vendredi 17 juillet 2026

(147) A abracadabrante história da Criança Lua


«Direi o que fiz, o que pensei, o que fui. Nada calei de mau, nada acrescentei de bom e, se alguma vez me aconteceu empregar algum ornamento indiferente, foi apenas para preencher um vazio ocasionado pela falha da minha memória.»

Jean-Jacques Rousseau, As Confissões


Onde, progressivamente, os dois papagaios deixam de considerar a memória como um cofre cujo conteúdo seria necessário conservar intacto... Deixam de considerar a memória como um cofre cujo conteúdo seria necessário conservar intacto... Começam a olhá-la como um teatro onde a própria ausência participa na representação.


— Lembra-vos... outrora... aquela época em que fazíamos profissão de imobilidade, empoleirados naquela corda estendida entre as duas colunas, enquanto as pesadas cortinas de veludo, suspensas atrás de nós, pareciam reter o próprio teatro numa respiração que ele não cessava de adiar?

Ver: (10) 23 de março de 2026


— Há imagens que nos perseguem através das épocas... como se estas, em vez de verdadeiramente desaparecerem, voltassem a apresentar-se diante de nós em episódios inteiramente distintos uns dos outros... Evocais horas às quais ainda me recuso a conceder plenamente o nome de passado.
— Eis uma resposta que me encanta.
— Tranquilizais-me... Temia que ela vos embaraçasse.
— As palavras que não me embaraçam inquietam-me mais do que as outras.
— Preferiríeis, então, os caminhos que hesitam?
— Possuem essa delicadeza requintada de deixar ao viajante o tempo necessário para se tornar aquele que caminha.
— Há pouco...
— ...ou há muitíssimo tempo.
— Agradeço-vos essa correção; esta narrativa trata o tempo com uma desenvoltura que, por vezes, lhe invejo.
— É verdade que não possui relógio.
— Mostra... sem dar pelas horas...
— Naquele tempo... ainda me interrogáveis.
— Tive, confesso, essa temeridade.
— Perguntáveis-me... se a minha memória não me engana: «Quando saberemos se aquilo que vemos e ouvimos é verdadeiro?»
— Permiti...
— Escuto-vos com toda a atenção...
— Não era exatamente essa a pergunta.
— Persistis, então, em corrigir-me?
— Com uma fidelidade de que não me julgava capaz.
— E, no entanto, há já muitas estações que giramos em torno dessa mesma interrogação.
— Precisamente. Reparai: de tanto lhe darmos a volta, parece-me que já não é ela que ocupa o verdadeiro centro.
— Ah?
— Parece-me que fomos nós que mudámos de círculo.
— Conceder-me-eis que a nuance é importante.
— As nuances são coisas infinitamente sérias.
— As próprias cores passam a existência inteira tentando alcançá-las...
— ...ou tentando não se perder nelas...
— Assim, o assunto continua sem fundo.
— Diria mesmo mais...
— Fazei favor...
— Possui essa singular cortesia dos abismos...
— Isto é?
— Quanto mais julgamos aproximar-nos deles, mais cuidam de recuar com uma elegância irrepreensível.
— Eis o que explicaria a vossa lentidão.
— Não obstante o sarcasmo... assim o espero.
— Porque o esperais?
— Porque as verdades que consentem em chegar até nós sempre me pareceram de uma familiaridade algo suspeita.
— Tornastes-vos muito exigente.
— A vizinhança das perguntas produz, por vezes, esse inconveniente...
— ...ou esse privilégio.
— As duas palavras, inconveniente e privilégio... no singular ou no plural... não serão primas?
— Talvez fosse conveniente, por simples cortesia... apresentá-las uma à outra.
— Talvez já se conheçam...
Nesse momento, por uma razão desconhecida, o que é extremamente raro, os papagaios fazem silêncio ao mesmo tempo.


— Vede...
— Que se espera que eu veja?
— Nada que não tenha já sido visto.
— As colunas permanecem...
— Com uma dignidade que, por vezes, lhes invejo.
— As cortinas também.
— Continuam a esconder, com um zelo admirável, aquilo que elas próprias ignoram.
— Quanto a essa corda...
— Ah... meu caro senhor... porque temos sempre de regressar a ela?
— Talvez porque ela nunca nos tenha verdadeiramente abandonado.
— Concedeis de bom grado memória às coisas.
— E vós, meu caro senhor, concedeis-lhes muito pouca.
— Assim pensais?
— Olhai para ela.
— É precisamente o que estou a tentar fazer.
— Não... tentai olhá-la como antigamente.
— Receio ter perdido o segredo.
— Perdêmo-lo juntos.
— Isso consola-me pela metade.
— Há consolações incompletas que valem mais do que as outras; deixam um lugar por onde a esperança ainda pode entrar.
— Quereis falar dele.
— Pronunciei o seu nome?
— Não.
— E, no entanto, ouvistes-o.
— É verdade.
— Eis algo singular.
— Já não estou tão certo disso.
— Explicai-vos... ou melhor... fazei-me a gentileza de me acompanhar ainda durante alguns passos; entrevê-se o vosso pensamento como se avista, entre duas árvores, uma luz que promete uma clareira sem ainda a revelar.
— Não tenho qualquer intenção de vos conduzir até lá.
— Ah, não?
— Preferiria que nos perdêssemos nela juntos.
— Eis uma proposta cuja elegância rivaliza com a imprudência.
— As verdadeiras viagens mal conhecem essa distinção.
— Assim...
— Assim, quando contemplo essa corda, não é aquele que nela repousava que primeiro me vem ao espírito.
— Verdadeiramente?
— Não.
— Quem, então?
— Aqueles que nós éramos quando o víamos dormir.
— Dizei-me...
— Sim?
— Há já alguns instantes que me esforço por dar um nome ao embaraço que me detinha.
— Encontraste-lo?
— Creio que sim.
— Aguardo esse batismo com curiosidade.
— Não é a ausência dele que permanece suspensa entre estas duas colunas...
— Continuai...
— É o nosso antigo olhar.
— O nosso antigo olhar... eis um enigma...
— Sim. Parece-me que ainda nos espera, com uma paciência de que eu seria incapaz.
— Eis por que este lugar me parece tão estranhamente fiel.
— Nada aqui reclama a nossa memória.
— E, no entanto, tudo no-la ensina.
— Pensais que ele o sabia?
— Quem?
— Aquele cujo nome evitamos com tamanha aplicação.
— Falais... de...
— Sim?
— Ignoro o que ele sabia.
— E que sabeis vós?
— Que possuía esse raro talento de deixar um lugar sem jamais o abandonar.
— Isso parece tanto um enigma como um paradoxo.
— Não.
— Não?... Com que outra coisa poderia parecer-se?
— Com um encontro.
— E... um encontro... entre quem e quem?
— Entre aquele que desperta... e aquele que descobre... muito mais tarde, é verdade... que ainda dormia.
(Ficam em silêncio. Durante muito tempo.)
— Dizei-me...
— Escuto-vos.
— E se, outrora, nos tivéssemos enganado?
— A respeito de quê?
— Julgávamos procurar a verdade.
— Sim... e é ainda isso que fazemos hoje...
— Talvez ela não esperasse nada semelhante.
— Que desejava, então... essa verdade?
— Simplesmente... que nos tornássemos finalmente capazes de lhe fazer a pergunta que ela esperava de nós desde o princípio.
— Acreditais, então, que os esquecimentos traem a memória?
— De modo algum...
— Que fazem eles, então?
— Preparam-lhe um espaço onde ela poderá, quando regressar, já não ser apenas uma recordação, mas um encontro.

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