Onde, entretanto… Félix, também ele à sua maneira, viaja… viagem da qual já não se sabe muito bem se é ela ou Félix que se desloca…

Onde se fica a saber que o paquete de Lucian continuava, portanto, a avançar, a sua proa dividindo a água com uma regularidade tão constante que parecia menos forçá-la do que abri-la, enquanto, muito abaixo dos conveses, as máquinas mantinham sem interrupção esse impulso que fazia deslizar toda aquela massa em direção ao largo.
Pouco a pouco, os quilómetros desfaziam-se atrás dele juntamente com as horas, e esperava-se agora dessa travessia aquilo que já se esperava dos comboios que ligavam as cidades: não apenas que chegasse ao seu destino, mas que obedecesse a uma duração, que se deixasse inscrever num horário, que o próprio oceano, depois de durante séculos ter imposto as suas lentidões, os seus desvios e as suas esperas, aceitasse finalmente tornar-se uma distância mensurável.
Já não era apenas o espaço que assim se pretendia reduzir, mas algo ainda mais difícil de apreender, uma vez que o tempo não se estendia em parte alguma diante da proa e nenhum olhar podia vê-lo afastar-se atrás da popa. E, no entanto, era preciso que estivesse ali, pois era contado, podia perder-se, ganhar-se, economizar-se algumas horas dele como se economizava carvão ou vapor, e a viagem acabava assim por dar a essa coisa sem forma a aparência de uma matéria que a potência das máquinas teria sido igualmente capaz de vencer.
A outra arquitetura realizava desde sempre uma operação ainda mais estranha. Não possuía nenhum mostrador interior onde o tempo se escoasse com a regularidade de um ponteiro e, no entanto, sabia esperar, prever, reconhecer que uma coisa tinha durado demasiado tempo ou quase não o suficiente; podia condensar vários anos no clarão de uma lembrança e fazer de um punhado de segundos uma extensão quase interminável quando o corpo esperava alguma coisa cujo desfecho desconhecia. O tempo que ela habitava não era, portanto, exatamente o dos cronómetros… dobrava-se à atenção, à espera, ao medo, ao desejo, ao número de acontecimentos retidos, e talvez fosse precisamente por essa razão que podia parecer tão natural acreditar que, aumentando a velocidade, se reduzia a viagem, quando ainda não se fazia mais do que reduzir o número de horas inscritas entre dois pontos.
O corpo, esse, continuaria a receber cada uma das ondas… o olhar, esse, cada uma das escuridões.
E alguma coisa guardaria talvez o vestígio daquilo que, num horário, não contava para nada.
Inspirado muito livremente… a partir de
Morgan Robertson, O Naufrágio do Titan
Futility, or the Wreck of the Titan. 1898
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