— Olhai, por favor.
— Eu vejo-o…— Não falo da Criança Lua…
— De quem falais?
— Ali atrás, muito além desses postes e dos cordames que os sustentam, ele está.
— Mas de quem falais?
— Daquele que nos olha… ou que olha a Criança Lua. Ali atrás desses postes… ele acredita estar sozinho a olhar para dentro da tenda.
— Ele vê-nos?
— Não tenho tanta certeza… creio que olha a Criança Lua e, talvez, nos ouça… Em todo o caso, nós podemos ouvi-lo… e olhai bem… parece-me que escreve.
Neste lugar abandonado, estou sozinho… pelo menos era o que eu acreditava ao entrar. Pois muito depressa se tornou impossível saber se ainda se assiste a um espetáculo ou se se penetrou em algo mais antigo, mais profundo, uma espécie de espaço vivo onde o teatro, a lembrança, o mar e o nascimento continuam a misturar-se na mesma obscuridade vermelha.
Quase não havia luz verdadeira. Apenas clarões espessos, reflexos púrpura deslizando sobre grandes massas rochosas que pareciam surgir do próprio fundo do Arquipélago. Rochas vermelhas. Não simplesmente iluminadas de vermelho, mas vermelhas como certas falésias vulcânicas quando o fogo ainda parece dormir sob a crosta arrefecida.
E por toda parte, em torno delas, subiam longas chamas pálidas.
No princípio eu as tomara por cordames ou por alguma vegetação fantasmática suspensa nas alturas do circo. Mas não. Eram chamas. Chamas lentas, quase brancas, que subiam torcendo-se em direção ao cume invisível da tenda, onde se perdiam numa fumaça espessa. Não queimavam nada. Pareciam antes consumir o próprio espaço.
Em baixo, vagas escuras levantavam-se contra elas.
Isso também era estranho: o mar parecia presente no próprio interior do circo. Vagas espessas, espiraladas, quase minerais, vinham bater nas bases das chamas como se tentassem repeli-las ou sufocá-las antes que atingissem as alturas. Toda a cena oscilava assim entre ascensão e submersão. Entre fogo e engolimento.
Então vi a Criança Lua. Não apareceu como um ator entrando em cena, mas como alguém já há muito empenhado numa travessia da qual eu nada sabia. O seu pequeno corpo parecia quase perdido na imensidão das estruturas, das lonas e das vigas oblíquas que atravancavam o ventre da tenda. No entanto, toda a cena se reorganizava em torno dela. Um pé ainda repousava sobre uma corda… sobre a qual caminhava. O outro estava estendido em direção às rochas vermelhas da ilha.
E essa corda atravessando o vazio possuía algo insuportavelmente ambíguo. Pois era ao mesmo tempo caminho e, assim eu a via, antigo instrumento de cativeiro. Adivinhava-se que, noutra escala, noutro tempo, ela servira para a manter, guiar, talvez manipular como uma marioneta. Ora eis que agora avançava sobre ela. Como se o antigo vínculo de dependência se tornasse subitamente possibilidade de fuga. Não caminhava verdadeiramente. Lançava-se.
O seu corpo permanecia quase dobrado sobre si mesmo, levado por um movimento frágil que hesitava entre queda, nado, suspensão e nascimento. Nada de heroico, contudo. Nenhum triunfo de acrobata. Dir-se-ia que tentava menos vencer o vazio do que atravessá-lo antes que algo desaparecesse por inteiro. Pois tudo em torno dela… em torno de nós… desaparecia. Foi isso que compreendi pouco a pouco com uma angústia crescente: o circo não me parecia apenas abandonado. Estava a desaparecer diante dos meus olhos. As grandes lonas vermelhas pendiam como órgãos arrancados ou velas rasgando-se numa tempestade interior. As vigas e os postes pareciam manter-se ainda mais por hábito do que por verdadeira solidez. Os cordames vibravam lentamente como se, por instantes, toda a estrutura hesitasse entre sustentar-se e desabar.
Tive a estranha ideia de que a minha própria presença participava nessa desaparição. Não saberia explicar por quê, mas quanto mais eu olhava, mais tinha a terrível sensação de que o espetáculo precisava de uma testemunha para continuar a morrer. Como se o simples fato de ver concluísse alguma coisa. Então o silêncio tornou-se quase insuportável.
Levantei os olhos para as alturas obscuras da tenda e veio-me outro pensamento absurdo: talvez não estivéssemos num circo, mas no próprio ventre do Leviatã.
Tudo subitamente fazia sentido de outro modo.
As chamas tornavam-se sopros interiores subindo em direção a uma garganta invisível. As vagas pareciam bater contra as paredes de um corpo primordial. Os cordames evocavam ligamentos, fibras, nervos gigantescos. O circo inteiro aparecia como uma arquitetura montada e depois desmontada no próprio interior de um ventre originário.
E a Criança Lua avançava ali… entre nascimento e engolimento. Entre manipulação e liberdade. Entre o fio que outrora a prendia e aquele que agora tentava percorrer.
