Onde um leitor poderia entrar sem ter lido nada antes, sem nada saber… e, no entanto, sentir que chega ao meio de alguma coisa que começou noutro lugar.
“No início, porém, o imenso paquete a bordo do qual Lucian embarcara não conseguira alcançar sozinho o mar aberto. Fora preciso que vários rebocadores viessem tomar-lhe a massa, puxá-lo, contê-lo, fazê-lo girar lentamente entre os cais antes de orientarem a proa para a abertura do largo… depois, um após outro, haviam largado os cabos e afastado-se, tornando-se cada vez menores à medida que as máquinas do gigante assumiam o movimento que acabara de lhe ser dado, até que a própria terra, ainda próxima de início, com as suas construções, os seus molhes e as suas linhas familiares, começasse a recuar e já não restasse em breve, diante dele, senão aquela extensão onde nada parecia poder deter a sua marcha.
Esse movimento vinha de muito longe, sob os conveses, de uma profundidade que nada, nos salões, nos corredores ou nos vastos espaços abertos ao ar do mar, permitia verdadeiramente imaginar. Subia através do aço como um rumor surdo, uma vibração suficientemente regular para que em breve se deixasse de a ouvir e que, no entanto, permanecia presente em toda a parte, nas divisórias onde uma mão poderia pousar, nos vidros que tremiam impercetivelmente, até no pavimento por onde passava sem cessar alguma coisa da força enterrada vários metros mais abaixo. Ali, por detrás das paredes que o olhar não atravessava, o navio parecia possuir as suas próprias entranhas, aquecidas, lubrificadas, percorridas por vapores, impulsos e rotações das quais, no exterior, apenas se percebiam as consequências, como se toda a violência necessária àquela marcha tivesse sido lançada para as profundezas a fim de que nada, à superfície, viesse perturbar a sua aparente facilidade.
Apenas por vezes uma diferença no rumor, uma retomada quase impercetível, uma inflexão no meio daquela imensa continuidade mecânica fazia sentir que, lá em baixo, alguma coisa acabara de mudar, e era então possível sentir a tentação de escutar com mais atenção, como se procura, numa frase repetida muitas vezes, a sílaba que de súbito já não cai exatamente no mesmo lugar. Mas nada vinha explicar essa variação… nenhuma ordem subia das profundezas, nenhuma figura atravessava os corredores para dar uma origem visível à força que fazia avançar o paquete, de tal modo que, à medida que a terra recuava, se tornava possível experimentar a singular impressão de que ele realizava sozinho tudo o que era necessário à sua marcha, de que alimentava o próprio fogo, vigiava as suas pressões, lubrificava as articulações e corrigia, até na escuridão das máquinas, os menores desvios da sua própria respiração.
No entanto, teria bastado olhar em redor para descobrir por toda a parte os vestígios de uma vida organizada até nos seus mais pequenos pormenores… uma poltrona ligeiramente deslocada diante de uma janela, um livro deixado aberto, uma manta dobrada sobre as costas de um assento, uma chávena cujo fundo conservava ainda uma auréola escura, uma porta mal fechada que oscilava suavemente com o balanço… mas esses indícios, em vez de tornarem as presenças mais certas, pareciam afastá-las ainda mais, como se aqueles que os tinham deixado acabassem de sair por alguns instantes e devessem regressar de imediato, enquanto esses poucos instantes, sem que nada permitisse saber porquê, continuavam a alongar-se.
Nos conveses, o ar tinha aquela frescura nítida que o vento adquire depois de correr durante muito tempo sobre a água, e o paquete, liberto das lentidões da partida, aumentava progressivamente a velocidade. Algumas velas triangulares tinham sido içadas nos mastros, menos talvez porque uma massa daquela dimensão tivesse verdadeiramente necessidade da sua ajuda do que porque nenhum impulso, por mais ligeiro que fosse, parecia dever perder-se naquela corrida cujo objetivo permanecia invisível… enchiam-se, amoleciam, retomavam o vento segundo um ritmo diferente do das máquinas, enquanto, mais abaixo, o casco subia sobre a ondulação e voltava a descer com aquela lentidão enganadora que fazia parecer quase imóvel o deslocamento de uma massa lançada, no entanto, a grande velocidade.
