jeudi 27 août 2026

(187) A abracadabrante história da Criança Lua

 Onde se vê, durante a viagem de Lucian, que aquele que segue vestígios faz bem em olhar, por vezes, para trás e em redor de si… poderia aperceber-se de que, ao procurar a passagem dos outros, já está a deixar os seus próprios vestígios…


… e onde se descobre, com surpresa, que, num puzzle, a imagem final poderia não ser criada pelas peças…

– Vê o que o nosso mestre quer dizer?
– Não vejo aquilo que você ouve…
– Poderia dizer-me… se aquilo que acabei de ouvir… quer dizer alguma coisa?
– Teria primeiro de me dizer o que ouviu…
– Falava-se de uma imagem final… que… num puzzle, poderia não ser criada pelas peças…
– Vejo… ouço-o perfeitamente…
– E eu não entendo nada…
– Como dizia o nosso mestre… isso quer dizer que a imagem, antes de ser um puzzle…
– … uma imagem feita em pedaços…
– Essa imagem já estava lá, já não como imagem visível…
– Como então?
– Mas como princípio de pertença. A montagem… das peças… não produz a origem.
– Acho que está a brincar com as palavras… um pouco… se não ainda mais!
– Quando muito… estaria a brincar com as palavras…
Mas, para voltar à imagem… veja… a montagem das peças torna-a percetível. Compreenda que não se trata de regressar a um começo desaparecido…
– Mas então!
– Trata-se de deixar aparecer uma coerência que já trabalhava em cada peça.
– Cada fragmento, se bem entendo… transporta, portanto, mais do que ele próprio.
– É isso mesmo… Transporta o conjunto sob uma forma invisível.
– Como as letras de uma palavra… ou as palavras de um livro…
– É muito precisamente isso que fascinava, sem dúvida, no livro A Vida, Modo de Usar. Leu-o?
– Não… mas o nosso mestre falou-nos dele…
– O romance é construído como um imenso puzzle, mas Perec, Georges… o autor, acrescenta uma ideia marcante…
– Qual?
– Aquele que fabrica o puzzle…
– Aquele que põe a imagem em pedaços…
– Sim, pois bem, essa ideia pensa já nas dificuldades que aquele que o resolver irá encontrar.
– Quer dizer que o fabricante e o jogador dialogam através das próprias formas das peças!
– O puzzle torna-se uma conversa silenciosa entre duas inteligências separadas no tempo.
– É, no mínimo, paradoxal!
– Tem razão… além disso, pode observar que, quando se acaba um puzzle…
– Já percebi… o jogo desaparece!
– Quanto mais perfeita se torna a imagem, menos puzzle resta. O puzzle vive do inacabamento. Uma vez concluído, deixa de ser uma procura e, levando a ideia um pouco mais longe, pode considerar-se morto.
– Uma imagem morta…
– Nesse sentido, o puzzle assemelha-se muito ao pensamento. Um pensamento completamente acabado deixa muitas vezes de pensar. Torna-se doutrinal.
– Um pouco como você… peça após peça… começa a parecer-se com o nosso mestre…
– Talvez seja aí que Don Carotte, Pinocchio o Outro… e outros… nunca parecem procurar completar o mundo…
– Procuram descobrir quais as peças que já pertencem ao mesmo movimento.
– Lucian, Félix, Igniatius, nós próprios, Don Carotte… não fabricamos nem constituímos uma totalidade.
– Descobrimos progressivamente que as nossas vozes se encaixam…
– … sem nunca se confundirem.
– O leitor acredita, ou gostaria, de montar as personagens. Mas…
– … talvez seja o livro que, silenciosamente, monta o leitor.
– O verdadeiro puzzle deixa então de ser aquele que se coloca sobre uma mesa.
– É aquele no qual cada pedaço descobre que sempre pertenceu a uma imagem cuja existência ignorava menos…
– … do que a maneira de aparecer.
– Por outras palavras, a dificuldade não era a ausência da imagem…
– … mas a ausência de um olhar capaz de reconhecer a sua unidade viva.
– Assim, o puzzle deixa de ser apenas uma metáfora do conhecimento…
– … torna-se uma fenomenologia da aparição. Cada peça é uma maneira de o conjunto aparecer, e o conjunto não existe em nenhum outro lugar senão nessas aparições sucessivas.
– A origem não se encontra, portanto, nem antes dos fragmentos nem depois da sua reunião…
– … circula entre eles, discreta mas insistente, como essa coerência que precede qualquer demonstração…
– … e que se acaba um dia…
– … quase apesar de si próprio…
– … por reconhecer.


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