Há lugares onde a verdade não é representada, mas onde ela o desfaz. Pode ser que o verdadeiro teatro nada conte: ele o arrebata, mas, ao mesmo tempo, o retira e, sem que no instante você sinta algo, ele o queima. Há um limiar que se atravessa sem sinal. Ali, como no jardim da Criança Lua, não se atravessam os símbolos — é-se atravessado por eles.
– Quem é a Criança Lua?
– Paciência…
Os dois companheiros papagaios retomaram o seu diálogo.
– Ninguém sai ileso de um lugar que não se compreende, mas que o transforma. Não é uma encenação: é um nascimento. Ouça-o falar!
–
Este teatro que arde se parece com isso… mas… não é uma alegoria. Ele é
o próprio acontecimento, diz a Criança Lua. Como naquele jardim onde o
homem não passeia: ele se perde para nascer verdadeiramente.
– Ele fala bem… mas para onde vai?
–
O fogo do relato não é um fim. Ele é a luz da origem, aquela que
precede a linguagem e consome tudo o que pretende fixidez. O teatro é
uma boca. E nós, os pensadores…
– Oh! Você vai longe demais! Nós? Pensadores… isso me deixa pensativo…
– Veja como a nossa presença é frágil
– Estamos sempre à beira de sermos “devorados”…
– Espero sinceramente… que você esteja enganado… e, antes de mais nada, sinto-me um pouco perdido… Onde estamos?


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