dimanche 15 mars 2026

(2) A Abracadabrante História da Criança Lua



Lucien está um pouco perdido. Ele fala sozinho… mais precisamente, fala consigo mesmo.
– Perdoe a minha desatenção. Como não percebi a transformação que se operava na criança? O isolamento, talvez, perturba a minha percepção. Observemos atentamente o que agora se oferece aos seus olhos nesta ilha de rocha e silêncio.
Ah… o seu rosto mudou, de fato. Já não é a imagem de uma pureza infantil que atravessa esta paisagem estranha. Agora o cavaleiro ostenta uma máscara de homem envelhecido. Uma barba quase branca, órbitas escuras e enigmáticas que dissimulam toda expressão, todo traço de humanidade reconhecível. Será essa mudança… significativa?
O chapéu alto azul persiste, incongruente e, no entanto, presente, como um vestígio de uma identidade ou de uma função. O corpo, vestido com as mesmas roupas da criança desaparecida, parece mais anguloso. Há uma rigidez na postura, uma tensão palpável na maneira como ele se agarra ao seu bastão.
A montaria alada, o burro espectral, continua o seu voo improvável através desse ambiente mineral.
A paisagem, por sua vez, transformou-se. Um disco luminoso, de tonalidade laranja quente, aparece ao fundo, envolto por algo que se assemelha a nuvens de fumaça ou vapor em tons rosados e violetas. Essa luz contrasta violentamente com o céu cinza-esverdeado e as rochas escuras, introduzindo uma dimensão nova: talvez de calor, de perigo ou de uma presença cósmica.
As bandeiras rasgadas ainda tremulam, mas parecem mais apagadas agora, quase absorvidas por essa nova luz ambiente. O seu significado, portanto, talvez tenha evoluído.
A mente de Lucien, psiquiatra naufragado, volta ao trabalho diante desse novo enigma visual. A substituição da criança por essa figura — quase uma máscara — que sentido poderá carregar?
– A máscara… símbolo universal de dissimulação, de papel social, do que escolhemos mostrar ou esconder. Quem se oculta por trás dessa brancura enigmática? Será a perda da inocência? A entrada numa idade mais complexa, onde as identidades se constroem e se escondem atrás de fachadas?
A permanência do chapéu… ainda grande demais, aliás… será uma tentativa de conservar algo dessa inocência perdida? Uma lembrança persistente de uma identidade anterior? Ou apenas um ornamento absurdo nesta viagem surreal?
A rigidez do corpo… traduz uma ansiedade maior, uma perda da leveza da infância? A tensão na maneira como segura o bastão… ou a bengala? Será o medo de cair, de perder o controle dessa estranha cavalgada?
E essa luz… essa fonte quente e difusa. Será uma nova esperança que se ergue no horizonte dessa paisagem desolada? Ou uma ameaça iminente, uma fonte de perigo que colore o céu com um tom inquietante? As volutas rosadas e violetas… não seriam as emanações de uma emoção intensa — talvez paixão, cólera ou mesmo uma forma de loucura?
As bandeiras apagadas… terá o seu significado sido diluído por essa nova luz? Serão lembranças que se afastam, arrependimentos que se dissipam diante de uma nova realidade?
Se a primeira imagem podia evocar um sonho de inocência perdida, esta parece mergulhar mais profundamente nas complexidades da identidade, da dissimulação e das emoções ambivalentes. A viagem continua, mas a direção se inverteu, e o passageiro mudou. A paisagem tingiu-se de uma nova luz, portadora de tantas promessas quanto de ameaças.
E eu, diga-me Lucien… o que revela essa transformação ao meu próprio inconsciente? A máscara… não traz consigo o eco das minhas próprias tentativas de esconder as minhas fraquezas, as minhas dúvidas, atrás de uma fachada de racionalidade clínica? E essa nova luz tão intensa… não será o reflexo de uma tomada de consciência, de uma iluminação súbita que vem perturbar o meu isolamento?


