«Compreendi então que algo já não funcionava corretamente. Não nos acontecimentos — eles sempre tinham sido estranhos — mas na própria maneira como se mantinham unidos. Como se uma fissura invisível tivesse atravessado a narrativa. Uma dessas fissuras silenciosas que não quebram nada imediatamente, mas deslocam impercetivelmente todas as linhas de uma paisagem.»*
Ele recompõe-se e recomeça a folhear febrilmente os cadernos de Lucian, depois os de Don Carotte. As datas flutuam. Certos fragmentos parecem responder uns aos outros à distância. Outros parecem escritos antes dos acontecimentos que descrevem. Até os próprios papagaios confundem por vezes as sequências quando as narram.
Por fim reencontra a passagem que procurava.
É isso… a viagem iniciática de Don Carotte começava na clareira… sempre aquela clareira.
A árvore gigantesca aparece ali ao centro, com as suas raízes desmedidas mergulhando no solo como se procurassem menos a terra do que profundezas anteriores ao mundo visível. Don Carotte decide seguir essas raízes. Não apenas na sua extensão horizontal, mas também no seu afundamento. As palavras do caderno insistem mesmo nessa estranha impressão: as raízes pareciam conduzi-lo menos para debaixo da terra do que para fora do mundo comum. E é ao segui-las que começa a viagem para as ilhas.
Ora, subitamente, Félix começa a compreender o problema. Essa árvore já se encontra numa ilha do Arquipélago.
Ele pousa lentamente o caderno e permanece imóvel durante muito tempo. Pois essa contradição destrói toda a geografia estável.
Se a árvore já pertence ao Arquipélago, então Don Carotte não viaja de um exterior para as ilhas. Ele já se encontra lá dentro no próprio momento em que acredita partir.
Esta ideia produz em Félix uma sensação quase física de vertigem.
Ele olha em redor como se as próprias paredes tivessem mudado ligeiramente de posição.
Depois, uma hipótese começa lentamente a emergir.
E se a iniciação não consistisse precisamente em alcançar outro lugar?
E se a verdadeira função da viagem fosse revelar que o viajante já habitava o espaço que procurava?
Então muitos elementos se tornam subitamente mais coerentes.
O Arquipélago deixa de ser um destino geográfico clássico. Torna-se uma estrutura de realidade na qual as personagens já se encontram presas antes mesmo de tomarem consciência disso.
A árvore gigantesca passaria então a desempenhar um papel essencial.
Ela deixaria de ser apenas uma árvore maravilhosa colocada na paisagem. Funcionaria como uma espécie de eixo vivo ligando entre si várias profundidades da narrativa.
Félix relê a descrição:
«O tronco erguia-se tão alto que os últimos ramos desapareciam nas brumas suspensas acima da clareira. Mas não era a altura o que mais perturbava. Eram as raízes. Elas erguiam a terra em redor como se o próprio solo respirasse sob a sua lenta pressão. Algumas desapareciam em fissuras negras onde se julgava ouvir água — ou talvez vento — circulando muito longe sob as pedras.»
Félix compreende então porque Don Carotte segue as raízes em vez do tronco.
O tronco sobe em direção ao céu visível.
As raízes conduzem ao invisível enterrado.
E é precisamente aí que se situa o verdadeiro deslocamento iniciático.
Não numa mudança de lugar.
Mas numa modificação da profundidade.
Então o paradoxo deixa pouco a pouco de o ser.
Don Carotte começa já numa ilha porque ninguém entra realmente no Arquipélago vindo do exterior. As personagens descobrem progressivamente que já lá viviam sob uma forma incompleta ou inconsciente.
Isso explicaria também porque Lucian fala de «ter feito a viagem» enquanto por vezes dá a impressão de nunca ter deixado certos espaços do teatro-circo.
O deslocamento talvez não seja principalmente horizontal.
Assemelha-se mais a uma descida às camadas subterrâneas do próprio mundo narrativo.
Como se o Arquipélago possuísse vários níveis de visibilidade.
Certas ilhas seriam imediatamente percetíveis.
Outras permaneceriam escondidas sob os hábitos do olhar.
E a árvore gigantesca tornar-se-ia então uma das raras estruturas que permitem circular entre esses diferentes regimes do mundo.
Subitamente Félix anota isto na margem:
«As raízes não conduzem para outro lugar. Conduzem para a espessura escondida do próprio lugar.»
Depois surge outro pensamento, ainda mais inquietante.
Se Don Carotte começa a sua viagem já dentro do Arquipélago sem o saber, talvez o mesmo aconteça com todas as personagens.
Talvez até com Lucian.
Talvez até com aquele que lê os cadernos.
Então o Arquipélago deixa definitivamente de ser um cenário.
Torna-se uma condição.
Uma maneira secreta de habitar o mundo antes mesmo de compreender que já se vive dentro dele.
*Inspirado em O Deserto dos Tártaros
%20copie.jpg)
Aucun commentaire:
Enregistrer un commentaire