«Mas também não sei que forma dar àquilo que me aconteceu. E, sem uma forma dada, nada existe para mim. E... e se, na realidade, nada tivesse existido?! Quem sabe se alguma coisa me terá acontecido? Só posso compreender aquilo que me acontece, mas só me acontece aquilo que compreendo — que sei eu do resto? O resto não existiu.»
Clarice Lispector, A Paixão segundo G.H.
Tradução francesa de Didier Lamaison e Paulina Roitman
Le Livre de Poche, p. 21
Tradução francesa de Didier Lamaison e Paulina Roitman
Le Livre de Poche, p. 21
Onde se vê Igniatius observando como as suas palavras se tornam imagens.
Diário de Igniatius
Durante muito tempo, acreditei que os desenhos esperavam uma legenda, uma contrafação que pretendesse explicar aquilo que neles se passa. Hoje compreendo que esperavam um corpo, preenchido por uma energia comparável, capaz de prosseguir o seu movimento. Não eram, certamente, imagens mudas. Era muito provavelmente eu que ainda não sabia escutar a maneira como falavam.
As formas existiam antes de mim e... diante de mim. Ainda nada existia em mim que fosse capaz de lhes responder. E, no entanto, eu olhava para elas havia já muito tempo. Podia até dizer e descrever o que mostravam. Uma árvore, o mar, um rochedo... uma corda, uma porta demasiado baixa, uma criança deitada sobre uma corda como se o céu se encontrasse debaixo dela, um homem cujo casaco da cor da noite parecia ter sido talhado para alguém mais vasto. Podia contar as personagens e reconhecer os lugares. Mas isso não bastava. Eu via o que estava desenhado. Ainda não via aquilo que continuava a acontecer ali.
Havia nessas imagens qualquer coisa que não permanecia no seu lugar, embora nada nelas se movesse. Não era um movimento que o olhar pudesse seguir. Era antes um impulso, uma insistência, como a de um ramo preso debaixo de uma pedra e que, não podendo erguê-la, se molda lentamente à sua forma antes de encontrar noutro lugar uma passagem. Os desenhos permaneciam diante de mim, imóveis e pacientes, mas aquilo que os fizera nascer não se detivera com eles.
Creio que foi isso que comecei a ouvir. Não era verdadeiramente uma voz... e eu não teria sabido dizer a quem pertencia. Evidentemente, não havia ninguém por detrás das imagens a sussurrar-me ou a ditar-me fosse o que fosse. Ninguém me pedia que as explicasse. Não exigiam comentário nem história. Continham apenas uma força que não podia permanecer inteiramente dentro das linhas, das sombras, dos corpos imobilizados à beira vertiginosa do mais ínfimo gesto. Foi assim, à beira dessa vertigem, que comecei a falar... Ou talvez me tenha limitado a deixar essa força passar através de uma abertura invisível e misteriosa.
Eu ainda não sabia escrever. Hoje sei pouco mais. Quando, diante de Lucian, colocava as palavras, uma após outra, junto das demais... como fizera com os desenhos... e depois colocava essas frases junto dos desenhos, como quem deposita, aqui e ali, algumas pedras para reencontrar um caminho, pensava que elas me ajudariam a não me perder. Mas, em breve, já não eram as palavras que seguiam as imagens. Começaram elas próprias a tomar direções que eu não tinha previsto.
Foi assim que uma porta desenhada deixou de ser uma porta logo que escrevi que uma criança se baixava para passar por ela. Tornava-se o lugar onde o alto e o baixo trocavam por um instante de nome. Uma corda já não permanecia imóvel, estendida entre duas colunas e a alternância entre o alto e o baixo. Mal tinha escrito que sustentava o peso de um corpo, parecia sustentar também o peso do céu. O mesmo casaco da cor da noite, demasiado grande, já não cobria apenas um homem ou uma criança. Conservava à sua volta a medida de outro corpo, ausente ou ainda por vir. Eu nada decidira disso. Limitava-me a constatar que as palavras, por sua vez, não permaneciam onde as havia colocado. Julgava empregá-las para me aproximar dos desenhos. Mas elas começavam a mostrar outra coisa. Não algo que estivesse escondido na imagem como um objeto dentro de uma caixa, mas algo que só podia aparecer abandonando a imagem sem, contudo, jamais a deixar.
Talvez tenha sido assim que as personagens e o Arquipélago me chegaram. Não as vi sair dos desenhos. Não caíram neles... mas poderia igualmente dizer que não caíram deles. Não consigo indicar o momento em que uma delas começou a existir de outra maneira que não como uma vaga silhueta. Sei apenas que, de tanto pensar... de escrever que um homem olhava para o mar, ele acabou por olhar para ele sem mim. De tanto anotar que uma criança dormia sobre uma corda, comecei a perguntar-me o que via de olhos fechados. De tanto descrever um papagaio a virar a cabeça, julguei ouvir aquilo que ele poderia ter repetido.
