como no jogo da péla onde a bola regressa,
Cada um segue o golpe que nunca é seu;
Mas ninguém sabe de onde parte o traço,
Nem que mão secreta governa a história.
Ele está ali… a criança… imóvel e profunda,
O seu olhar é um limiar onde o fundo vacila.
A Criança-Lua está às margens da palavra,
Sente o seu vertigem e ignora o seu papel;
Percebe que as palavras vêm de um tempo anterior,
Que passam pela sua boca deixando-o ausente.
Escuta longamente o que treme e circula,
Como um vento sem rosto ou o mar que recua;
E sente que o que vive não lhe pertence,
Que está preso num fluxo cujo passo ignora.
Não gosto de palavras fechadas como pedras,
Coseram-nas, fecharam-nas, sufocando noite e luz;
Não deixam passar a chose em trabalho,
E fecham a fenda onde ela poderia abrir-se.
Que se responda… sim! Mas responder a que voz?
Àquilo que já fala e não tem nome;
A uma cause obscura, a um apelo persistente,
Que procura um lugar vivo onde a palavra insiste.
Pois causer não é apenas falar ou ligar,
É entrar num fluxo que ninguém pode dobrar;
É emprestar o sopro ao que quer aparecer,
Sem nunca se tornar totalmente seu senhor.
A criança mal o sabe… ou antes o pressente,
Num leve tremor que a prende ao presente;
Olha a chose e já nela se confunde,
Sem saber de onde nasce o que responde.
Se fosse preciso escolher… perder a vista ou a voz,
Guardaria esse lugar onde algo fala em mim;
Pois ver fica na margem, e falar atravessa,
Como um fogo sob o mar que consome e transforma.
E de súbito tudo muda, e a frase ilumina-se:
Não somos nós que dizemos o fundo das coisas;
São as choses mesmas, na sua cause profunda,
Que falam em nós e procuram fazer mundo.
E talvez, no fundo… nesta versão instável,
Falar seja apenas responder ao que diz «sou» sem nome;
Àquilo que, desde sempre, na sombra nos chama,
E procura na nossa voz a forma de ser real.

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