«Vieram, os homens da floresta da outra encosta, desconhecidos para nós, estranhos aos nossos costumes... rebeldes aos nossos usos...»*
René Char, Os Inventores
Caderno de Don Carotte
Sang Chaud e eu avançávamos lentamente, em silêncio, os sentidos em tensão, comovidos por tanta ordem sob o aparente caos. Fascinava-nos essa mecânica milenar da lenta decomposição... Fascinava-nos igualmente o crescimento simultâneo da luta e do equilíbrio orgânico.
Mas esta floresta, que ao princípio eu contemplara com o distanciamento do sábio e a fé do investigador, cedo se fechou sobre nós como uma mandíbula verde. Desde os primeiros passos sob a copa das árvores, uma coisa essencial mudou: a direção.
Onde julgávamos caminhar em linha reta, dávamos voltas. Os trilhos visíveis desapareciam tão depressa quanto nasciam. Cada tronco parecia o anterior, cada clareira não passava de uma ilusão... O mais inquietante era quando o rumor do vento se tornava o presságio de uma armadilha. Conhecia essas armadilhas do espírito, mas isso em nada impedia a floresta de se organizar contra nós... ou talvez ela nada fizesse... mas a sua própria inércia já era uma forma de hostilidade. O mais pequeno deslocamento exigia um combate: afastar ou cortar uma liana, rastejar sob uma raiz, trepar por entre ramos caídos. O suor corria pelas minhas costas como um regato foge da montanha.
E havia esse sentimento lento e pesado, que eu partilhava com Sang Chaud, de não estarmos sós. Não porque algum animal rondasse por perto — não era isso —, mas porque a própria floresta nos espreitava. Parecia dotada de um olhar imenso e silencioso, disperso por mil olhos vegetais. Não tolerava a nossa presença; suportava-a apenas, esperando que desistíssemos, que nos perdêssemos, que cedêssemos ao seu lento abraço.
O chão era uma trama mole, as raízes eram armadilhas, os ramos eram braços mortos estendidos para nos retardar. Avançar tornava-se uma abstração: cada passo conquistado era pago com uma dúvida. Uma hora, um dia... não sei. O tempo perdera as suas referências, engolido pela humidade, pela seiva, pelos murmúrios. E, quanto mais nos internávamos, mais compreendíamos que aquela floresta não era um lugar: era um mundo.
E esse mundo não precisava de nós...
...e Sang Chaud desaparecera.
* Convém recordar que a palavra francesa forêt («floresta») deriva do latim foris, que significa «fora», «no exterior», «ao longe», «estranho», origem também de foraneus, «estrangeiro», «o que vem de fora».


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