Como falar de um livro que se leu… mas que não existe? E que, no entanto, começa a existir no próprio momento em que se fala dele. A situação pode parecer absurda… talvez não o seja completamente. O livro de que se trata aqui não se apresenta como um romance comum que se poderia seguir do começo ao fim segundo a progressão tranquilizadora de uma intriga.
A primeira palavra do título merece, aliás, que nos detenhamos nela por um instante: «abracadabrante». O termo deriva evidentemente de «abracadabra», fórmula mágica cuja história remonta à Antiguidade. Encontramos a sua primeira menção há quase dezoito séculos em Quintus Serenus Sammonicus. No seu Liber Medicinalis, ele recomendava inscrever a palavra num amuleto destinado a curar a febre, dispondo-a sob a forma de um triângulo invertido em que cada linha retirava uma letra até restar apenas a simples letra «A». Essa redução progressiva deveria expulsar o espírito responsável pela doença.
Não se pode deixar de ficar impressionado por essa estranha operação que consiste em reduzir gradualmente uma palavra até ao seu núcleo mais simples. Uma decomposição assim evoca quase um procedimento alquímico: retirar o supérfluo, dissolver as formas sucessivas para atingir aquilo que permanece quando tudo o resto desapareceu. Essa redução ao essencial possui, aliás, uma ressonância singular se recordarmos que a primeira letra do alfabeto, o «A», encontra provavelmente a sua origem na escrita proto-sinaítica, onde figurava uma cabeça de boi estilizada. Esse sinal primitivo, lentamente invertido e simplificado ao longo dos séculos, tornar-se-á a letra inicial dos nossos alfabetos. Assim, a fórmula mágica que se reduz até a um simples «A» parece quase reencontrar um ponto de origem onde escrita, símbolo, forma e potência animal ainda se confundem.
A «abracadabra» era, portanto, originalmente uma palavra apotropaica, uma fórmula destinada a afastar um mau sortilégio. A sua origem exata permanece discutida: alguns veem nela uma raiz hebraica que significaria «crio pela palavra», outros uma fórmula aramaica ligada à criação do homem. Seja como for, a palavra deixou pouco a pouco o domínio médico e mágico para se tornar o sinal universal do prodígio improvável, do golpe inesperado, da metamorfose súbita. Empregar hoje o adjetivo «abracadabrante» é, portanto, sugerir que um fenómeno estranho se produz diante dos nossos olhos, algo que pertence ao mesmo tempo ao mistério, à transformação e a uma forma de prestidigitação do sentido.
É exatamente a impressão que este livro produz.
Ele se parece antes com um conjunto de vestígios: cadernos encontrados, desenhos recorrentes, cartas, fragmentos de relatos, diálogos interrompidos, citações filosóficas. Tudo parece disperso, como se a história tivesse de ser recomposta a partir de materiais esparsos.
Neste ponto talvez seja necessário precisar que a principal dificuldade não reside na existência desses fragmentos, mas na sua organização. A própria palavra merece aqui ser entendida no seu sentido mais concreto. Ela deriva do termo «órgão», que por sua vez vem do grego organon, que designa um instrumento, mas também uma parte viva de um corpo. Organizar não significa, portanto, apenas classificar ou ordenar elementos. Significa fazer com que diferentes partes funcionem juntas como os órgãos de um organismo. Os fragmentos deste livro — cadernos, desenhos, vozes, relatos — talvez não sejam simplesmente peças dispersas que se poderiam arrumar à vontade. Eles parecem antes órgãos ainda dispersos de um corpo em formação. O seu lugar exato permanece incerto, mas pressente-se que pertencem a uma mesma estrutura viva. O problema não é tanto alinhá-los segundo uma ordem rígida, mas encontrar a circulação que permitirá ao conjunto respirar.
No centro desse conjunto encontra-se um psiquiatra chamado Lucian. Nem sempre ele teve esse nome: outrora chamava-se Lucien. A modificação não é apenas gráfica. Ela remete também para uma origem mais antiga do nome. «Lucian» remete ao latim Lucianus, derivado de Lucius, ele próprio proveniente de lux, a luz. O deslocamento do nome pode, portanto, ser compreendido como um movimento paradoxal: não uma ruptura com a origem, mas um retorno a ela. Uma espécie de evolução ao contrário que reconduz o personagem à raiz luminosa do seu próprio nome.
Lucian não é, portanto, apenas aquele que escuta. Ele torna-se pouco a pouco aquele que tenta fazer aparecer algo na obscuridade de um conjunto de documentos que parecem contar uma história — mas uma história fragmentada.
Esses documentos chegam até ele por intermédio de um paciente chamado Igniatius.
O próprio nome merece atenção. Ele parece conter em si a ideia de um começo. A sua inicial, esse «I» erguido, aparece como um traço inaugural, quase como a primeira linha de um desenho. Contudo, essa linha vertical contém já uma ambivalência. Ela ergue-se no espaço e sugere um movimento ascendente, como se algo se elevasse do solo em direção à luz. Mas quando a traçamos, esse gesto elementar realiza-se no sentido contrário. A mão desce do alto para baixo. Do céu para a terra. O sinal do começo desenha-se, portanto, como uma queda vertical que precede o aparecimento daquilo que vai surgir. Nesse traço simples — um dos gestos gráficos mais elementares — encontra-se já inscrito o paradoxo de uma origem que desce para permitir que algo emerja.
Igniatius aparece assim, na economia do relato, como aquele que desencadeia algo. Aquele por quem a história começa. Poder-se-ia quase dizer: no princípio estava Igniatius… se…






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