mercredi 18 mars 2026

(5) A abracadabrante história da Criança Lua


« Não se pode continuar a prostituir a ideia de teatro, que só vale por uma ligação mágica, atroz, com a realidade e com o perigo. […]
Colocada dessa forma, a questão do teatro deve despertar a atenção geral, entendendo-se que o teatro, pelo seu lado físico, e porque exige a expressão no espaço, a única verdadeiramente real, permite que os meios mágicos da arte e da palavra se exerçam organicamente e na sua totalidade, como exorcismos renovados. […]
Isto quer dizer que, em vez de voltar a textos considerados como definitivos e sagrados, importa antes de tudo romper a submissão do teatro ao texto e reencontrar a noção de uma espécie de linguagem única, a meio caminho entre o gesto e o pensamento.»
 
Antonin Artaud, Primeiro manifesto do Teatro da crueldade, em O Teatro e o seu duplo

 

Há lugares onde a verdade não é representada, mas onde ela o desfaz. Pode ser que o verdadeiro teatro nada conte: ele o arrebata, mas, ao mesmo tempo, o retira e, sem que no instante você sinta algo, ele o queima. Há um limiar que se atravessa sem sinal. Ali, como no jardim da Criança Lua, não se atravessam os símbolos — é-se atravessado por eles.

 

– Quem é a Criança Lua?
– Paciência…

 

Os dois companheiros papagaios retomaram o seu diálogo.

– Ninguém sai ileso de um lugar que não se compreende, mas que o transforma. Não é uma encenação: é um nascimento. Ouça-o falar!
– Este teatro que arde se parece com isso… mas… não é uma alegoria. Ele é o próprio acontecimento, diz a Criança Lua. Como naquele jardim onde o homem não passeia: ele se perde para nascer verdadeiramente.
– Ele fala bem… mas para onde vai?
– O fogo do relato não é um fim. Ele é a luz da origem, aquela que precede a linguagem e consome tudo o que pretende fixidez. O teatro é uma boca. E nós, os pensadores…
– Oh! Você vai longe demais! Nós? Pensadores… isso me deixa pensativo…
– Veja como a nossa presença é frágil
– Estamos sempre à beira de sermos “devorados”…
– Espero sinceramente… que você esteja enganado… e, antes de mais nada, sinto-me um pouco perdido… Onde estamos?

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