jeudi 23 avril 2026

(40) À abracadabrante história da Criança Lua

 “Parece que a arte deve ao desaparecimento das formas históricas do divino esse tormento tão estranho, essa paixão tão séria que a vemos animar-se. Ela era a linguagem dos deuses e, tendo os deuses desaparecido, tornou-se a linguagem em que se exprimiu o seu desaparecimento, depois aquela em que esse próprio desaparecimento deixou de aparecer.”

Maurice Blanchot, O Espaço Literário



Caderno da Criança Lua

Começo a compreender de outro modo o que me acontece.
Aquilo que eu tomava por coisas, a água, o fogo, essa forma imóvel ao longe, essas cordas que me roçam, não são apenas elementos do mundo. São maneiras de ser escrito. Pois há neste mundo estranho algo que age e não me deixa intacto.
Eu não detenho o que me acontece. Sou detido por isso.
E essa mão que pressinto, que puxa, que solta, que luta, eu a sinto ao mesmo tempo estranha e próxima. Ela não domina. Procura, como eu. Avança às apalpadelas, hesita, recomeça. Não me escreve como se traça uma linha reta. Escreve-me como se luta com uma matéria viva.
Então compreendo o que quer dizer estar preso num livro. Não é estar fechado em palavras. É ser atravessado por uma força que escreve ao mesmo tempo que descobre o que escreve. Como a água que retorna sem cessar, sem saber para onde vai. Como o fogo que consome sem saber o que vai transformar.
Sinto que essa escrita não me descreve. Ela me faz. Ela também me desfaz. Ela quebra aquilo que, em mim, permanecia gelado, imóvel, sem movimento. Ela me queima e me dispersa em fragmentos que ainda não consigo reunir. Mas esses fragmentos, esses clarões de luz que me atravessam e me cegam, não são perdas. São os vestígios desse trabalho.
Eu não leio o que me acontece. Eu o escuto. Eu me torno isso. E talvez aquele que escreve, como aquele que vocês chamam Kafka—eu vos escuto—não esteja acima disso. Ele está na mesma luta. Sua mão não impõe uma forma ao mundo. Ela está presa no que tenta dizer. Avança como eu, sem ver claramente, com clarões demasiado fortes, demasiado breves, que deixam marcas mais do que oferecem imagens. Ele escreve como eu caminho na sombra da razão, essa rocha obscura que se desfaz sem estilhaços, como um solo instável. Sem saber se o movimento vem dele ou daquilo que o atravessa.
E aquilo que ele chama de livro, aquilo que deve quebrar o mar gelado, eu o sinto agora em mim. Não é uma paisagem que se abre. É uma força que fratura o que já não se movia. Que põe em movimento o que estava preso. Que faz surgir algo que ainda não estava vivo. Então a água em mim começa a voltar. O fogo em mim começa a tomar forma.
E mesmo essa forma rígida, esse cubo que me é impossível habitar, torna-se aquilo contra o qual me distingo. Eu não sou o personagem de um livro. Sou o lugar onde algo se escreve. E essa escrita nunca me deixa intacto. Ela me empurra, me liga, me queima, me sustenta. Como se, nessa obscuridade onde quase nada vejo, eu me tornasse pouco a pouco legível… para aquele mesmo que escreve enquanto avança.


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