Compreendi então por que parecia tão pequena. Não era uma personagem enfrentando um cenário. Era uma consciência atravessando um mundo em vias de se desfazer. As chamas continuavam a subir. As vagas continuavam a repeli-las.
E ela avançava ainda, suspensa acima desse combate impossível entre o fogo e o mar, como se toda a sua existência dependesse de mais alguns passos dados antes do desabamento final da tenda viva.
Quase não havia luz verdadeira. Apenas clarões espessos, reflexos púrpura deslizando sobre grandes massas rochosas que pareciam surgir do próprio fundo do Arquipélago. Rochas vermelhas. Não simplesmente iluminadas de vermelho, mas vermelhas como certas falésias vulcânicas quando o fogo ainda parece dormir sob a crosta arrefecida.
E por toda parte, em torno delas, subiam longas chamas pálidas.
No princípio eu as tomara por cordames ou por alguma vegetação fantasmática suspensa nas alturas do circo. Mas não. Eram chamas. Chamas lentas, quase brancas, que subiam torcendo-se em direção ao cume invisível da tenda, onde se perdiam numa fumaça espessa. Não queimavam nada. Pareciam antes consumir o próprio espaço.
Em baixo, vagas escuras levantavam-se contra elas.
Isso também era estranho: o mar parecia presente no próprio interior do circo. Vagas espessas, espiraladas, quase minerais, vinham bater nas bases das chamas como se tentassem repeli-las ou sufocá-las antes que atingissem as alturas. Toda a cena oscilava assim entre ascensão e submersão. Entre fogo e engolimento.
Então vi a Criança Lua. Não apareceu como um ator entrando em cena, mas como alguém já há muito empenhado numa travessia da qual eu nada sabia. O seu pequeno corpo parecia quase perdido na imensidão das estruturas, das lonas e das vigas oblíquas que atravancavam o ventre da tenda. No entanto, toda a cena se reorganizava em torno dela. Um pé ainda repousava sobre uma corda… sobre a qual caminhava. O outro estava estendido em direção às rochas vermelhas da ilha.
E essa corda atravessando o vazio possuía algo insuportavelmente ambíguo. Pois era ao mesmo tempo caminho e, assim eu a via, antigo instrumento de cativeiro. Adivinhava-se que, noutra escala, noutro tempo, ela servira para a manter, guiar, talvez manipular como uma marioneta. Ora eis que agora avançava sobre ela. Como se o antigo vínculo de dependência se tornasse subitamente possibilidade de fuga. Não caminhava verdadeiramente. Lançava-se.
O seu corpo permanecia quase dobrado sobre si mesmo, levado por um movimento frágil que hesitava entre queda, nado, suspensão e nascimento. Nada de heroico, contudo. Nenhum triunfo de acrobata. Dir-se-ia que tentava menos vencer o vazio do que atravessá-lo antes que algo desaparecesse por inteiro. Pois tudo em torno dela… em torno de nós… desaparecia. Foi isso que compreendi pouco a pouco com uma angústia crescente: o circo não me parecia apenas abandonado. Estava a desaparecer diante dos meus olhos. As grandes lonas vermelhas pendiam como órgãos arrancados ou velas rasgando-se numa tempestade interior. As vigas e os postes pareciam manter-se ainda mais por hábito do que por verdadeira solidez. Os cordames vibravam lentamente como se, por instantes, toda a estrutura hesitasse entre sustentar-se e desabar.
Tive a estranha ideia de que a minha própria presença participava nessa desaparição. Não saberia explicar por quê, mas quanto mais eu olhava, mais tinha a terrível sensação de que o espetáculo precisava de uma testemunha para continuar a morrer. Como se o simples fato de ver concluísse alguma coisa. Então o silêncio tornou-se quase insuportável.
Levantei os olhos para as alturas obscuras da tenda e veio-me outro pensamento absurdo: talvez não estivéssemos num circo, mas no próprio ventre do Leviatã.
Tudo subitamente fazia sentido de outro modo.
As chamas tornavam-se sopros interiores subindo em direção a uma garganta invisível. As vagas pareciam bater contra as paredes de um corpo primordial. Os cordames evocavam ligamentos, fibras, nervos gigantescos. O circo inteiro aparecia como uma arquitetura montada e depois desmontada no próprio interior de um ventre originário.
E a Criança Lua avançava ali… entre nascimento e engolimento. Entre manipulação e liberdade. Entre o fio que outrora a prendia e aquele que agora tentava percorrer.
Compreendi então por que parecia tão pequena. Não era uma personagem enfrentando um cenário. Era uma consciência atravessando um mundo em vias de se desfazer. As chamas continuavam a subir. As vagas continuavam a repeli-las.
E ela avançava ainda, suspensa acima desse combate impossível entre o fogo e o mar, como se toda a sua existência dependesse de mais alguns passos dados antes do desabamento final da tenda viva.

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