« Eis-nos, pois, de regresso à ordem emblemática através da qual o próprio mundo nos é revelado. Ela será aqui considerada como a fonte primeira desse dualismo filosófico inerente às religiões, mas rejeitado pela conceção científica do mundo, que a psicologia se esforça por reduzir e eliminar, e cujo fundamento material, função e lógica própria só agora começam a ser desvendados graças à abordagem original da etnologia.
Esta, com efeito, já não se prende (como fazia, por exemplo, a filosofia das Luzes) ao que poderia ser factualmente contestável nas verdades das culturas (a tradição), mas antes (como faz atualmente a psicologia) ao papel que essas representações desempenham efetivamente no funcionamento da sociedade. Deste ponto de vista, esse famoso dualismo dá melhor conta da nossa experiência vivida do que poderia fazê-lo um materialismo excessivamente positivista.
Mas verifica-se então que se trata apenas de uma aparência de dualismo. Existe, de facto, uma região da experiência que corresponde àquilo a que chamamos “transcendência”, mas que pode, sem qualquer prejuízo, ser reconduzida ao seio da imanência — existe, com efeito, um além, um “outro mundo”, mas que não é senão o reflexo, projetado nas nuvens, da outra face, ainda mal conhecida, deste mesmo mundo.»
Michael Francis Gibson, Ces lois inconnues, Métailié, p. 117.

Onde, ao perdermos momentaneamente de vista Igniatius e Lucian, que percorrem o mesmo caminho, mas em tempos diferentes, se manifesta uma «confusão temporal» ou, mais precisamente, um «abalo do tempo», durante o qual duas… ou três histórias se misturam e entrelaçam sem obedecer à mais pequena regra conhecida.
Excerto do diário de Don Carotte
Continuávamos a avançar. Por necessidade. O trilho, se alguma vez existira, não era já mais do que uma lembrança fustigada por raízes retorcidas. O silêncio, que a princípio tínhamos considerado nobre, esmagava-nos agora. Era insondável, demasiado denso para os nossos pobres ouvidos. E, nesse silêncio, os raros sons, o roçar de uma asa, o estalar de um ramo, adquiriam uma dimensão desmesurada. Ecoavam dentro do meu crânio, amplificavam-se no meu interior, como se os meus ossos se transformassem numa caixa de ressonância. Creio que o mesmo se passava com Sang Chaud.
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