vendredi 28 août 2026

(188) A abracadabrante história da Criança Lua


Onde poderíamos compreender que um pequeno deslocamento no visível pode ser o lugar a partir do qual várias histórias se tornam possíveis.


– Lembra-se da imagem recente que Félix observava há pouco?
– Aquela em que avança um homenzinho?



– Essa mesma… Permite tornar visível o paradigma indiciário…
– O que é isso?
– Vou tentar ser concreto, evitando deter-me em Morelli… ou Freud, etc. Acima de tudo, o método de Ginzburg introduz uma regra essencial que Félix quase infringira: não nomear demasiado depressa aquilo que o indício permite apenas supor.
Enquanto Lucian viaja, deixando aqui e ali alguns indícios que podem juntar-se a outros indícios que vai recolhendo, talvez não seja inútil recordar que se chama paradigma indiciário a essa maneira de olhar cuja importância Carlo Ginzburg mostrou: partir de pormenores quase insignificantes, não para os fazer dizer aquilo que já sabemos, mas para deixar aparecer aquilo que eles apenas tornam possível.
Tomemos esta imagem em que uma personagem minúscula avança sobre uma passerelle, afasta ou desloca diante de si alguns elementos que lhe barram a passagem e parece dirigir-se para um chapiteau, enquanto um paquete permanece imóvel ao fundo e uma coruja ocupa, um pouco à margem, um lugar cuja função ainda desconhecemos. Tivemos a tentação de chamar imediatamente Lucian a essa personagem. Talvez seja ele… mas o seu rosto, a idade aparente, até as próprias roupas, que, como sabe, pertencem igualmente a outros, bastam para transformar essa identificação numa hipótese.
É precisamente aí que começa o indício: quando se aceita que ver alguma coisa ainda não significa saber aquilo que se vê.
A passerelle indica uma passagem, mas não diz nem de onde vem aquele que a percorre nem o que encontrará sob o chapiteau; o gesto com que afasta aquilo que o impede pode ser o gesto de alguém que entra, mas aquilo que desloca participa também na construção frágil desse lugar para o qual avança. O paquete, por parecer parado, poderia ser aquilo que trouxe até aqui aquele que caminha, tanto quanto aquilo que aguarda uma partida futura. Quanto à coruja, nós vemo-la, enquanto nada permite afirmar que a personagem a vê. Ela pertence, portanto, já a uma outra linha de leitura, a daquilo que o espectador sabe, ou julga saber, para além daquele cuja passagem observa.
É assim que certos indícios deixados por Igniatius podem encontrar aqueles das personagens que lhe atribuímos, e depois aqueles que Lucian descobre ou deixa, por sua vez. Torna-se então difícil saber se seguimos os vestígios de alguém que passou, de alguém que ainda passa, ou de alguém cuja passagem só se tornará percetível mais tarde, quando um outro pormenor vier modificar aquilo que julgávamos ter compreendido.
O paradigma indiciário talvez não consista, portanto, tanto em reconstituir o passado como em permanecer suficientemente atento para que os vestígios possam conservar durante algum tempo a sua incerteza. Pois um indício não é a prova de que uma determinada história teve lugar… é esse pequeno deslocamento no visível a partir do qual várias histórias se tornam possíveis.


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