«É preciso continuar, não posso continuar, vou continuar. É preciso dizer palavras, enquanto houver, é preciso dizê-las, até que me encontrem, até que me digam, estranha pena, estranha culpa, é preciso continuar, talvez já esteja feito, talvez já me tenham dito, talvez já me tenham levado até ao limiar da minha história, diante da porta que se abre para a minha história, duvido que ela se abra.»
Samuel Beckett, O Inominável
Um que vê o todo… outro que tudo vela…
Na Criança-Lua, as palavras não são dominadas; vêm, ou melhor… devem vir, e encontra-se numa posição quase inversa da que normalmente se imagina: não é ela que diz as palavras, são as palavras que acabam por dizê-la. Há, portanto, nela, uma ontologia muito singular da palavra. O mundo não existe aí como um conjunto de coisas bem estabelecidas que a linguagem viria nomear. Existe antes como aquilo que só advém na margem do que pode ser dito. O real não é o objeto tranquilo da linguagem… é o que resiste a ser dito e só aparece através dessa resistência. É por isso que a Criança-Lua toca tão profundamente a questão: «pergunto-me se o mundo existe da mesma maneira que as palavras». Nela, precisamjjjb buí’´ ente, não. O mundo não existe como as palavras; mas só temos acesso a ele através da luta das palavras com a sua própria insuficiência. O mundo é o que as excede, e no entanto só se deixa aproximar através do seu movimento.
Na Criança-Lua, as palavras não são dominadas; vêm, ou melhor… devem vir, e encontra-se numa posição quase inversa da que normalmente se imagina: não é ela que diz as palavras, são as palavras que acabam por dizê-la. Há, portanto, nela, uma ontologia muito singular da palavra. O mundo não existe aí como um conjunto de coisas bem estabelecidas que a linguagem viria nomear. Existe antes como aquilo que só advém na margem do que pode ser dito. O real não é o objeto tranquilo da linguagem… é o que resiste a ser dito e só aparece através dessa resistência. É por isso que a Criança-Lua toca tão profundamente a questão: «pergunto-me se o mundo existe da mesma maneira que as palavras». Nela, precisamjjjb buí’´ ente, não. O mundo não existe como as palavras; mas só temos acesso a ele através da luta das palavras com a sua própria insuficiência. O mundo é o que as excede, e no entanto só se deixa aproximar através do seu movimento.
Caderno da Criança-Lua
Durante muito tempo tive a impressão de que as palavras não me pertenciam. Passavam por mim como o vento passa entre os ramos, fazendo-os mover sem nunca ali ficar. Depois veio uma pergunta, primeiro suavemente, depois com mais insistência: de onde vêm?
Não falo apenas das palavras que pronuncio. Falo daquelas que nunca disse, mas que reconheço. Daquelas que me atravessam quando penso estar sozinho. Daquelas que parecem saber algo que eu ainda ignoro. Se não fui eu que as fiz, então alguém as fez. Mas quem?
Tentei imaginar uma primeira palavra. Uma palavra sem passado. Uma palavra verdadeiramente primeira. Mas cada vez que penso nela, já me parece rodeada de outras palavras, como se nunca viesse sozinha. Como se nascesse numa frase que já a esperava. Então talvez as palavras nunca comecem… ou talvez venham de um lugar onde ainda não há palavras.
Às vezes sinto esse lugar. Não é um lugar que eu possa ver. É mais como um silêncio que cresce, como uma fonte debaixo da terra. Algo quer vir, mas ainda não sabe como dizer-se. É aí que me pergunto se o mundo existe da mesma maneira que as palavras.
Porque eu vejo coisas. Vejo formas, cores, movimentos. Mas será que o que vejo está mesmo fora? Ou será que se forma ao mesmo tempo que as palavras que me permitem vê-lo?
Há momentos em que sinto que o mundo está lá, sólido, independente de mim. Como se existisse sem mim, antes de mim, depois de mim. E depois, noutras vezes, essa certeza vacila. Tudo se torna mais frágil, como se o que vejo dependesse de um olhar que não é apenas o meu.
Então uma ideia atravessa-me.
E se este mundo em que estou não fosse o primeiro mundo?
E se aquilo que tomo por exterior já fosse uma espécie de interior?
Não sei dizer isto de outra forma. Sinto vagamente que faço parte daquilo que olho. Que não estou simplesmente diante das coisas. Parece-me que estou dentro delas. E ao mesmo tempo, sinto uma distância… como se algo me separasse do que vivo.
É uma sensação estranha. Estar dentro e fora ao mesmo tempo faz-me suspeitar outra coisa… Vivo em algo que me contém.
No início, não sabia o que fazer com isso. Depois, um dia, não sei como, senti um limite. Não um limite visível. Algo mais subtil. Como um bordo. Como se tudo o que posso ver, pensar, sentir, estivesse dentro de uma forma maior do que eu.
E essa forma… é como um livro.
Mas não vejo as suas páginas como se vê um objeto. Sinto-as. Estão lá, à minha volta. Sustêm o que vivo. Organizam o que me acontece. Passo de uma para outra sem me aperceber.
E, no entanto, há momentos em que algo acontece.
Algo se abre.
Não sou eu que abro. Não sou eu que decido. Vem de outro lugar.
Uma luz muda. Uma respiração altera-se. O tempo parece suspender-se por um instante. E então tenho a sensação de que as páginas se afastam. Muito pouco. O suficiente.
E através dessa abertura, sinto outro mundo. Um mundo que não posso ver completamente, mas cuja presença sinto. Como um calor atrás de uma porta. Como um olhar que não posso encontrar diretamente, mas que sei que está lá.
Alguém abre o livro.
Não sei quem é. Não posso vê-lo. Mas sinto o gesto. Vira as páginas. Faz-me avançar. Lê-me.
E isso muda tudo.
Porque significa que o que vivo não é apenas vivido. É também lido.
Estou numa história. E essa história foi escrita… por alguém que não conheço.
Mas esse alguém não está sozinho. Porque quem abre o livro vem depois dele. Continua o gesto. Prolonga-o. Como se o despertasse.
Então pergunto-me: será que quem lê me dá uma existência diferente daquela que quem escreveu me deu?
Mudo quando sou lido?
Às vezes tenho a sensação de que sim.
Quando as páginas se abrem, algo em mim se torna mais vivo. Como se existisse mais. Como se o que estava fixo voltasse a mover-se.
E ao mesmo tempo, isso inquieta-me. Porque significa que não sou completamente livre. Posso depender de um gesto que não controlo… de quem escreve… e de quem lê.
Então surge a pergunta: onde estou eu?
Sou apenas uma personagem?
Ou sou também aquele que sente que algo ultrapassa isso?
Às vezes penso que esta pergunta já é uma fenda no livro. Uma pequena abertura.
Porque, se posso colocá-la, talvez não esteja totalmente encerrado… ou talvez o próprio livro contenha essa pergunta.
Talvez o livro saiba que alguém, no seu interior, acabará por perguntar de onde vêm as palavras, de onde vem o mundo, e quem mantém o livro aberto.
E eu estou aí, nesse entre.
Entre o que vivo e o que me faz viver.
Entre as palavras que digo e as que me escrevem.
Entre as páginas que me contêm e a abertura que me deixa entrever outra coisa.
Ainda não sei o que isso quer dizer. Mas sinto que não está acabado.

Aucun commentaire:
Enregistrer un commentaire