lundi 16 mars 2026

(3) A Abracadabrante História da Criança Lua

 


Poder-se-ia quase dizer: no princípio estava Igniatius…

E, no entanto, esse começo assume uma forma paradoxal. Pois Igniatius é um paciente de longa data que não consegue falar. Durante muito tempo permaneceu quase mudo. Não totalmente silencioso, mas como retido numa dificuldade profunda com a palavra, com o próprio fato de falar ou de expressar o que se passa dentro dele. As sessões parecem frequentemente afundar em silêncios ou em algumas frases isoladas que não conduzem a lugar algum. Mais tarde Lucian dirá a seu respeito que ele tinha «alguns problemas com a linguagem».

Chega o dia em que Igniatius aparece com um caderno e desenhos.

É a partir daí, quase imperceptivelmente, que algo começa a mover-se. A palavra liberta-se pouco a pouco. Não porque Igniatius descreva as imagens que mostra. Pelo contrário, ele quase nunca fala delas diretamente. Mas a sua presença atua como um desencadeador. Como se existisse entre as palavras e as imagens uma ligação secreta que não fosse uma simples repetição de umas pelas outras. A imagem não serve para ilustrar o relato e o relato não serve para explicar a imagem. No entanto, algo circula entre os dois.

Quando Igniatius abre um caderno ou tira um desenho, ele começa a falar, às vezes longamente, mas de coisas que à primeira vista parecem estranhas ao que se vê: uma anedota que se prolonga numa reflexão, que por sua vez se mistura com um fragmento de história. À primeira vista — ou à primeira escuta — não há ligação. Depois, à distância, um eco, mesmo leve, faz-se ouvir ou até… aparecer. Tudo se passa como se a imagem e o relato pertencessem à mesma rede de sentido, mas em graus diferentes.

Os próprios desenhos apresentam uma coerência impressionante. Os temas mudam bruscamente: paisagens vulcânicas, silhuetas, fragmentos de figuras, objetos isolados. O conjunto dá às vezes a impressão de passar «do galo ao burro».

Mas a expressão merece aqui ser entendida de outra maneira que não o seu sentido banal. Encontra-se, de fato, uma forma mais antiga atestada já no século XIV: saillir du coq en l’asne, que mais tarde se tornará sauter du coq à l’âne. Nessa versão primitiva a imagem é ainda mais estranha: ela evoca a tentativa improvável de um galo procurando fecundar um burro. A passagem «do galo ao burro» não descreve apenas uma ruptura do discurso. Ela sugere o encontro improvável e incompreensível de duas ordens de sentido que não deveriam encontrar-se e que, no entanto, entram em contacto por um desvio inesperado.

Quanto às imagens, elas ocupam neste livro um lugar singular. Poderiam ter sido pensadas — é pelo menos a hipótese que se pode formular — ao termo de um longo trabalho ao mesmo tempo intelectual e manual para permanecer simples e acessíveis, quase à maneira das antigas imagens populares de Épinal. A sua clareza aparente poderá dar a impressão de que se entregam imediatamente. Contudo, a experiência sugere outra coisa. Muitos as observam, por vezes achando-as agradáveis, por vezes curiosas, sem realmente compreendê-las. Esse fracasso aparente não é dissimulado. É até assumido, pois revela algo que toca diretamente na busca da Criança Lua.

O leitor poderá então, talvez, como fez o autor destas linhas, começar a compreender que as imagens, os fragmentos de relato e as vozes das personagens não são elementos separados, mas diferentes maneiras de girar em torno da mesma questão silenciosa que a Criança Lua persegue. Poderá também descobrir que aquilo que chama espontaneamente de «simplicidade» talvez não seja mais do que uma ideia herdada da sociedade, uma ideia que confunde complexidade com complicação. Ora, essas duas palavras não dizem a mesma coisa. A complicação nasce muitas vezes das nossas próprias construções mentais, dos desvios que o espírito fabrica quando procura dominar aquilo que não compreende imediatamente. A complexidade, por sua vez, pertence ao próprio mundo. Ela é a trama viva do que existe. As imagens de que se trata aqui tentam permanecer nesse lugar frágil onde a forma permanece simples ao mesmo tempo que deixa aparecer uma profundidade que não se deixa reduzir. Elas são simples e complexas ao mesmo tempo.



Aucun commentaire: