A imagem do invisível é ela própria invisível; caso contrário, não seria a sua imagem.
João Crisóstomo, Homilia sobre a Epístola aos Colossenses
Onde Igniatius, depois de ter permanecido imóvel durante muito tempo, saindo finalmente de um entre-dois desmoralizante, retoma o seu caminho.
Caderno de Igniatius
A garganta continuava a ser outra coisa que não eu, embora deixasse de me ser estranha. Eu continuava a ser aquele homem singular inclinado sobre a água, ao mesmo tempo que descobria quão pouco daquilo que ele era podia ser separado do mundo que o fazia respirar e pensar. Havia ali uma diferença que já não exigia separação. Sentia que o pensamento, se quisesse acompanhar aquilo que eu experimentava, em vez de o substituir pelas suas categorias, teria de permanecer nesse entre-dois sem procurar imediatamente encerrá-lo.
A água continuava a passar entre as pedras. A folhagem movia-se muito ligeiramente por cima dela. Os seus movimentos deslocavam as constelações que tremeluziam aos meus pés. A minha respiração prosseguia o seu ritmo no meio de todos aqueles outros ritmos, sem saber qual deles poderia servir de medida aos restantes. No entanto, não sentia qualquer perda por já não saber exatamente onde terminava a paisagem e onde começava eu. Teria essa fronteira alguma vez existido?
Olhei mais uma vez para o homem que eu era, sem conseguir vê-lo senão através de tudo o que o rodeava, e desta vez ele já não me apareceu como um visitante colocado no interior da garganta. Sobre ele incidia a mesma luz que sobre as pedras, a mesma humidade que envolvia as folhas. Ocupava entre as árvores um lugar provisório, aquele que o instante seguinte deixaria vazio. Estava sujeito ao mesmo tempo que transformava as margens, arrastava as folhas e recompunha incessantemente as estrelas da água. Só que, nele, durante um período de que quase nada sabia, algo podia experimentar essa pertença e ver-se através dela.
Aquela paisagem que eu julgara contemplar desde a minha chegada era, portanto, também, de uma maneira que não exigia acrescentar qualquer mistério ao mundo, aquilo através do qual eu podia ver-me. Não falo do meu rosto, nem da minha história, mas daquilo que eu era antes mesmo de poder dizer «eu». Um ser vivo exposto a tudo o que o rodeia. Um ser vivo feito daquilo que o rodeia. Transformado pelo que perceciona e transformando em perceção aquilo que o alcança, até que a antiga distinção entre o observador e o observado se tornasse demasiado pobre para conter a experiência.
Retomei finalmente a marcha, mas aquele primeiro passo teve uma estranheza que nunca antes experimentara ao avançar simplesmente de um lugar para outro. Já não me parecia que estivesse apenas a transportar o meu corpo através da garganta. Ao deslocar esse corpo, deslocava também o lugar a partir do qual a garganta podia tornar-se aquela paisagem. Bastava uma ligeira deslocação para que tudo recomeçasse de outra maneira, fora e dentro ao mesmo tempo. Se é que estas duas palavras ainda podiam designar aquilo que eu estava a viver.
Eu passava pela garganta enquanto ela passava por mim, e já não conseguia dizer qual dessas duas passagens continha a outra, uma vez que o olhar através do qual a acompanhava era já um dos seus acontecimentos. A paisagem por entre a qual eu avançava tornara-se, por um instante, a forma imensa e mutável na qual eu podia ver-me viver.
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