mercredi 26 août 2026

(185) A abracadabrante história da Criança Lua



Onde, para Lucian, algo de semelhante existia nessa outra navegação cujas operações nenhum comandante percebia, pois também ela tinha de avançar depressa, infinitamente mais depressa do que a consciência que, chegando depois, podia acreditar ter escolhido aquilo que, muitas vezes, já havia sido posto em marcha.

O corpo, pensava Lucian, não podia esperar ter examinado cada pormenor para se manter de pé, a mão não podia recalcular todas as distâncias antes de agarrar, o olho não recomeçava o mundo a cada olhar… era preciso que a experiência acumulada se tornasse um atalho, que aquilo que se produzira cem vezes tornasse o centésimo primeiro acontecimento quase familiar antes mesmo de ele ter acabado de acontecer, e era precisamente essa admirável economia que permitia avançar sem parar diante de cada incerteza.
Mas o hábito, quando consegue durante demasiado tempo, adquire uma autoridade singular. Aquilo que, de início, era apenas uma hipótese confirmada muitas vezes pode acabar por adquirir a aparência de uma lei… e aquilo que deveria continuar a ser uma antecipação transforma-se numa certeza. Então o organismo, que aprendera a prever para agir mais depressa, corre o risco de já não reconhecer suficientemente cedo aquilo que, sob uma forma quase conhecida, está a tornar-se outra coisa.
Assim, o nevoeiro podia ser para o paquete aquilo que uma informação incerta é por vezes para o espírito: não a ausência de qualquer sinal, mas a presença de sinais insuficientes que a velocidade obriga a completar. Quando a visão já não oferecia inteiramente o mundo, era necessário que alguma coisa completasse aquilo que ela deixava por fornecer, e quanto maior era a confiança nos hábitos adquiridos, mais facilmente o invisível podia receber a forma daquilo que se esperava encontrar, em vez daquela, ainda sem nome, daquilo que ali se encontrava realmente.
Raciocinara-se muito sobre isso, com aquela paciência exata que por vezes dá às decisões humanas a aparência de se terem tornado necessárias. Se um navio mais pequeno viesse embater no paquete lançado a toda a velocidade, pensava-se, a violência do choque distribuir-se-ia de tal maneira que o outro casco sofreria a parte essencial do impacto; se, pelo contrário, fosse o próprio paquete a encontrar uma embarcação no seu caminho, mais valia ainda que a atingisse com toda a sua potência, pois, a velocidade reduzida, corria o risco de danificar a proa, ao passo que, a toda a velocidade, cortaria provavelmente o obstáculo em dois e prosseguiria o caminho com algumas chapas marcadas, talvez um pouco de pintura a refazer, nada, enfim, comparável ao desastre reservado ao outro.
O raciocínio transformara assim o encontro numa relação de forças antes mesmo de ele ter lugar, e a grandeza do paquete tornava-se a prova da sua segurança porque deveria necessariamente tornar-se a desgraça daquilo que fosse mais pequeno do que ele. Não se eliminava a possibilidade da colisão… distribuíam-se antecipadamente os seus efeitos, com essa estranha faculdade que a inteligência por vezes possui de tornar uma consequência aceitável desde o momento em que consegue inscrevê-la numa cadeia perfeitamente ordenada de causas.
A outra arquitetura, a de Lucian, conhecia também algo desse poder. Sabia afastar, atenuar, por vezes esquecer aquilo que ameaçava a continuidade do conjunto… dispunha de limiares abaixo dos quais mil variações permaneciam sem importância, de filtros graças aos quais o incessante estrondo do mundo não se transformava num incessante estrondo dentro da consciência, e essa seleção era indispensável, pois receber tudo com a mesma intensidade talvez tivesse tornado impossível o menor gesto. O cérebro salvava, portanto, continuamente aquele que o habitava de uma quantidade prodigiosa de coisas que não lhe mostrava.
Mas essa salvação tinha o seu reverso… aquilo que não fora considerado importante podia continuar a existir sem ser visto.
O raciocínio, portanto, não eliminava a violência… deslocava-a. Não tornava impossível a colisão… decidia apenas, antecipadamente e quase serenamente, qual dos dois corpos teria de ceder.
E talvez se pudesse dizer que também dentro de Lucian alguma coisa cede continuamente para que outra possa permanecer… uma perceção apaga-se diante de outra, um pormenor é abandonado para que a figura apareça, uma lembrança deforma-se ligeiramente para se juntar ao que vem, uma contradição demasiado fraca é absorvida pela imensa coerência daquilo que já se julga saber. Isto não é necessariamente um erro… é muitas vezes a própria condição da inteligência, que não poderia pensar se tivesse de conservar, a cada instante, todas as possibilidades em aberto. Apenas acontece, por vezes, chegar um momento em que aquilo que foi afastado deixa de ser negligenciável, em que vários pequenos desvios, cada um demasiado fraco para, sozinho, obrigar à revisão do todo, começam a responder uns aos outros. Ainda não constituem um perigo… talvez apenas uma inquietação.


Muito livremente inspirado a partir de
Morgan Robertson, O Naufrágio do Titan
Futility, or the Wreck of the Titan, 1898

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