vendredi 24 avril 2026

(41) A abracadabrante história da Criança Lua

 
“A palavra não pertence àquele que a diz. Não lhe pertence mais do que àquele que a ouve. Ela passa entre ambos, vai de um ao outro, e essa passagem é talvez o que há de mais essencial. Pois falar não é transmitir algo que se possui, é deixar-se atravessar por aquilo que não nos pertence, por uma palavra que nos precede e nos excede. Assim, aquele que fala nunca é o senhor do que diz. É antes o seu hóspede provisório, ou o lugar onde algo vem a dizer-se, sem nunca ali se deter.”

Maurice Blanchot, A Conversa Infinita, Gallimard, 1969
 
 
Continuação da carta de Félix a Lucian
 
A Criança Lua acredita que é prisioneira do livro.
Mas o que ainda não vê é que essa prisão é a própria condição da sua palavra.
Pois, se não estivesse presa no livro, não falaria. Se não fosse escrita, não poderia ler. Se não fosse lida, não existiria como sujeito.
É por isso que a questão não é sair do livro. Digo-lho claramente: isso é um impasse. A questão é saber que lugar ocupa nesse livro. É apenas uma personagem? É o lugar onde algo se escreve? É, como o senhor sugere com tanta fineza, aquele por quem o livro se torna legível?
Vê que aqui está em jogo uma transformação.
Seria excessivo falar de libertação… no sentido ingénuo… mas um deslocamento não o seria.
O sujeito deixa de acreditar que é origem. Reconhece-se como efeito. E nesse mesmo movimento, algures, algo do seu desejo pode advir.
Ora, é aqui que a insolência atinge o seu alcance mais elevado. Pois reconhecer-se como efeito não significa consentir em ser apenas um efeito dócil. Significa poder habitar de outro modo o lugar onde se é escrito. Introduzir nele uma torção. Responder sem se deixar absorver por completo pela resposta esperada.
A insolência deixa então de ser revolta imaginária. Torna-se o próprio estilo pelo qual um sujeito, sem sair da estrutura, deixa contudo de ser perfeitamente solúvel nela.
Pois, afinal, aquilo que esta criança toca, nesta abertura das páginas, neste olhar que não pode ver mas que sente, é isto: é olhada onde não se vê.
E é precisamente aí que o sujeito se constitui.
Mas esta criança acrescenta algo de precioso: não quer apenas ser constituída. Não quer apenas manter-se no lugar onde é lida. Introduz aí uma hesitação, uma resistência oblíqua, uma maneira de não se habituar. É isso a sua insolência. Não destruir o livro, mas impedir que ele se feche completamente sobre ela como evidência.
Direi então, para concluir em meu nome: esta criança não é aquela que procura a origem da linguagem. É aquela que descobre que está presa na linguagem como num destino. E se há uma saída, não está num regresso ao pré-linguagem, mas na travessia dessa dependência, no facto de a sustentar, de a ler, e talvez, por sua vez, de nela inscrever algo que faça traço.
Nesse sentido, não é apenas escrita.
No limite, torna-se o próprio lugar onde isso se escreve.
E acrescento: torna-se aí insolente, no sentido mais profundo. Não aquele que falta ao respeito, mas aquele que falta ao hábito. Aquele que desfaz, pela sua própria maneira de ser falado, a ilusão de que a linguagem é evidente. Aquele que introduz, na frase que o contém, uma ligeira dissymetria graças à qual outra coisa aparece.
Isso não é nada de desprezível.
É talvez, para um sujeito, a única maneira de não desaparecer completamente naquilo que o precede.
Dito de outro modo, a insolência desta criança é mostrar-nos que o livro não é o mundo, mas a forma na qual o mundo lhe é dado. E que, ao sentir essa forma, ao perturbá-la, ao não se habituar a ela, abre uma brecha.
É por isso que esta insolência é ambígua. Pode não ser mais do que um narcisismo da recusa. Pode comprazer-se numa dissidência vazia. Pode limitar-se a morder a mão do discurso sem produzir senão uma ferida estéril. Mas pode também ser — e é este o caso que nos importa — a marca de um sujeito que não consegue esquecer que está preso na estrutura.
