« É como se fosse uma lei da cultura nunca progredir senão obliquamente, tornando-se cada ideia nova, depois daquele que a instituiu, outra coisa diferente daquilo que era para ele.»
M. Merleau-Ponty (MP), Signes,
Gallimard, coleção « NRF », Paris, 1960, p. 365
Onde Igniatius relata a vinda de Pinocchio o Outro ao seu mundo e como a palavra, insensivelmente, passou de um para o outro.
Caderno de Igniatius
É-me difícil dizer quando teve lugar o meu encontro com Pinocchio o Outro. O próprio nome veio mais tarde, quando a semelhança com Pinocchio já se tornara suficientemente forte para ser reconhecida e suficientemente insuficiente para que fosse necessário marcar a diferença, e foi provavelmente nesse momento que o Outro se impôs, não como um simples qualificativo destinado a distinguir uma variante da personagem antiga, mas quase como um protesto que não vinha inteiramente de mim e que, no entanto, só podia passar por mim, como se essa marioneta sem boca, privada do órgão habitual da fala, tivesse encontrado no meu próprio silêncio o espaço necessário para fazer ouvir aquilo que tinha para dizer, não sob a forma de uma frase preparada, muito menos de um pensamento que eu tivesse primeiro formulado para depois lho atribuir, mas nessa impulsão muito mais direta pela qual alguma coisa se declara antes mesmo de aquele que a profere ter tido tempo de decidir se é o seu autor.
Recordo-me menos de ter escolhido essa palavra do que de a ter sentido tomar o seu lugar com uma evidência que não era a de um nome finalmente encontrado depois de várias tentativas, pois o Outro não vinha apenas designar uma diferença, introduzia uma espécie de recusa, como se a marioneta se desprendesse subitamente da figura que a tornara possível e dissesse, através de mim que já não falava, que não era aquele, que não era o Pinocchio conhecido, que não era uma retomada, nem sequer uma cópia mal ajustada, mas outro, e talvez até o Outro, com tudo aquilo que essa palavra já continha de separação e de nascimento.
Aquilo que ainda hoje me perturba, quando regresso a esse momento, tem menos que ver com o facto de essa fala ter surgido do que com o lugar de onde surgiu, pois não vinha nem de uma boca desenhada no rosto da marioneta nem de alguma reserva de palavras que eu tivesse guardado dentro de mim à espera de poder voltar a servir-me delas, e, no entanto, acontecia, passava, encontrava o seu caminho através daquele que, precisamente, já não falava, de tal maneira que a imagem habitual da marioneta se inverteu quase sem que eu desse por isso, pois eu ainda julgava ser aquele que a fazia mover-se, aquele cujas mãos determinavam as posições e cujos desenhos fixavam a forma, enquanto, no próprio momento em que ela se declarou outra, alguma coisa nessa relação deixou de me obedecer inteiramente e colocou-me, a mim, tanto do lado daquele que recebe o movimento como daquele que o produz.
Não vivi isso como uma desapropriação, nem como uma luta em que a criatura tivesse subitamente levado a melhor sobre aquele que a fabricara, porque nada era assim tão teatral. Provavelmente ainda nem sequer se tratava de saber o que cada um de nós dois detinha. Era muito mais simples, como se o centro se tivesse deslocado sem ruído para ela e, ao deslocar-se, me tivesse arrastado para um movimento que eu não previra, até àquele ponto estranho em que já não sabia muito bem se lhe dava uma voz ou se ela tomava emprestada a minha, e em que essa própria distinção se tornava menos importante do que o facto, infinitamente mais imediato, de alguma coisa acabar de ser dita.
Não aprendi, portanto, a falar de novo, e nem sequer me lembro de ter pensado, naquele momento, que estava a recomeçar a falar, pois isso teria exigido que eu regressasse a mim próprio, que verificasse o que acabava de acontecer e comparasse esse instante com os que o tinham precedido, quando eu estava inteiramente tomado por outra coisa, por aquilo que essa marioneta sem boca acabava de fazer ouvir, pela maneira que encontrara de se separar do Pinocchio conhecido passando por uma voz que, até então, já não servia para nada.
É apenas quando regresso hoje a essa cena que vejo o que nela se deslocou, e ainda assim tenho de desconfiar da tentação de lhe dar uma coerência que ela não tinha enquanto acontecia, pois eu continuava então, sem dúvida, preso à ideia de que uma fala pertence àquele que a profere, que nasce nele, se forma algures antes de sair e que ele é, se não o seu senhor, pelo menos o seu ponto de origem, enquanto aquilo que se passava com Pinocchio o Outro tornava subitamente essa geografia muito menos segura, pois a sua fala não existia numa boca que ele não tinha, nem existia em mim como uma frase que tivesse esperado pela sua hora, e, no entanto, aparecia naquele intervalo em que a sua revolta procurava passagem e em que o meu silêncio, sem deixar de ser o meu silêncio, podia servir para outra coisa que não fechar-se sobre si próprio.
Não saberia dizer em que momento compreendi que era a minha voz que ouvia, e é até possível que essa questão só tenha surgido muito mais tarde, pois no momento em que alguma coisa dizia eu sou outro, ou alguma coisa suficientemente próxima para que essas palavras me regressem hoje, eu não estava ocupado a escutar-me, não estava à espreita do menor som como prova do que quer que fosse, estava com ele, ou talvez já um pouco nele, suficientemente, em todo o caso, para que a voz pudesse passar sem ter de perguntar primeiro a quem pertencia.
Isso parece-me importante agora, porque enquanto me mantenho no centro da cena a perguntar-me se falo ou se não falo, tudo o que acontece tem necessariamente de ser medido a partir de mim, enquanto com Pinocchio o Outro o baricentro se tinha deslocado para outro lugar, para essa marioneta que já não aceitava ser simplesmente Pinocchio e que, para o dizer, precisava daquilo que se encontrava disponível à sua volta, talvez das minhas mãos, do meu olhar, das minhas recordações, e também dessa voz, da qual eu já não fazia uso, mas que, aparentemente, nem por isso deixara de poder ser atravessada.

Aucun commentaire:
Enregistrer un commentaire