Onde se vê, muito antes, que um olhar, sem fronte, sem nome, sem dono… vagueia antes que o dia lhe molde um rosto. A ausência, ao longe, inclinada sobre o rasto, esconde por vezes na noite dois olhos que vão aparecer.
Diário de Lucian
Atrás e diante de mim, sem que eu já soubesse verdadeiramente qual era um e qual era o outro, tanto ainda precisava de me virar com cuidado para não ser arrastado pela minha própria rotação, a luz permanecia como um farol que me fazia virar a cabeça mais do que me orientava, e o imenso paquete, inclinado ao largo, iluminava intermitentemente os rochedos sobre os quais eu avançava, de tal modo que já não sabia muito bem se aquela claridade me chegava do lugar que acabara de deixar ou se, refletida pela espuma e pela água retida nas cavidades, surgia agora da própria ilha; as vigias iam-se apagando pouco a pouco, não naquela sucessão nítida que teria permitido assistir ao desaparecimento de um mundo, mas por manchas, por andares, por zonas que deixavam subsistir noutros lugares algumas luzes isoladas, até que o navio se assemelhasse menos a uma embarcação do que a uma cidade distante cujos bairros fossem sendo engolidos, uns após outros, pela noite.
À medida que essa luz diminuía, as formas próximas perdiam o seu brilho ao mesmo tempo que ganhavam uma presença que eu até então não lhes conhecia, blocos escuros cujas asperezas sentia sob os pés descalços, pequenas cavidades cheias de água onde o movimento do mar persistia ainda em oscilações minúsculas, saliências rochosas contra as quais as vagas se quebravam com aquela força que tinha agora para mim algo de quase íntimo, pois continuava a circular nas minhas pernas; e assim avançava, de braços abertos, não como alguém que quisesse abraçar uma paisagem cujo acesso acabara de conquistar, mas como um homem que, tendo finalmente reencontrado um chão, ainda precisava de aprender a acreditar na sua imobilidade.
Já não procurava os desenhos, e talvez fosse precisamente necessário que tivesse deixado de os procurar para que um deles aparecesse, pois o meu olhar passou sem intenção por uma fissura, dois blocos inclinados, uma pequena depressão onde a água retida pela rocha ainda tremia sob o sopro do vento, e depois voltou àquela disposição antes que eu pudesse dizer o que o chamara de novo até ali; dei mais alguns passos, voltei-me, e dessa vez formou-se em mim uma certeza sem o auxílio de qualquer raciocínio, não ainda a de ter reencontrado um lugar conhecido, mas aquela, mais estranha, de já ter visto aquela relação particular entre as pedras, aquela fratura oblíqua, aquela massa mais escura por detrás da qual a brancura de uma vaga aparecia e depois desaparecia.
Foi somente então que uma folha me voltou à memória, ou antes, pareceu vir colocar-se entre aquilo que eu olhava e a lembrança que dele tinha, com alguns traços dos quais provavelmente nunca antes teria sido capaz de dizer que tinham importância para mim, uma linha quebrada, uma sombra, aquela mesma pequena cavidade cuja insignificância no desenho me dispensara até então de a ver verdadeiramente, e que agora continha água real onde ainda se refletia, muito debilmente, uma das últimas luzes do navio.
Eu quisera ver, e parecia-me subitamente que essa vontade continha toda a ilusão com que partira, pois imaginara a visão como a confirmação final de uma distância: os desenhos estariam diante de mim, o mundo também, e eu passaria de uns para o outro permanecendo aquele que compara, aquele que estabelece relações sem ter ele próprio de ser incluído na relação; ora, a pedra já me abrira a palma da mão, o mar ainda me enchia a boca de sal, o joelho doía-me a cada passo, e aquela paisagem que eu viera examinar começara por deter o navio, lançar-me à água, retirar-me todo o apoio, para depois me devolver, passo a passo, a uma terra cuja imagem só reconheci depois de o meu corpo ter recebido a sua marca.
Assim, já não podia saber com a mesma segurança se tinha chegado diante dos desenhos ou se, de uma maneira que algumas horas antes eu nunca teria aceitado sem a considerar uma metáfora excessiva, tinha entrado neles, não porque se tivessem transformado em mundo ou porque o mundo tivesse misteriosamente obedecido aos seus traços, mas porque a distância que me permitia tratá-los como objetos colocados diante da minha inteligência acabava de se romper; e aquilo que, na carta de Félix, me parecera uma intromissão quase inconveniente na questão do seu autor começava também a deslocar-se, pois eu já não tinha a certeza de que a questão mais urgente fosse saber que mão desenhara aquelas pedras, quando aquelas pedras, aquele mar, aquele balanço ainda alojado nas minhas pernas estavam, à sua maneira desprovida de qualquer intenção, a modificar aquele que pretendia observá-los.
Compreendi então, sem ainda conseguir dar a essa compreensão uma forma suficientemente estável para lhe chamar pensamento, que talvez eu não tivesse feito a viagem como julgara, que entre a frase de Félix, o movimento pelo qual embarcara, os desenhos de Igniatius, o mar que deslocara o navio e o Arquipélago que o detivera, não existia aquela sucessão clara de causas e consequências graças à qual eu poderia ter dito: decidi, depois parti, depois cheguei; alguma coisa circulara de um para o outro, uma pergunta tornada movimento, um movimento tornado travessia, uma travessia tornada queda, e essa própria queda conduzira-me até àquela rocha onde eu tentava agora permanecer de pé, de tal modo que já não sabia muito bem em que lugar daquela longa frase começara a ser o seu sujeito em vez de um dos seus complementos.
Dei ainda mais um passo e o meu corpo inclinou-se enquanto a terra permanecia imóvel, o que me obrigou a abrir os braços como fizera no convés, depois na água, e tive a sensação fugaz de que aquela dança não terminara com o naufrágio, mas apenas mudara de chão, que teria agora de aprender sobre aquela pedra aquilo que começara a aprender no meio das vagas, isto é, que um homem não deixa necessariamente de ser arrastado no momento em que recupera o pé, e que talvez o equilíbrio em que até então confiara não fosse a ausência de movimento, mas aquela maneira, tornada tão habitual que se fazia esquecer, de responder a movimentos suficientemente fracos para que eu pudesse julgar-me imóvel; deixei, portanto, essa última oscilação percorrer as minhas pernas e o meu tronco em vez de a corrigir imediatamente e, enquanto ela diminuía lentamente dentro de mim, voltei a olhar para a fissura, para as duas pedras, para a água retida entre elas, sem procurar, pela primeira vez desde a minha partida, decidir se aquilo que tinha diante dos olhos confirmava ou desmentia alguma coisa.
Bastava-me, por enquanto, estar ali, ainda incapaz de saber se tinha reencontrado o mundo dos desenhos ou apenas perdido uma parte do mundo com o qual viera procurá-los, enquanto ao longe as últimas luzes do paquete se apagavam sobre um mar cujos grandes movimentos continuavam, perfeitamente alheios à minha presença, a erguer-se, a cruzar-se, a regressar aos recifes e a afastar-se de novo para o largo, como se a viagem à qual eu julgara ter dado uma origem através da minha decisão não fizesse, desde o princípio, senão tomar lugar em correntes infinitamente mais antigas do que eu.
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