jeudi 16 juillet 2026

(146) A abracadabrante história da Criança Lua


“Pode-se, certamente, escrever sem se perguntar por que se escreve. Um escritor, que observa a sua pena traçar letras, terá sequer o direito de a suspender para lhe dizer:
"Pára! Que sabes tu de ti mesma? Em direção a quê avanças? Porque não vês que a tua tinta não deixa vestígios, que avanças livremente, mas no vazio, que, se não encontras obstáculo algum, é porque nunca abandonaste o teu ponto de partida? E, no entanto, escreves: escreves sem descanso, revelando-me aquilo que te dito e dando-me a conhecer aquilo que sei; os outros, ao lerem-te, enriquecem-te com aquilo que te tiram e dão-te aquilo que lhes ensinas. Agora, aquilo que não fizeste, fizeste-o; aquilo que não escreveste está escrito: estás condenada ao indelével."

Maurice Blanchot, De Kafka a Kafka
A Literatura e o Direito à Morte





Onde Félix descobre que toda a imagem verdadeira é uma expressão que ainda não terminou de se exprimir. É um fragmento de tempo que recusa ser encerrado na sua própria época, porque cada olhar retoma nela a pressão criadora de que nasceu. Ela não transporta o passado até nós... continua a gerar o presente. É um fragmento de tempo que recusa ser aprisionado no seu tempo histórico e permanece vivo precisamente porque continua, a cada olhar, a deslocar o presente.


Caderno de Félix

Ao fechar o meu caderno, apercebi-me de que tinha empregado várias vezes a palavra expressão, com essa despreocupação tranquila que os homens reservam às palavras cujo sentido julgam conhecer apenas porque convivem com elas desde sempre. Voltei atrás, não para corrigir uma frase, mas porque me pareceu que essa palavra ainda resistia. Permanecia ali, no meio da página, como aquelas pedras vulcânicas que julgamos lisas até ao instante em que a luz, mudando quase impercetivelmente de inclinação, revela uma nervura secreta que atravessáramos sem a ver.
Exprimere.
Escrevi a palavra na margem e fiquei a contemplá-la durante muito tempo, sem saber exatamente o que esperava dela. Sabia — ou pelo menos julgava saber — que significava pressionar para fora, fazer surgir por compressão, como se exprime o sumo de um fruto ou o azeite de uma azeitona. Nesse momento, essa origem já me agradava... dizia bastante bem que nada de verdadeiro aparece sem uma certa pressão, sem essa lenta insistência graças à qual alguma coisa acaba por consentir em deixar a noite onde ainda permanecia confundida consigo mesma.
E, no entanto... enquanto deixava o olhar regressar várias vezes àquelas poucas letras, aconteceu-me uma dessas distrações sobre as quais por vezes me pergunto se não serão uma outra maneira de estar atento.
Deixei de ver... ou de ler... premere.
Mas vi também primer.
Sei perfeitamente que me enganava.
Ou melhor... sei que o latim me desmente.
Primer, no sentido de primazia, pertence a outra família. Poderia fechar aqui este parêntesis e regressar a uma etimologia mais rigorosa. Contudo, alguma coisa me impede de o fazer. Porque acontece, por vezes, que a língua pensa de maneira diferente dos dicionários. Acontece-lhe produzir, pela simples vizinhança das palavras, aproximações que a história rejeita, mas que a imaginação reconhece de imediato, como se as tivesse esperado desde sempre.
Assim, nunca deixei de ver esse primer que não estava lá.
E imediatamente um outro primer veio ao meu encontro: aquele de que os pintores se servem para designar essa camada quase invisível aplicada sobre uma tela ou uma madeira antes de a verdadeira pintura começar. Curiosa maneira de preparar uma imagem... aquilo que tornará possíveis todas as cores é precisamente aquilo que nunca foi destinado a ser visto. Essa primeira camada não representa nada. Nem sequer procura existir por si mesma. Limita-se a tornar possível a aderência de tudo o que virá depois.
Pergunto-me se o corpo não será isso mesmo.
Desde há algum tempo que o olhava como uma imagem que nunca deixa de se tornar imagem de si própria. Agora pergunto-me se não terei ido demasiado depressa. Talvez o corpo seja, antes de tudo, essa camada de aderência onde as imagens vão pouco a pouco encontrando onde se fixar. Não uma superfície inerte, mas uma preparação viva. O mundo deposita-se nela. Os encontros aderem-lhe. As feridas também. As alegrias igualmente. E, pouco a pouco, sem sabermos em que momento exato isso começa, aparece uma figura a que ingenuamente chamamos o nosso rosto, a nossa maneira de ser, a nossa identidade.
Mas talvez nunca seja a identidade aquilo que aparece...
Talvez seja a aderência.
Penso então novamente nesses desenhos que observo há semanas. Muitas vezes tive a impressão de que representavam personagens... hoje pergunto-me se não serão antes as camadas sucessivas graças às quais essas personagens aprendem... lentamente... primeiro a manter-se de pé... depois a elevar-se. Don Carotte não existe já algures antes de ser desenhado. O Menino Lua não espera, já constituído, que alguém o revele. Cada desenho é talvez essa primeira camada onde a sua existência começa simplesmente a ganhar consistência.
Talvez aconteça o mesmo comigo... talvez... quem sabe...
Julgava que escrevia para exprimir aquilo que pensava...
E, de súbito, interroguei-me se não escreverei antes para preparar essa superfície ainda invisível onde um pensamento encontrará um dia, finalmente, alguma coisa a que se possa agarrar. É estranho descobrir que, por vezes, trabalhamos muito antes de a obra começar. Como esses pintores que sabem que a primeira camada é precisamente aquela que ninguém verá jamais.
Só então regressei à palavra latina.
Exprimere.
Sorri ao reconhecer o meu erro...
Ou melhor... o meu desvio.
Mas esse sorriso nada tinha de deceção. Parecia-se antes com aquele que sentimos quando uma criança, confundindo duas palavras, descobre sem querer uma verdade que nenhum gramático digno desse nome teria alguma vez pensado escrever. Porque talvez as línguas não se limitem a transmitir a sua história. Talvez também sonhem. Aproximam, por vezes, palavras que não são parentes para fazer nascer um parentesco mais profundo do que aquele das raízes. A etimologia conta-nos de onde vêm as palavras. A imaginação conta-nos para onde elas desejam ir.
E pergunto-me de repente se toda a minha reflexão não procede exatamente da mesma maneira. Nela persigo incessantemente personagens que parecem confundir-se, acontecimentos que respondem uns aos outros sem jamais serem idênticos, imagens que parecem nascer umas das outras, embora nenhuma filiação consiga explicá-las por inteiro. Julgava procurar origens, e é bem possível que, desde o princípio, procure apenas aquilo que nelas pode aderir.
No fundo, talvez não tenha sido um erro ter entrevisto primer dentro de exprimere. Foi uma maneira de ler. E talvez toda a verdadeira leitura comece precisamente assim: quando, no interior de uma palavra que resiste, se descobre uma possibilidade que ninguém tinha ainda percebido... sem, no entanto, afirmar que ela restitui fielmente aquilo que estava escrito. Nesse instante, o texto deixa de ser apenas o passado de quem o escreveu. Torna-se a camada de aderência de um pensamento que, por sua vez, procura onde se fixar.
Talvez seja isso que uma verdadeira imagem realiza desde sempre... ela não nos pede que a compreendamos, mas que lhe ofereçamos presença suficiente para que possa, em nós, voltar a encontrar apoio... e permitir-nos, por nossa vez, aderir a ela.


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