Esta criança não respeita inteiramente o real tal como lhe é apresentado. E tem razão. Não no sentido de possuir um acesso imediato a uma verdade anterior. Mas no sentido de que a sua incapacidade de se habituar revela que o real apresentado não é senão simbólico naturalizado.
É aqui que me afasto novamente de qualquer tentação de regresso a uma origem plena. Pois aquilo a que a criança chama “primeiro mundo” não é um mundo intacto, anterior, que se pudesse reencontrar. É a irrupção do real no simbólico. É aquilo que, na linguagem, resiste à linguagem.
Dito de outro modo, esse “outrora” que surge não é o passado. É aquilo que, no presente, não cessa de fazer furo.
E é também por isso que a insolência desta criança produz vertigem. Disse-o muito bem: quase se poderia ouvir no hábito uma espécie de solo, um terreno estável, tacitamente aceite. O insolente seria então aquele que retira esse solo, ou que caminha como se ele não sustentasse. É exatamente isso. Não caminha onde os outros pousam o pé sem pensar. Faz sentir que o terreno é simbólico. E então, aquele que o escuta vacila.
Esse vacilar pode ser vivido como ofensa. Muitas vezes é. Não porque a criança seja violenta. Pode ser muito doce. Mas a sua própria doçura desloca. Não agride frontalmente; desorganiza. Introduz, no tecido regulado das trocas, uma irregularidade que obriga a ouvir que algo falha na evidência.
“A palavra não pertence àquele que a diz. Não lhe pertence mais do que àquele que a ouve. Ela passa entre ambos, vai de um ao outro, e essa passagem é talvez o que há de mais essencial. Pois falar não é transmitir algo que se possui, é deixar-se atravessar por aquilo que não nos pertence, por uma palavra que nos precede e nos excede. Assim, aquele que fala nunca é o senhor do que diz. É antes o seu hóspede provisório, ou o lugar onde algo vem a dizer-se, sem nunca ali se deter.”
Maurice Blanchot, A Conversa Infinita, Gallimard, 1969
Continuação da carta de Félix a Lucian
A Criança Lua acredita que é prisioneira do livro.
Mas o que ainda não vê é que essa prisão é a própria condição da sua palavra.
Pois, se não estivesse presa no livro, não falaria. Se não fosse escrita, não poderia ler. Se não fosse lida, não existiria como sujeito.
É por isso que a questão não é sair do livro. Digo-lho claramente: isso é um impasse. A questão é saber que lugar ocupa nesse livro. É apenas uma personagem? É o lugar onde algo se escreve? É, como o senhor sugere com tanta fineza, aquele por quem o livro se torna legível?
Vê que aqui está em jogo uma transformação.
Seria excessivo falar de libertação… no sentido ingénuo… mas um deslocamento não o seria.
O sujeito deixa de acreditar que é origem. Reconhece-se como efeito. E nesse mesmo movimento, algures, algo do seu desejo pode advir.
Ora, é aqui que a insolência atinge o seu alcance mais elevado. Pois reconhecer-se como efeito não significa consentir em ser apenas um efeito dócil. Significa poder habitar de outro modo o lugar onde se é escrito. Introduzir nele uma torção. Responder sem se deixar absorver por completo pela resposta esperada.
A insolência deixa então de ser revolta imaginária. Torna-se o próprio estilo pelo qual um sujeito, sem sair da estrutura, deixa contudo de ser perfeitamente solúvel nela.
Pois, afinal, aquilo que esta criança toca, nesta abertura das páginas, neste olhar que não pode ver mas que sente, é isto: é olhada onde não se vê.
E é precisamente aí que o sujeito se constitui.
Mas esta criança acrescenta algo de precioso: não quer apenas ser constituída. Não quer apenas manter-se no lugar onde é lida. Introduz aí uma hesitação, uma resistência oblíqua, uma maneira de não se habituar. É isso a sua insolência. Não destruir o livro, mas impedir que ele se feche completamente sobre ela como evidência.
