mercredi 22 avril 2026

(39) A abracadabrante história da Criança Lua

 “Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado dentro de nós. É isso que eu acredito. Quando leio um livro e ele me aquece por inteiro ao ponto de eu sentir frio, de nenhum fogo me poder aquecer, então sei que é bom. Se sinto que ele poderia derrubar-me como um relâmpago, então sei que é bom. Se tenho a impressão de que poderia matar-me, então sei que é bom.”

Franz Kafka, Carta a Oskar Pollak, 1904


Caderno de Lucian

A última imagem que Igniatius me trouxe fez-me imediatamente pensar neste excerto de Kafka. Mas o que está neste desenho não é apenas um comentário nem uma leitura de Kafka aplicada a uma cena. É uma única e mesma estrutura que se revela sob duas formas: por um lado, a frase, “o livro como machado”, “o mar gelado em nós”, por outro, esta passarela instável estendida entre o mar em espiral e o cubo vermelho.
Em ambos os casos, algo é capturado.
Em Kafka, é o leitor: ele não segura o livro, é agarrado por ele. O livro, por assim dizer, atravessa-o. Eu iria até mais longe: ele quebra-o e, ao fazê-lo, transforma-o. Age como uma força que não deixa nada intacto. Ler não é deslocar-se num texto, é ser deslocado por ele.
Na imagem, é a personagem: não circula livremente numa paisagem, está envolvida numa estrutura. Cada gesto depende de vigas, cordas, inclinações. Não pode nem escapar-lhe nem instalar-se nela. Avança dentro de um dispositivo que simultaneamente o constrange e o sustém.
É exatamente a mesma situação.
A passarela é para o desenho o que o livro é para Kafka: uma estrutura ativa. Não um quadro exterior, mas um operador de transformação. Não se limita a sustentar um movimento já dado; produz esse movimento pela sua própria instabilidade evidente. Sem ela, não haveria nem progressão, nem sequer a possibilidade de estender a mão.
Mas o que se torna importante, a partir de uma certa leitura da imagem, é que esta estrutura não está isolada. Mantém-se entre duas potências.
De um lado, a espiral do mar: movimento sem centro fixo, repetição incessante, profundidade sem origem aparente. É aquilo que Kafka chama o “mar gelado em nós” antes de ser quebrado: uma extensão que faz massa, um fundo que excede qualquer forma clara. Uma vida anterior a toda a organização.
Do outro, o cubo: a racionalidade, o ângulo reto, a forma que fixa, que recorta, que estabiliza. Onde a espiral arrasta, o cubo detém. Onde a espiral transforma sem cessar, o cubo define.
E entre ambos: a passarela.
A passarela não é apenas a espiral que se opõe ao cubo. É aquilo que permite o seu encontro sem os resolver. Introduz uma forma, mas uma forma precária, sempre em desequilíbrio, sempre exposta. Não é a racionalidade fechada do cubo; é uma racionalidade em tensão, atravessada por aquilo que tenta organizar.
Ora, é exatamente isso que é o livro em Kafka.
O livro não é a vida bruta; não é o mar.
O livro também não é um sistema perfeitamente fechado; não é o cubo.
É uma construção frágil que permite atravessar a vida sem a perder imediatamente, e permite que a forma exista sem se tornar mortífera.
É por isso que deve ser “machado”. Não para destruir toda a forma, mas para impedir que a forma se congele em cubo. Quebra o gelo, isto é, volta a pôr em movimento aquilo que se tinha imobilizado. Mas esse movimento não conduz a uma pura dispersão: chama uma travessia, uma passagem… exatamente o que a passarela figura.
Pode-se então compreender de outra maneira o paradoxo da Criança Lua.
Ela acredita estar prisioneira do livro, desta estrutura instável. Vê o obstáculo e a dificuldade. Mas o que ainda não vê é que essa constrição é aquilo que a mantém acima do fundo… acima da espiral que poderia absorvê-la sem retorno… ao mesmo tempo que a impede de se fixar na rigidez do cubo.
Ela é mantida num entre-dois.
E é nesse entre-dois que algo se torna possível: não uma estabilidade, mas um gesto. Não uma verdade adquirida, mas uma palavra que se arranca.
Kafka diz isso à sua maneira: o livro deve poder “matar-me”. Isso significa que põe em perigo a forma em que se estava. Mas, na imagem, vê-se que esse perigo não é pura destruição. É exposição. A personagem pode cair, sim. Mas também pode avançar e, talvez, descobrir outra maneira de se manter.
Assim, as chamas e o fumo ganham um lugar ainda mais preciso.
Não são apenas um perigo exterior. Prolongam aquilo que Kafka chama transformação interior. O fogo não estabiliza nada: consome, altera e faz passar de um estado a outro. E o fumo, ao elevar-se, desfaz as formas sem as abolir completamente. É como uma escrita que se dispersa.
Poder-se-ia então dizer que a passarela, o livro, está presa entre três forças:
o fundo em espiral que arrasta,
a forma cúbica que fixa,
e o fogo que transforma.
E o sujeito, leitor ou personagem, só existe através dessa tripla exposição.
A partir daí, a frase inicial pode reformular-se uma última vez, mantendo juntos Kafka e a imagem:
A Criança Lua acredita estar encerrada numa estrutura que a limita. Mas essa estrutura é aquilo que a mantém acima do fundo que a engoliria e a impede de se fixar numa forma morta.
Ela expõe-na a uma transformação que não domina. E é apenas nessa exposição que ela pode falar.
Ou seja: não está no livro como num lugar.
Está no livro como numa travessia.

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