lundi 24 août 2026

(183) A abracadabrante história da Criança Lua



Onde a água e o céu pareciam deslizar um para dentro do outro, como se o próprio horizonte ainda hesitasse quanto ao lugar que deveria dar a cada um…

Lá fora, porém, nada se deixava contar dessa maneira. O mar avançava em longas massas obscuras que se erguiam sob o vento, se cavavam, se fechavam novamente, para depois regressarem com uma obstinação sem memória. Por vezes, uma crista embranquecia, desfazia-se em espuma e corria durante alguns instantes pela superfície antes de desaparecer noutra, enquanto mais longe, onde o olhar já não conseguia distinguir nitidamente a linha das coisas, a água e o céu pareciam deslizar um para dentro do outro, como se o próprio horizonte ainda hesitasse quanto ao lugar que deveria dar a cada um.
E, no entanto, esse mar que nenhum cálculo podia imobilizar entrava já, de outra maneira, naquela arquitetura encerrada por detrás de uma fronte, não inteiro, evidentemente, mas por fragmentos sucessivos, por clarões de luz, diferenças de pressão, inclinações, vibrações, estrondos, frescuras sobre a pele, tantos sinais que um cérebro nunca recebia como peças cuidadosamente separadas de um inventário e que precisava incessantemente de aproximar, ordenar, comparar com aquilo que já encontrara, completar até quando alguma coisa faltava, para produzir, a partir dessa multiplicidade mutável, aquilo a que chamamos, com uma simplicidade talvez enganadora, um mar.
Pois também o cérebro não permanecia diante do mundo à espera dele. Antecipava-o um pouco, arriscava continuamente alguma coisa a seu respeito, preparava o passo antes que o pé tocasse o chão, corrigia o equilíbrio antes que a queda tivesse verdadeiramente começado, reconhecia num novo estrondo semelhanças suficientes com os estrondos antigos para decidir se bastava virar a cabeça ou se era já necessário retesar todo o corpo na direção daquilo que se aproximava; e esse poder de se antecipar ao que acontecia, sem o qual o menor movimento teria exigido uma deliberação interminável, possuía também o seu perigo discreto, pois a rapidez com que reconhecemos o mundo depende, em parte, da confiança que depositamos naquilo que julgamos já conhecer dele.
O paquete entrava nesse movimento sem abrandar, e até fora decidido que quase não abrandaria, pois a companhia, convencida de que a sua superioridade o colocava numa categoria diferente da dos navios comuns, fizera da velocidade máxima menos uma audácia do que uma regra de navegação; houvesse nevoeiro, chuva, tempestade ou bom tempo, fosse inverno ou verão, a rota deveria ser percorrida com a mesma segurança, como se a velocidade, longe de aumentar o risco, devesse doravante tornar-se um dos seus remédios.


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