Direi então, para concluir em meu nome: esta criança não é aquela que procura a origem da linguagem. É aquela que descobre que está presa na linguagem como num destino. E se há uma saída, não está num regresso ao pré-linguagem, mas na travessia dessa dependência, no facto de a sustentar, de a ler, e talvez, por sua vez, de nela inscrever algo que faça traço.
Nesse sentido, não é apenas escrita.
No limite, torna-se o próprio lugar onde isso se escreve.
E acrescento: torna-se aí insolente, no sentido mais profundo. Não aquele que falta ao respeito, mas aquele que falta ao hábito. Aquele que desfaz, pela sua própria maneira de ser falado, a ilusão de que a linguagem é evidente. Aquele que introduz, na frase que o contém, uma ligeira dissymetria graças à qual outra coisa aparece.
Isso não é nada de desprezível.
É talvez, para um sujeito, a única maneira de não desaparecer completamente naquilo que o precede.
Dito de outro modo, a insolência desta criança é mostrar-nos que o livro não é o mundo, mas a forma na qual o mundo lhe é dado. E que, ao sentir essa forma, ao perturbá-la, ao não se habituar a ela, abre uma brecha.
É por isso que esta insolência é ambígua. Pode não ser mais do que um narcisismo da recusa. Pode comprazer-se numa dissidência vazia. Pode limitar-se a morder a mão do discurso sem produzir senão uma ferida estéril. Mas pode também ser — e é este o caso que nos importa — a marca de um sujeito que não consegue esquecer que está preso na estrutura.
Esta criança não respeita inteiramente o real tal como lhe é apresentado. E tem razão. Não no sentido de possuir um acesso imediato a uma verdade anterior. Mas no sentido de que a sua incapacidade de se habituar revela que o real apresentado não é senão simbólico naturalizado.
É aqui que me afasto novamente de qualquer tentação de regresso a uma origem plena. Pois aquilo a que a criança chama “primeiro mundo” não é um mundo intacto, anterior, que se pudesse reencontrar. É a irrupção do real no simbólico. É aquilo que, na linguagem, resiste à linguagem.
Dito de outro modo, esse “outrora” que surge não é o passado. É aquilo que, no presente, não cessa de fazer furo.
E é também por isso que a insolência desta criança produz vertigem. Disse-o muito bem: quase se poderia ouvir no hábito uma espécie de solo, um terreno estável, tacitamente aceite. O insolente seria então aquele que retira esse solo, ou que caminha como se ele não sustentasse. É exatamente isso. Não caminha onde os outros pousam o pé sem pensar. Faz sentir que o terreno é simbólico. E então, aquele que o escuta vacila.
Esse vacilar pode ser vivido como ofensa. Muitas vezes é. Não porque a criança seja violenta. Pode ser muito doce. Mas a sua própria doçura desloca. Não agride frontalmente; desorganiza. Introduz, no tecido regulado das trocas, uma irregularidade que obriga a ouvir que algo falha na evidência.
É isso que torna a sua insolência tão próxima da verdade analítica. A própria análise não é polida no sentido social. Não o é porque não reconduz a troca segundo as conveniências imaginárias. Deixa regressar o corte, o lapso, a equivocidade, o inassimilável. É, à sua maneira, insolente perante as ficções de domínio pelas quais o eu se tranquiliza.
E agora, permita-me formular o ponto essencial.
Esta criança acredita que é prisioneira do livro… e… com grande pesar… devo acrescentar… creio sinceramente que o senhor pode ser prisioneiro dela…
É isso que torna a sua insolência tão próxima da verdade analítica. A própria análise não é polida no sentido social. Não o é porque não reconduz a troca segundo as conveniências imaginárias. Deixa regressar o corte, o lapso, a equivocidade, o inassimilável. É, à sua maneira, insolente perante as ficções de domínio pelas quais o eu se tranquiliza.
E agora, permita-me formular o ponto essencial.
Esta criança acredita que é prisioneira do livro… e… com grande pesar… devo acrescentar… creio sinceramente que o senhor pode ser prisioneiro dela…

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