jeudi 21 mai 2026

(75) A abracadabrante história da Criança Lua

 

— Façam silêncio, por favor…
— Por quê?
— Porque ele avança… ali diante de nós.
— Quem então?
— O pequeno príncipe das aparas de madeira… viajante de madeira preso entre cordas e serragem… Olhem para ele… parece uma criança perdida nos bastidores de uma tempestade.
— Ah… sim… agora o vejo. O pequeno cavaleiro embaraçado nos bigodes do vento! Essa pobre criatura sobe como se temesse perturbar até o menor suspiro que o empurra adiante.
— E, no entanto, aquele cujo nariz aponta diante dele como um pensamento hesitando em tornar-se espada… avança corajosamente.
— É precisamente isso que me perturba. As criaturas verdadeiramente fracas costumam cair ao primeiro abalo. Ele vacila… depois recomeça. Como se algo o chamasse sempre mais alto através desse labirinto de vigas e velas.
— Dir-se-ia que atravessa um sonho naufragado mais do que um velho navio fatigado!
— Sem dúvida ignora que o observamos.
— Não estou tão certo disso.
— Acredita?
— Seres da sua natureza às vezes possuem estranhas sensibilidades. Não veem nada… caem frequentemente ao primeiro balanço! Mas este… ah! este dobra-se, vacila, treme com toda a sua madeira… depois parte de novo… e, no entanto, algo nele, como neles, volta-se para o olhar pousado sobre eles.
— Os seres da sua espécie às vezes olham com olhos que não estão no rosto.
— Em todo caso, o nariz dele parece procurar o caminho antes dele próprio.
— Sim… como a bengala de um cego estendida na escuridão antes do corpo.
— Figura singular, apesar de tudo.
— Tenha cuidado com essa palavra, por favor. As figuras às vezes possuem lentas revoltas interiores.
— O senhor fala como se esse fantoche fosse mais do que um fantoche.
— Talvez seja exatamente isso… talvez esteja justamente começando a tornar-se tal coisa.
— Eis uma frase bastante obscura.
— Tudo se torna obscuro quando uma criatura fabricada começa a escutar e a cansar os fios que a prendem.
— Veja só… o senhor também se tornou metafísico agora!
— Não, infelizmente… apenas inquieto.
— Inquieto? Com o quê então?
— Com aquilo que ele produz ao seu redor.
— Contudo ele não combate ninguém.
— Precisamente.
— Compreendo-o apenas pela metade.
— Aqueles que combatem a mentira frontalmente muitas vezes lhe concedem uma importância gigantesca. Às vezes se parecem mais com ela do que eles próprios suspeitam. Ele age de outro modo.
— Quer dizer?
— Avança com uma espécie de pudor luminoso… e de repente certas palavras tornam-se mais difíceis de pronunciar perto dele.
— Ah…
— Sim. Olhe bem.
— Agora que o diz… tudo parece mudado ao redor desse pequeno ser.
— Eis aí…
— E, no entanto, ele mal fala.
— Certas presenças falam mais do que tribunais inteiros.
— Acredita que isso venha do seu famoso nariz?
— Apenas em parte.
— Explique-se, por favor.
— Esse nariz não ameaça ninguém. Não aponta culpados como uma arma erguida. Não… ele sofre antes. Alonga-se quando as palavras deixam de possuir verdadeira morada naqueles que as pronunciam.
— Oh… isso me parece tão belamente dito… mas que estranha maldição…
— Ou que estranha fidelidade!
— Então ele não persegue o falso?
— Não… procura outra coisa.
— O quê então?
— Uma palavra habitável. Uma palavra que não force aquele que a pronuncia a trair a si mesmo.
— Isso se torna quase doloroso de ouvir.
— Talvez porque nós também sejamos envolvidos nisso.
— Nós?
— Naturalmente.
— Ora essa! Não somos mais do que papagaios.
— Precisamente.
— Não compreendo.
— Vivemos de repetições. Recolhemos as vozes caídas dos homens. Fazemo-las ressoar nas vigas, nas cortinas, nas alturas obscuras do teatro… mas desde que ele começou a avançar sob essas velas, algo me perturba.
— O quê então?
— Certas frases agora recusam voltar aos meus lábios com a mesma inocência.
— O senhor também?...
— Sim.
— Isso é bastante embaraçoso.
— Bastante embaraçoso… e talvez muito belo.
— Como se as palavras exigissem subitamente mais do que a sua simples repetição?
— Exatamente.
— Como se quisessem ser habitadas antes de serem pronunciadas?
— Está vendo como compreende perfeitamente.
— Então esse pequeno fantoche…
— Sim?
— Também nos transforma.
— Receio que sim.
— Ou espero que sim.
— Talvez as duas coisas ao mesmo tempo.
— Que aventura singular para simples papagaios…
— O senhor nem imagina quanto isso é verdadeiro… talvez os simples papagaios não existam mais do que as simples marionetas…

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