
A Abracadabrante História da Criança Lua
A história, se merece esse nome, de que aqui se trata não se apresenta como um romance comum que se poderia seguir do começo ao fim segundo a progressão tranquilizadora de uma intriga. Ela se assemelha antes a um conjunto de vestígios: cadernos encontrados, desenhos recorrentes, cartas, fragmentos de relatos, diálogos interrompidos, citações filosóficas. Tudo parece disperso, como se a história tivesse de ser recomposta a partir de materiais esparsos.
No centro desse conjunto encontra-se um psiquiatra chamado Lucian. Nem sempre ele teve esse nome: outrora chamava-se Lucien. A modificação é leve, mas significativa. Ela marca um deslocamento interior, quase um desdobramento de perspectiva. Pois Lucian não é apenas aquele que escuta: pouco a pouco ele se torna aquele que tenta compreender um conjunto de documentos que parecem contar uma história, mas uma história fragmentada.
Esses documentos chegam até ele por intermédio de um paciente chamado Igniatius. Igniatius é um paciente antigo. Durante muito tempo permaneceu quase mudo. Não totalmente silencioso, mas como retido numa dificuldade profunda com a palavra, com o próprio fato de falar ou de expressar o que se passava dentro dele. As sessões pareciam frequentemente afundar em silêncios ou em algumas frases isoladas que não conduziam a lugar algum.
Então, um dia, Igniatius chega com um desenho e um pequeno caderno contendo textos—na maioria das vezes ilegíveis—e desenhos. A partir desse momento algo começa a mover-se. A palavra liberta-se pouco a pouco. Não porque Igniatius descreva as imagens que mostra. Pelo contrário: ele quase nunca fala delas diretamente. Contudo, a sua presença atua como um desencadeador. Como se existisse entre as palavras e as imagens uma ligação secreta que não fosse uma simples repetição de umas pelas outras. A imagem não serve para ilustrar o relato e o relato não serve para explicar a imagem (ou então raramente). No entanto, algo circula entre os dois.
Quando Igniatius abre um caderno ou tira um desenho, ele começa a falar, às vezes longamente, mas de coisas que à primeira vista parecem estranhas ao que se vê: uma anedota, uma reflexão, um fragmento de história. À primeira vista não há ligação. Depois, à distância, surge um eco. Tudo se passa como se a imagem e o relato pertencessem à mesma rede de sentido, mas em graus diferentes.
Os próprios desenhos apresentam uma coerência impressionante. Os temas mudam bruscamente: paisagens vulcânicas, silhuetas, fragmentos de figuras, objetos isolados. O conjunto dá às vezes a impressão de passar “do galo ao burro”. Mas a expressão merece aqui ser entendida de outra maneira que não o seu sentido banal. Alguns recordam de fato uma forma mais antiga atestada desde o século XIV: saillir du coq en l’asne, que mais tarde se tornará sauter du coq à l’âne. Nessa versão primitiva a imagem é ainda mais estranha: ela evoca a tentativa improvável de um galo procurando fecundar um burro. A passagem “do galo ao burro” não descreve apenas uma ruptura do discurso. Ela sugere o encontro improvável e incompreensível de duas ordens de sentido que não deveriam encontrar-se e que, no entanto, entram em contacto por um desvio inesperado.
É precisamente isso que o livro parece produzir.
Essa lógica de desvio encontra-se também nos próprios cadernos. Eles contêm numerosas citações literárias e filosóficas que quase nunca servem de ilustração. Elas não vêm explicar o texto. Colocam-se ao lado dele, ligeiramente de viés, como se participassem do mesmo campo de significação sem jamais o fechar.
Lucian experimenta, portanto, muita dificuldade em seguir exatamente aquilo que Igniatius lhe conta. Em certos momentos ele acredita perceber uma história. Em outros momentos tem a impressão de que o próprio Igniatius procura o sentido do que conta—ou talvez o sentido do que se conta através dele.
Apesar dessa dispersão aparente, um motivo acaba por emergir. Ele diz respeito a uma criança.
Nos cadernos e nos fragmentos reunidos essa criança recebe progressivamente um nome: “a Criança Lua”. Uma imagem retorna várias vezes nos desenhos. Numa ilha vulcânica feita de rochas basálticas e falésias abruptas, uma criança atravessa a paisagem no dorso de uma montaria singular. O animal parece um burro. A criança usa um chapéu azul grande demais para ela. O céu é cinzento-esverdeado e bandeiras rasgadas flutuam ao vento.
Essa cena atua como uma imagem fundadora. Pois, apesar da desordem dos cadernos, a história existe desde o início: a de uma criança em busca.
Mas essa busca desenrola-se num mundo instável. Os cadernos falam de um arquipélago vulcânico chamado “Terra Archipelago”. As descrições evocam rochas negras, fissuras ardentes, vapores sulfurosos, um mar agitado por correntes imprevisíveis. Algumas ilhas parecem antigas, como se sempre tivessem existido. Outras parecem apenas emergir do mar.
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