Félix continua por muito tempo a escrever as suas notas sem conseguir verdadeiramente encerrar a questão. Quanto mais avança, mais lhe parece que o Arquipélago e o teatro-circo pertencem secretamente à mesma estrutura. Como se um representasse, sob forma geológica, aquilo que o outro representa sob uma forma teatral e movente.
O circo aparece primeiro como uma construção provisória. Todas as manhãs ele é montado e todas as noites desmontado. As lonas estalam ao vento, os mastros rangem, os cordames se esticam e depois desaparecem de novo. Nada ali possui a estabilidade maciça de uma arquitetura definitiva. Mesmo as arquibancadas, embora possuam certa elegância, dão a impressão de terem sido montadas para uma duração muito curta, quase contra o próprio mundo.
Ora, Félix percebe que o Arquipélago possui exatamente essa mesma qualidade de existência precária. Essas ilhas também parecem provisórias à escala das forças que as atravessam. O vulcão fez com que surgissem. O oceano trabalha-as sem cessar. O vento transporta as suas poeiras. As falésias desabam lentamente no mar. Certas cavernas aparecem e desaparecem sob as marés. Até os caminhos, se é que existem, mudam após as tempestades.
Então uma hipótese começa a tomar forma no seu espírito.
Talvez o teatro-circo não tenha acolhido o Arquipélago como um simples cenário exótico. Talvez o Arquipélago tenha tomado lugar sob a tenda porque representa a verdadeira natureza do próprio teatro. O teatro-circo torna-se então uma ilha móvel. Uma ilha que viaja.
Uma formação provisória erguida no meio dos homens, assim como as terras vulcânicas surgem no meio dos oceanos.
Num fragmento dos cadernos de Igniatius, Félix reencontra esta estranha anotação:
“A tenda parecia respirar sob o vento noturno. As lonas erguiam-se lentamente como velas marinhas. Por instantes, as grandes chamas pintadas nas paredes davam a impressão de derivar na escuridão como sinais avistados de um navio.”
Félix compreende então por que os relatos regressam incessantemente às noções de travessia, passarela, caravana, roulottes, portos abandonados. O circo inteiro funciona como uma geografia instável. Transporta consigo fragmentos de mundos incompletos.
Mas outro pensamento o perturba ainda mais profundamente.
Por que Lucian afirma ter “feito a viagem” ao Arquipélago?
Félix relê várias vezes essa frase. Lucian não escreve que sonhou o Arquipélago. Também não escreve que o imaginou. Fala de uma viagem. E essa nuance torna-se inquietante. Pois Félix conhece demasiado bem Lucian para reduzir isso a uma simples metáfora poética. Lucian geralmente escolhe as palavras com extrema prudência quando redige os seus cadernos. Se fala de uma viagem, é porque deseja manter a ideia de um deslocamento real. Mesmo que esse real permaneça indecidível.
Então surgem várias hipóteses.
A primeira seria a mais simples: Lucian teria assimilado os relatos de Igniatius até acabar por habitá-los interiormente. À força de ouvir, interpretar, por vezes desenhar ele próprio certas figuras, teria começado a perceber esse universo com intensidade suficiente para falar de experiência vivida.
Mas Félix sente imediatamente que essa explicação permanece insuficiente. Algo resiste, algo que ele mal consegue apreender.
Pois as descrições de Lucian possuem por vezes uma precisão sensorial difícil de explicar por simples contaminação imaginária. Os cadernos evocam o odor metálico das chuvas sobre o basalto quente, o ruído muito particular das cavidades vulcânicas quando o vento marítimo nelas penetra, certas cores do céu antes das tempestades oceânicas. Não são apenas imagens literárias. Carregam a marca de uma experiência quase física.
Então Félix chega a uma hipótese ainda mais perturbadora.
E se o Arquipélago não fosse exatamente um lugar?
Ou melhor: não apenas um lugar geográfico.
Talvez exista nessa zona ambígua onde paisagens psíquicas, relatos e certas experiências vividas deixam de ser inteiramente separáveis.
Afinal, pensa ele, o próprio teatro-circo já funciona assim. Uma vez sob a tenda, o espectador aceita momentaneamente outro regime de realidade. As leis ordinárias continuam a existir, mas tornam-se porosas. Os corpos desafiam a gravidade. As vozes parecem vir de outro lugar. As figuras mascaradas deixam de ser apenas atores.
A tenda produz um mundo transitório.
Por que o Arquipélago não produziria o mesmo efeito?
Félix escreve então:
“Talvez Lucian diga a verdade. Talvez ele tenha realmente viajado. A única questão seria então: em que tipo de mundo?”
Depois acrescenta mais abaixo:
“Os antigos navegadores falavam frequentemente de ilhas antes mesmo de saber se elas existiam realmente. Algumas apareciam várias vezes nos mapas antes de desaparecer. Outras existiam sem que ninguém conseguisse depois reencontrá-las. O problema nem sempre era o da verdade ou da mentira. Dizia respeito, por vezes, à própria natureza dos mundos acessíveis.”
