Notas de Lucian, escritas à mão no verso da imagem:
«Por detrás da corda de mil ramificações, como um muro intransponível, a água estava por toda a parte. Enquanto observava aquelas cordas e aquelas águas furiosas, subitamente, com um novo terror, vi a marioneta. Ela não estava apenas suspensa sobre o vazio: não vinha apenas do próprio passado das criaturas… ela regressava a ele. Podia-se adivinhar que outrora aquelas cordas sobre as quais, em equilíbrio instável, ela agora se mantinha, tinham servido para a puxar, para a reter, para a fazer mover segundo vontades estrangeiras. Ontem: fios de marioneta. Hoje: linha de fuga e linha de constrangimento. Servidão suspensa nas alturas do circo.
E eis que agora, tornada Pinóquio o Outro, avançava sobre elas.
Aquilo que outrora a manipulava tornara-se caminho.
Aquilo que a escravizava tornara-se passagem.
Então compreendi que ela não tentava apenas atravessar um abismo. Tentava sair de uma antiga condição de si mesma. Todo o chapitô, embora invisível para mim próprio, gemia em torno dela. Para além das grandes águas, as vastas telas vermelhas palpitavam como órgãos gigantescos. As vigas estalavam com aquela lentidão solene das coisas imensas que começam a ceder sob o seu próprio peso. Nada estava ainda destruído. Mas tudo já desaparecia.»

Onde Félix, depois de ler as palavras de Lucian rabiscadas apressadamente no verso do desenho, escreve nos seus próprios cadernos como começa a análise da imagem que lhe chega.
Caderno de Félix
Esta imagem parece falar de uma passagem através do emaranhado mais do que de um deslocamento livre no espaço. Tudo nela é atravessado por cordas, ligações, nós, tensões. Mesmo o mar ao fundo não parece ser apenas um mar. Assemelha-se a uma força imensa, móvel, quase originária, enquanto os postes verticais erguem uma espécie de arquitetura seca no meio do tumulto. O conjunto dá a impressão de um mundo onde toda a trajetória exige negociar com amarras. A personagem suspensa entre os cordames não avança como um navegador conquistador. Parece presa num sistema já existente antes dela. As cordas podem ser compreendidas simultaneamente de duas maneiras: sustentam e impedem. Sem elas, queda imediata; com elas, impossibilidade de um movimento simples. Isto aproxima-se muito de certas situações existenciais ou narrativas em que aquilo que permite viver é também aquilo que aprisiona. O livro, a linguagem, as figuras, a memória, os relatos transmitidos: tudo isso funciona assim.
Há também algo de iniciático na cena. A personagem não caminha sobre um solo estável. Atravessa uma rede suspensa acima de uma profundidade agitada. Isto evoca menos uma viagem geográfica do que uma aprendizagem da própria passagem. Poder-se-ia quase dizer que o verdadeiro tema da imagem não é o homem, mas a dificuldade da travessia.
Os postes verticais desempenham aqui um papel importante. Recortam o espaço como marcos ou limiares. Fazem quase pensar nas colunas de um templo, mas de um templo precário, fustigado pelos ventos e pelas ondas. Cada intervalo entre eles torna-se uma zona de risco. A personagem passa de um “entre” para outro “entre”. Nunca habita um lugar estável. Permanece na transição.
E depois há aquele mar em fúria… longe de ser decorativo. Parece querer retomar toda a cena. As ondas erguem-se como formas vivas, quase animais. As cordas aparecem então como uma tentativa humana de traçar linhas acima de um mundo fundamentalmente movente.
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