Tradução por IA
«Falar não é ver. Falar liberta o pensamento da exigência do visível. Falar é, essencialmente, transformar o visível em invisível, fazer com que o que está presente deixe de estar presente, e que o que está ausente se torne, na palavra, uma presença de ausência.»
Maurice Blanchot, A Conversa Infinita

Carta de Félix a Lucian
Vê, Lucian, essa criança de que fala Igniatius, essa criança que se diz escrita, que se descobre presa num livro, não é apenas uma figura poética. É, propriamente falando, um sujeito às voltas com aquilo a que chamo estrutura. Direi então o seguinte.
Essa criança apresenta-se como alguém que procura a origem das palavras. Pergunta de onde vêm — e já se engana… mas engana-se com justeza. Pois supõe que poderia haver uma primeira palavra, uma espécie de ponto de origem. Ora, o que ela descobre, e isso é o essencial, é que a palavra nunca vem sozinha. Antes mesmo de aparecer, já está presa numa cadeia. Dito de outro modo, não há primeiro significante. Há apenas significante que responde a significante.
É nisso que a criança toca algo de rigoroso: descobre que a linguagem a precede. Não apenas no tempo — isso ainda se poderia contar — mas na própria estrutura do que a faz sujeito. Ela não fala a língua. É falada por ela.
Aqui reencontramos, numa forma que poderias chamar ingénua, o que Pascal Quignard designa como dependência. Mas onde Quignard ainda fala de um antes, de um pré-linguagem que se poderia reencontrar, devo introduzir uma cisão. Não há regresso simples a um antes da linguagem. Aquilo que a criança aproxima como “silêncio”, como “fonte”, não é um fora da linguagem; é aquilo a que chamo o real — isto é, aquilo que não cessa de não se escrever.
Por isso, o que ela experimenta como vazio não é um reservatório originário. É uma abertura. E essa abertura não está atrás dela; está no coração mesmo da palavra que a constitui.
Agora, cheguemos ao ponto que te importa, e que, a meus olhos, é profundamente claudeliano na sua estrutura: essa criança descobre-se num livro.
Que quer isso dizer?
Não se trata de uma metáfora decorativa. Trata-se de uma encenação muito precisa da posição do sujeito. Estar num livro é estar preso num discurso que o precede, que o excede, e que o inscreve antes mesmo de poder dizer “eu”.
Esse livro, descreves tu, tem páginas que por vezes se abrem sob o efeito de um gesto exterior. Alguém abre o livro. Eis uma intuição notável. Pois introduces aqui aquilo a que chamaria a função do Outro.
Esse Outro, a criança não o vê. Não pode vê-lo. Mas sente o seu efeito. Ou seja, sente que a sua existência depende de um lugar onde ela não está. O livro abre-se, e é essa abertura que lhe dá consistência.
Vês que estamos aqui muito próximos do que articulei como a dependência do sujeito em relação ao lugar do Outro. O sujeito não é causa de si. É efeito de discurso. Surge onde isso fala.
Mas a tua intuição vai mais longe — e é aí que Claudel se torna útil. Pois essa criança não se limita a ser falada. Ela experimenta isso como dependência, quase como cativeiro. Sabe-se escrita. Sabe-se lida. Sabe-se dependente de quem escreve e de quem lê. E, ao mesmo tempo, não pode deixar de procurar uma saída.
É exatamente aqui que situaria o trágico moderno, tal como Claudel nos permite pensá-lo.
Na tragédia antiga, o sujeito está preso ao destino. Em Claudel — e a tua criança é uma figura muito precisa disso — o sujeito está preso na própria palavra. Está preso numa promessa, numa estrutura de linguagem que o excede, e da qual não pode sair sem se perder.
A Criança-Lua não pode sair do livro. Mas o próprio facto de sentir o seu limite, de pressentir as suas páginas, de se perguntar quem as vira — é isso que a constitui.
Vês então por que razão as perguntas que ela coloca — «de onde vêm as palavras?», «quem escreve?», «quem lê?» — não são secundárias. São o próprio coração do sujeito.
Ora acrescento aqui isto: nessa criança não há apenas interrogação. Há insolência. E peço-te que escutes bem esta palavra. O uso moderno reduziu-a à impertinência, à falta de respeito, à incivilidade. Mas a sua força é mais antiga. O insolente é, antes de mais, aquele que não segue o uso, que não respeita o costume, que não é moldado pelo solo tranquilo do hábito.
Assim, a insolência dessa criança não é, antes de tudo, moral. Não é um defeito de conduta. É estrutural. Reside nisto: ela não fala exatamente como se deveria falar a partir do lugar onde é esperada. Não consente plenamente na sintaxe tácita do mundo em que aparece. Responde de viés. Introduz um desvio. Faz ouvir, no próprio discurso que a sustém, que esse discurso não é sem falha.
É nisso que ela é insolente.
Não porque insulte o Outro, mas porque desafina o Outro de si mesmo.
O insolente, no fundo, não é apenas aquele que ofende. É aquele que rompe o pacto mudo do hábito. Faz aparecer que aquilo que passava por natural só se mantinha por repetição. Torna visível o costume como aquilo que é: um simples hábito. E é por isso que perturba mais profundamente do que um rebelde. O rebelde ainda se opõe à lei. O insolente atinge nela o ponto da sua evidência.
Essa criança, nesse sentido, é insolente em relação ao próprio livro em que está presa. Não se limita a viver nele. Suspeita das suas margens. Sente as suas costuras. Experimenta as páginas como páginas. E isso já é insuportável para toda a estrutura que quer esquecer-se enquanto estrutura.
Que uma personagem se saiba escrita — já isso é uma fissura. Mas que sinta, além disso, que a linguagem que a atravessa não é plena, que possa perguntar não apenas o que diz, mas de onde isso fala — então torna-se propriamente insolente. Pois deixa de respeitar a forma esperada do real. Já não trata o mundo como algo evidente. Faz com que vacile.
Vês então por que razão a sua insolência não é nem decoração psicológica, nem traço de temperamento. É o efeito da sua relação com o significante. Há sujeitos que consentem em ser falados sem o escutar verdadeiramente. Ela não. Ela ouve demais. Ouve a anterioridade do que a fala. Ouve que isso vem de outro lugar. E essa própria audição introduz uma irregularidade na cadeia.
É preciso ir mais longe. Pois a insolência, aqui, não consiste apenas em não responder como se espera. Consiste em fazer surgir, na linguagem, outra coisa que não aquilo que a linguagem esperava produzir. Nesse sentido, ela toca no que dizes com justeza: a insolência não é um valor, é um acontecimento na linguagem.
Subscrevo isso, desde que se entenda com rigor.
O acontecimento, aqui, é que a Criança-Lua deixa, por um instante, de servir docilmente a repetição. Algo se desloca. Algo já não se deixa dizer exatamente como previsto. A partir daí, já não é apenas uma criança que fala de outro modo; é o próprio campo onde fala que se encontra ligeiramente desviado, desestabilizado.
E é por isso que a insolência está ligada ao aparecer. Pois só há aparecimento onde o hábito se rompe.
Enquanto a palavra reconduz perfeitamente a ordem das trocas, nada aparece. Tudo circula. Tudo funciona. Mas basta que um sujeito se mantenha um pouco mal no seu lugar, que responda com essa ligeira torção que não pertence nem à ignorância nem à simples provocação — então algo surge.
Não um conteúdo novo no sentido banal.
Mas a própria visibilidade da estrutura… algo de não natural.
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