“ Minha intenção foi fazer o retrato literário mais preciso possível de uma personagem intelectual imaginária tão precisa quanto possível. Na realidade, procedi ajustando em conjunto um número suficiente de observações imediatas sobre mim mesmo para dar alguma impressão de existência possível a uma personagem perfeitamente impossível.”
Carta de 10 de maio de 1936 a Sr. Goud, Paul Valéry, Œuvres II, Gallimard, coleção “Bibliothèque de la Pléiade”, p. 1381.

Caderno de Félix
Começo a acreditar que a Criança Lua não deve sobretudo ser compreendida como uma figura consoladora. Seria mesmo o erro mais imediato e, portanto, o mais perigoso. A sua aparência frágil, o seu imenso manto noturno forrado de rosa, o seu chapéu vasto demais, o seu silêncio atento, tudo isso poderia conduzir a uma leitura enternecida, quase protetora. Contudo algo resiste. Sempre.
Existe nela uma fissura que jamais se fecha inteiramente.
Não falo de uma ferida psicológica no sentido comum. Esse vocabulário rapidamente se torna insuficiente. Trata-se antes de uma abertura que permaneceu visível na sua própria maneira de habitar o mundo. Como se algo nela nunca tivesse aderido completamente à realidade comum. Não por recusa. Menos ainda por incapacidade. Mas porque percebe em cada coisa uma profundidade suplementar que os outros recobrem imediatamente com o uso, o hábito ou a linguagem.
Talvez seja isso que perturba tanto Lucian quando olha certos desenhos.
As figuras que aparecem ao redor da Criança Lua parecem sempre emergir de uma matéria inacabada. Nunca possuem a estabilidade tranquila das personagens inteiramente constituídas. Conservam visível o seu próprio nascimento. Ou o seu próprio desmoronamento. Já não sei muito bem distinguir um do outro.
Hoje observo essa imagem onde ela aparece sentada sobre uma viga estreita, perdida num entrelaçamento de cordas, ramos e cortinas que se assemelham tanto a bastidores quanto a raízes. Nada ali possui fronteira verdadeiramente estável. Teatro e floresta interpenetram-se. A madeira das passarelas torna-se ramo. As lianas adquirem o aspecto de cordames de navio ou de circo. Já não se sabe se estamos num cenário construído pelos homens ou num crescimento orgânico mais antigo do que qualquer cena humana.
E ela permanece ali, suspensa.
É isso que primeiro me impressiona: ela não está realmente sentada. Mantém-se em equilíbrio. Os seus pés descalços pendem no vazio como se já não pertencessem inteiramente ao mundo sólido. Até a sua postura contém um cansaço antigo. Uma lassidão calma. Não a de um ser vencido, mas a de um ser que escuta algo que os outros não ouvem.
Depois há o pássaro.
Essa imensa coruja azul — ou talvez algo ainda mais antigo do que uma coruja — não aparece de forma alguma como simples companheira. Mantém-se junto dela com uma proximidade quase inquietante. O seu olhar permanece aberto enquanto o rosto da Criança Lua desaparece sob a sombra do chapéu. Como se a criatura visse por ela. Como se uma parte da sua percepção tivesse deixado o rosto humano para migrar para esse animal noturno.
Penso então novamente nas antigas figuras do Ziz, esse pássaro gigantesco das cosmologias arcaicas, criatura das alturas e dos limiares, intermediária entre os mundos. Mas aqui o próprio mito parece ferido. O pássaro não domina o céu. Partilha a precariedade da viga. As suas garras agarram-se com dificuldade ao equilíbrio instável do cenário. Até os seus olhos carregam algo de inquieto.
É isso que torna essa imagem tão “estranha”.
Ela não representa uma harmonia entre a criança e a natureza. Conserva visível a tensão que as une.
As cordas que atravessam o espaço poderiam quase passar pelos restos de um antigo cativeiro. Parecem sobrevivências de um carrossel desmontado, de um circo abandonado ou de uma maquinaria esquecida cujas personagens continuariam, apesar de tudo, a habitar as estruturas desertadas. Nada desapareceu inteiramente. As ligações permanecem visíveis.
Até as cores participam disso.
O rosa interior do manto sobrevive discretamente nas pregas da roupa enquanto todo o espaço parece invadido por vermelhos escuros, verdes profundos, azuis noturnos. Nenhuma luz franca vem organizar o mundo. Tudo parece iluminado desde uma profundidade lateral, como em certos sonhos onde as coisas se tornam visíveis sem que exista qualquer fonte luminosa identificável.
Há nessa imagem algo que se assemelha a uma cicatriz transformada em paisagem.
Até o rosto da Criança Lua participa dessa lógica. Ou melhor, a ausência de rosto. Pois esse enorme chapéu não age como uma simples máscara. Uma máscara geralmente esconde algo já formado. Aqui tenho às vezes a impressão inversa: o chapéu protege uma região do mundo onde o rosto ainda não terminou de nascer.
Talvez seja por isso que os seus olhos, em outros desenhos, estejam tantas vezes fechados.
Não são olhos fechados ao mundo. São olhos ocupados em outro lugar. Como certos animais das profundezas cujos órgãos parecem inúteis à superfície, mas se tornam necessários noutros regimes de luz.
Penso então nessa ideia de Theodor W. Adorno: uma verdadeira obra mantém visível a fissura em vez de produzir uma harmonia enganadora. A Criança Lua parece-me pertencer inteiramente a essa categoria de seres. Ela não repara nada. Não reconcilia nada. A sua presença não suprime a fratura. Dá-lhe forma.
E é precisamente por isso que se torna impossível reduzi-la a uma simples figura poética.
Ela traz o traço de um mundo que ainda procura como aparecer.
Até os seus deslocamentos possuem essa hesitação singular. Atravessa os espaços ordinários sem dificuldade aparente, mas jamais inteiramente segundo as coordenadas admitidas. Como se o mundo visível fosse para ela apenas uma camada entre outras. As outras personagens sentem obscuramente isso. Os papagaios sobretudo… Embora ausentes desta imagem, também eles vivem nessa estranha proximidade com uma palavra que os atravessa mais do que lhes pertence.
Talvez seja por isso que tantas figuras procuram abandonar a sua condição.
Don Carotte quer tornar-se mais do que o seu papel. Pinóquio o Outro sofre ao sentir a sua própria representação colada a si como uma mecânica estrangeira. Igniatius traz desenhos que parecem provir de um lugar anterior à linguagem. Todos parecem experimentar a mesma dificuldade: tornar-se uma presença verdadeira sem perder a fissura de onde provêm.
Pois a fissura é também a sua origem.
Uma obra totalmente fechada na sua harmonia tornar-se-ia inabitável para eles. Condená-los-ia à repetição decorativa. Enquanto aqui algo permanece aberto. Perigosamente aberto às vezes.
Começo mesmo a perguntar-me se a Criança Lua não é menos uma personagem do que uma maneira de o próprio livro, abrindo-se e fechando-se sem cessar, manter visível a sua própria ferida. Como se o relato soubesse obscuramente que provém de uma antiga rasgadura que nenhuma explicação conseguirá suturar inteiramente.
Então o belo deixa de ser perfeição.
O belo… ou aquilo que dele se aproxima… torna-se a capacidade de deixar aparecer uma verdade sem forçá-la a fechar-se demasiado depressa.
Aucun commentaire:
Enregistrer un commentaire