Começava então, para o corpo, uma navegação da qual nenhum mapa poderia dar conta. Era preciso aprender, sem sequer dar por isso, a ceder ligeiramente ao movimento do convés, a encurtar um passo quando o navio se elevava, a conter um ombro quando o balanço arrastava o corpo para o lado, e em breve as pernas realizavam por si mesmas aquelas correções minúsculas que o pensamento teria sido demasiado lento para ordenar. Julgava-se caminhar como sempre se caminhara, enquanto já se caminhava de outro modo… julgava-se conservar o equilíbrio enquanto se o perdia e recuperava a cada instante, e talvez fosse essa, muito antes de o mar exigir mais, a primeira lição que ele dava através daquele enorme casco construído precisamente para impedir que alguém tivesse de a receber.
Porque o paquete podia muito bem acumular entre a água e aquilo que transportava toda a espessura dos seus conveses, dos seus salões e das suas máquinas, alguma coisa do mar conseguia, apesar de tudo, passar, não sob a forma espetacular de uma vaga transpondo a amurada, mas naquela oscilação quase impercetível que modificava a verticalidade do corpo, naquela maneira que uma porta tinha de se abrir sozinha alguns centímetros antes de regressar, num objeto suspenso que traía, pelo seu balanço, a realidade de um movimento que a imensidão do navio quase conseguira dissimular.
A terra, entretanto, perdera os seus pormenores, depois a sua altura, depois até aquela fina irregularidade graças à qual o olhar ainda conseguia distingui-la do céu… e, quando por fim desapareceu, nada pareceu verdadeiramente ter sido abandonado, de tal maneira o oceano ocupou de imediato todo o espaço. Diante da proa estendia-se uma superfície cujos pontos pareciam, à primeira vista, todos semelhantes entre si e que, no entanto, não cessava em parte alguma de mudar, ora escura e pesada, ora atravessada por uma luz fria, ora coberta de longas rugas que o vento fazia nascer e desaparecer como uma escrita demasiado rápida para poder ser retida.
Era possível permanecer muito tempo diante dela sem saber exatamente o que se estava a olhar, até que uma vaga deixasse de ser apenas uma vaga para se tornar uma inclinação de luz, um soerguimento, uma massa que se elevava e depois se apagava sob outra, e que o olhar, julgando abarcar o oceano, descobrisse que, na realidade, apenas conseguia seguir um movimento depois de outro, incapaz de decidir onde começava exatamente aquilo que aparecia diante dele, nem em que instante deixara de existir.
Então certos pormenores do navio adquiriam, por sua vez, uma importância inesperada… a curva de um cabo, o ângulo de um mastro contra o céu, uma lona esticada sobre um bote, o vestígio deixado pela água numa chapa de aço, o reflexo de um vidro tornado negro quando uma nuvem passava diante dele… coisas todas elas sem história, aparentemente, mas que, destacadas por um instante de tudo o que as rodeava, pareciam esperar alguma coisa, como se a viagem já produzisse as suas imagens antes mesmo de qualquer acontecimento ter vindo dar-lhes um sentido, e como se um olhar, algures, tivesse começado a recolhê-las sem ainda saber o que faria delas.
O paquete prosseguia a sua marcha, e a vibração que subia das suas profundezas misturava-se agora tão intimamente com o movimento do mar que se tornava difícil saber o que, naquele tremor contínuo, pertencia às máquinas e o que a ondulação impunha ao casco. O vento passava pelos cabos, as velas acrescentavam a sua ligeira tensão, a água corria ao longo dos flancos com um ruído mais profundo quando a proa voltava a cair na cava de uma vaga, e todos esses movimentos, que se poderiam julgar separados, entravam pouco a pouco uns nos outros, até darem a impressão de que o navio, o mar, o vento e aquele olhar sem rosto já não eram inteiramente estranhos ao mesmo movimento.
Assim, talvez a viagem tivesse começado antes mesmo de alguma coisa ter acontecido, naquela maneira impercetível que o mundo já tinha de deslocar aquele que ainda julgava simplesmente deslocar-se dentro dele.”
Muito livremente inspirado em
Morgan Robertson, O Naufrágio do Titan
Futility, or the Wreck of the Titan, 1898

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