mercredi 16 septembre 2026

Incerteza

 

Onde Félix começa a duvidar daquilo a que chama uma «remontada» em direção a uma origem voluntária… talvez as formas também advenham na passagem, sem terem sido inteiramente concebidas de antemão. Procurar por detrás de toda a forma uma intenção primeira pressupõe que ela já existia, completa, antes da sua aparição…

Diário de Félix

Pergunto-me se, como tantos outros, não terei cometido, desde o princípio, um erro bastante comum, aquele que consiste em procurar por detrás das coisas a vontade que as teria produzido, como se toda a forma tivesse necessariamente de ter sido precedida por uma intenção da mesma forma, apenas mais clara, mais pura, ainda invisível mas já completa, e como se o meu trabalho consistisse, a partir daí, em remontar dos vestígios até essa intenção primeira, do desenho até aquele que o teria desenhado, da personagem até aquele que a teria concebido, da estranheza de um chapéu demasiado grande, de um casaco que flutua em torno de um corpo, de um rosto que falta ou se furta, até uma decisão cujo momento bastaria reencontrar para que tudo, finalmente, voltasse ao seu lugar… Ora, hoje já não estou certo de que as coisas se tenham passado assim, ou antes, pois tenho agora de desconfiar desse hábito que ainda conservo de substituir demasiado depressa uma certeza por outra, já não estou certo de que alguma vez possam passar-se inteiramente assim.

Li recentemente algumas páginas de Maurice Blanchot e detive-me numa frase que provavelmente já encontrara outrora… sem que tivesse ficado ancorada na minha memória. Porque, sei-o, há frases que esperam que alguma coisa, em nós ou à nossa volta, as torne visíveis… ou legíveis… e esse alguma coisa fala da obra mais segura, daquela diante da qual tudo parece atestar o domínio, a força de um começo, e o filósofo acrescenta que ela pode, no entanto, surgir-nos subitamente como uma «obra subitamente tornada de novo invisível», como se aquilo que tínhamos diante dos olhos deixasse por um instante de estar ali, ou revelasse que talvez nunca tivesse estado ali da maneira como pensávamos, e é essa expressão, tornada de novo, talvez ainda mais do que a própria invisibilidade, que desde então não deixa de regressar diante dos meus olhos, porque não diz apenas que alguma coisa desaparece, mas deixa entender que a própria visibilidade teria sido uma passagem, um estado provisório entre duas obscuridades, e que uma obra, longe de ser aquilo que vem simplesmente ocupar o seu lugar no termo de um trabalho, solidamente instalada na sua existência de objeto fabricado, poderia ser aquilo que aparece por um momento, se reúne, se torna apreensível, e depois se retira novamente, sem que por isso o papel deixe de estar coberto de traços, a pedra deixe de ocupar o seu volume ou as frases deixem de permanecer inscritas na página.

Começo então a compreender por que razão algumas das minhas perguntas se tornam cada vez mais difíceis de formular à medida que avanço, pois eu queria saber quem tinha feito aquilo, o que tinha querido fazer, por que razão determinado traço estava ali, por que motivo aquela cabeça parecia demasiado pequena sob aquele chapéu imenso, por que faltava aquela boca, se deveria ver nisso uma decisão ou uma inabilidade, um gesto deliberado ou um acidente, e outrora pensava que essas perguntas abriam uma investigação, enquanto agora me pergunto se algumas delas não a fechavam antes mesmo de ela ter começado, obrigando-me a escolher demasiado cedo entre respostas que talvez só sejam opostas na maneira como contamos, depois, aquilo que aconteceu, como se o desenhador tivesse necessariamente sabido ou ignorado, querido ou falhado, projetado ou sofrido, quando uma mão pode perfeitamente não se ter enganado sem que tenha, por isso, decidido, no sentido claro e prévio do termo, aquilo que estava a fazer.

Esta possibilidade parece-me agora considerável, precisamente porque não elimina nem a vontade, nem o trabalho, nem o conhecimento, nem a habilidade; é preciso segurar o lápis, deslocar a pena, retomar uma linha, escolher prolongá-la ou interrompê-la, é preciso agir, mas talvez o ato não permaneça encerrado no pensamento que o precede, talvez produza, no próprio decorrer da sua realização, alguma coisa que esse pensamento ainda não continha e que aquele que age só descobrirá depois, por vezes imediatamente, por vezes muito mais tarde, por vezes nunca, de tal maneira que o desenho, se assim posso dizer, começa então a preceder o seu próprio desígnio, não porque se torne independente daquele que o traça, mas porque faz aparecer alguma coisa que o desígnio não tinha previsto, e aquilo que acaba de aparecer modifica, por sua vez, o desígnio, que volta então a agir sobre o desenho seguinte, tornando-se, a partir daí, cada vez mais difícil determinar o que, nessa circulação, seria verdadeiramente primeiro.


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