Esse pensamento leva-o subitamente de volta à Criança Lua. Pois também ela parece viver nesse estado intermediário. Como uma ilha avistada através da bruma. Visível. Talvez real.
Mas segundo um modo de realidade que as outras personagens ainda têm dificuldade em compreender plenamente.
Ora, Félix percebe que o Arquipélago possui exatamente essa mesma qualidade de existência precária. Essas ilhas também parecem provisórias à escala das forças que as atravessam. O vulcão fez com que surgissem. O oceano trabalha-as sem cessar. O vento transporta as suas poeiras. As falésias desabam lentamente no mar. Certas cavernas aparecem e desaparecem sob as marés. Até os caminhos, se é que existem, mudam após as tempestades.
Então uma hipótese começa a tomar forma no seu espírito.
Talvez o teatro-circo não tenha acolhido o Arquipélago como um simples cenário exótico. Talvez o Arquipélago tenha tomado lugar sob a tenda porque representa a verdadeira natureza do próprio teatro. O teatro-circo torna-se então uma ilha móvel. Uma ilha que viaja.
Uma formação provisória erguida no meio dos homens, assim como as terras vulcânicas surgem no meio dos oceanos.
Num fragmento dos cadernos de Igniatius, Félix reencontra esta estranha anotação:
“A tenda parecia respirar sob o vento noturno. As lonas erguiam-se lentamente como velas marinhas. Por instantes, as grandes chamas pintadas nas paredes davam a impressão de derivar na escuridão como sinais avistados de um navio.”
Félix compreende então por que os relatos regressam incessantemente às noções de travessia, passarela, caravana, roulottes, portos abandonados. O circo inteiro funciona como uma geografia instável. Transporta consigo fragmentos de mundos incompletos.
Mas outro pensamento o perturba ainda mais profundamente.
Por que Lucian afirma ter “feito a viagem” ao Arquipélago?
Félix relê várias vezes essa frase. Lucian não escreve que sonhou o Arquipélago. Também não escreve que o imaginou. Fala de uma viagem. E essa nuance torna-se inquietante. Pois Félix conhece demasiado bem Lucian para reduzir isso a uma simples metáfora poética. Lucian geralmente escolhe as palavras com extrema prudência quando redige os seus cadernos. Se fala de uma viagem, é porque deseja manter a ideia de um deslocamento real. Mesmo que esse real permaneça indecidível.
Então surgem várias hipóteses.
A primeira seria a mais simples: Lucian teria assimilado os relatos de Igniatius até acabar por habitá-los interiormente. À força de ouvir, interpretar, por vezes desenhar ele próprio certas figuras, teria começado a perceber esse universo com intensidade suficiente para falar de experiência vivida.
Mas Félix sente imediatamente que essa explicação permanece insuficiente. Algo resiste, algo que ele mal consegue apreender.
Pois as descrições de Lucian possuem por vezes uma precisão sensorial difícil de explicar por simples contaminação imaginária. Os cadernos evocam o odor metálico das chuvas sobre o basalto quente, o ruído muito particular das cavidades vulcânicas quando o vento marítimo nelas penetra, certas cores do céu antes das tempestades oceânicas. Não são apenas imagens literárias. Carregam a marca de uma experiência quase física.
Então Félix chega a uma hipótese ainda mais perturbadora.
E se o Arquipélago não fosse exatamente um lugar?
Ou melhor: não apenas um lugar geográfico.
Talvez exista nessa zona ambígua onde paisagens psíquicas, relatos e certas experiências vividas deixam de ser inteiramente separáveis.
Afinal, pensa ele, o próprio teatro-circo já funciona assim. Uma vez sob a tenda, o espectador aceita momentaneamente outro regime de realidade. As leis ordinárias continuam a existir, mas tornam-se porosas. Os corpos desafiam a gravidade. As vozes parecem vir de outro lugar. As figuras mascaradas deixam de ser apenas atores.
A tenda produz um mundo transitório.
Por que o Arquipélago não produziria o mesmo efeito?
Félix escreve então:
“Talvez Lucian diga a verdade. Talvez ele tenha realmente viajado. A única questão seria então: em que tipo de mundo?”
Depois acrescenta mais abaixo:
“Os antigos navegadores falavam frequentemente de ilhas antes mesmo de saber se elas existiam realmente. Algumas apareciam várias vezes nos mapas antes de desaparecer. Outras existiam sem que ninguém conseguisse depois reencontrá-las. O problema nem sempre era o da verdade ou da mentira. Dizia respeito, por vezes, à própria natureza dos mundos acessíveis.”
Esse pensamento leva-o subitamente de volta à Criança Lua. Pois também ela parece viver nesse estado intermediário. Como uma ilha avistada através da bruma. Visível. Talvez real.
Mas segundo um modo de realidade que as outras personagens ainda têm dificuldade em compreender plenamente.

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