O desenho não se animava. Isso seria demasiado simples. Não se tornava vivo como as imagens que fazemos desfilar com suficiente rapidez para enganar o olhar. Era antes o mundo em seu redor que começava a deslocar-se. Aquilo que, primeiro, fora uma forma limitada pelo seu contorno conquistava pouco a pouco as margens, depois a página, depois o espaço onde eu me encontrava.
Não sei se utilizava a energia contida nas imagens ou se essa energia me utilizava para não se esgotar nelas. Sei apenas que mudava de matéria. No desenho, era retida por uma linha, uma dobra, uma hesitação ou uma distância entre dois corpos. Nas palavras, tornava-se uma espécie de espera. Uma recordação que se manifestava sob a forma de um receio. Por vezes, essa espera transformava-se numa coisa semelhante a um desejo, sem que eu pudesse dizer de quem... ou de quê era esse desejo. Não abandonava o visível para se tornar uma ideia. Hoje sei que essa espera... tal como eu, prosseguia simplesmente o seu caminho de outra maneira.
Foi então que comecei a pensar que a escrita acrescentaria tempo às imagens. Mas elas já continham o seu próprio tempo. Continham aquilo que precedera o instante representado, aquilo que talvez viesse a segui-lo e até aquilo que nunca aconteceria, mas que permanecia, apesar de tudo, possível em seu redor. As minhas palavras não lhes davam essa duração. Abriam-na. Eu tornava-me a passagem através da qual uma imagem podia continuar sem ter de se mover.
Outrora, esta ideia ter-me-ia parecido demasiado grande. Ainda hoje me parece um pouco desmedida e, embora seja verdade que desconfio das ideias que, de súbito, ocupam todo o espaço, não encontro outra maneira de dizer aquilo que se produziu. Tinha diante de mim formas que julgava concluídas e descobria que ainda não tinham terminado de poder transformar-se. Talvez... nenhuma forma termine inteiramente. Talvez aquilo a que chamamos imagem seja apenas o lugar onde alguma coisa se detém durante tempo suficiente para poder ser vista... Depois... volta a partir. Um olhar retoma a posse desse lugar. Uma memória desloca-o... Uma voz empresta-lhe outra duração. E, quando uma palavra chega, não traduz necessariamente aquilo que o olhar recebeu. Pode tornar-se, por sua vez, uma forma que se vê.
Isso aconteceu-me sem que me apercebesse.
Se eu dissesse... ou escrevesse: o mar estava escuro, dizia essas palavras... mas elas quase nada me diziam. Então escrevi que esse mar permanecia ao pé dos rochedos como uma fera que se tivesse esquecido de respirar. Detive-me. Não quisera criar uma imagem. Queria apenas precisar aquilo que via. Contudo, a fera estava ali. Não estava no desenho nem no mar. Tinha aparecido nas palavras.
Compreendi então, ou julguei compreender, que também as palavras podiam começar a mostrar. Não mostravam como os desenhos. Não possuíam linhas nem cores. Nada retinham diante dos olhos. Mas obrigavam o olhar a formar-se noutro lugar. Um ramo escrito podia dobrar-se sem ser desenhado. Um quarto podia escurecer dentro de uma frase. Em certas circunstâncias, um rosto ausente podia deixar sobre a página um lugar mais visível do que se tivesse sido representado.
As minhas palavras... pouco a pouco e, por vezes, bruscamente, talvez se tornassem imagens. Digo talvez porque, ainda hoje, muito tempo depois, continuo sem saber o que é uma imagem. Julgara sabê-lo quando desenhava. Depois, julguei que ela era aquilo que permanecia depois do gesto. Agora, parece-me que é antes aquilo que, uma vez aparecido, encontra ainda a força de aparecer de outra maneira.
Assim, os desenhos fizeram-me falar. E a palavra, por sua vez, começou a desenhar sem a minha mão.
Não sei onde este movimento irá parar, nem sequer se me cabe detê-lo. Por vezes, escrevo uma frase para conservar aquilo que vi e descubro que ela abre um lugar onde nunca estive. E, no entanto, reconheço ali uma pedra, uma luz, a maneira como uma personagem permanece de frente ou de costas. Poderia acreditar que invento. Mas essa palavra não me convém inteiramente. Não crio esses lugares a partir do nada. Encontro-os à medida que avanço. Entram nas palavras como, outrora, haviam entrado nos desenhos, sem que eu possa dizer por que porta.
E, quando regresso à imagem inicial, ela parece-me ter mudado. Não porque os seus traços sejam diferentes, mas porque algo daquilo que escrevi se depositou nela. Assim, as palavras regressam às imagens. Dão-lhes aquilo que delas receberam, mas transformado pelo caminho.
Então já não sei o que começou.
Posso afirmar que tracei certas linhas. Posso dizer que escrevi certas frases. Já não posso dizer que as comecei. As formas existiam antes de mim. Talvez existissem também antes de terem uma forma. Esperavam apenas o lugar onde o seu movimento pudesse recomeçar.


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