mercredi 22 juillet 2026

(152) A abracadabrante história da Criança Lua

 Enquanto Lucian prossegue a sua viagem seguindo os vestígios de Igniatius...


...Félix, incansavelmente, prossegue a sua através das diversas cartas, cadernos, diários, desenhos e documentos... Onde já não se trata apenas de uma curiosidade linguística, mas de uma verdadeira dificuldade filosófica, quase de uma contradição interna da própria linguagem.


Caderno de Félix

Detive-me aqui... ontem... bem o sei... e hoje regresso a um pormenor que talvez não o seja. Falava da palavra um, que, curiosamente, possui um plural. Falamos de um e de uns. Ora, quanto mais penso nisso... mais isso me parece quase impossível. Porque um é precisamente aquilo que não deveria poder ser posto no plural. Designa o único, a unidade, aquilo que, por definição, escapa à multiplicação. Logo que aparecem vários uns, cada um deixa imediatamente de ser o Um. Torna-se um entre outros. O plural destrói silenciosamente aquilo que o singular designava.
Este pequeno absurdo gramatical faz-me recordar outro. Falamos de bom grado de verdades.
Contudo, assim que a verdade se torna plural, alguma coisa se subtrai. As verdades podem ser opiniões, pontos de vista, interpretações, verdades locais ou provisórias. Mas, precisamente porque se tornaram numerosas, já não são a Verdade. É como se o plural transformasse a própria natureza do conceito.
Talvez aconteça o mesmo com a identidade.
Falamos de identidades. No entanto, identidade designa, antes de mais, aquilo pelo qual uma coisa permanece ela mesma. Se várias identidades coexistem num mesmo ser, estaremos ainda a falar da sua identidade ou já das suas figuras, dos seus papéis, das suas pertenças?
A linguagem aceita estes plurais sem dificuldade.
O pensamento, esse, hesita muito mais.
Volto a encontrar esta dificuldade diante dos desenhos.
Tenho diante de mim dezenas de imagens.
É isso que me ocorre espontaneamente...
E, no entanto, não consigo deixar de sentir que elas não são verdadeiramente numerosas. Como se cada uma delas fosse apenas uma tentativa de deixar aparecer uma imagem mais antiga, mais secreta, que, essa sim, permanece una.
Talvez aconteça com as imagens o mesmo que acontece com a verdade.
O plural pertence às manifestações.
O singular pertence àquilo que as torna possíveis.
As imagens seriam, então, para a Imagem aquilo que as verdades são para a Verdade. Aproximações... fragmentos. Nunca a própria coisa. E talvez seja por isso que o seu estilo permanece tão obstinadamente unitário. Não porque um mesmo desenhador as tenha produzido todas. Mas porque gravitam em torno de uma unidade que ainda não se tornou objeto... e essa unidade não se repete. Apenas se deixa aproximar.
Pergunto-me mesmo se a palavra idêntico não procede do mesmo paradoxo. Dois objetos idênticos não são, precisamente, idênticos.
Se o fossem absolutamente, deixariam de ser dois.
O simples facto de podermos contá-los introduz já uma diferença. O número destrói a identidade perfeita.
Dizer «duas coisas idênticas» é já reconhecer que elas não o são completamente.
A linguagem vive assim de contradições que parece ignorar. Pluraliza o Um. Multiplica o idêntico.
Distribui a verdade...
E continua a falar como se nada tivesse acontecido.
Talvez seja também isso que está em jogo nos desenhos. Há muitos deles... Posso, sem dúvida, contá-los e classificá-los. Posso também alinhá-los sobre uma mesa... mas, quanto mais os observo, menos vejo uma multiplicidade. Tenho antes a estranha impressão... de que uma única imagem procura incansavelmente reconhecer-se a si mesma.
Se cada desenho é uma tentativa... nenhuma dessas tentativas é definitiva. E, se todas são necessárias... nenhuma é primeira... nem última. Não repetem uma imagem original, a imagem da origem. Giram em torno de uma unidade que justamente nunca pode tornar-se uma imagem sem deixar de ser essa unidade. Talvez seja isso que tanto me fascina.
E, se o Um não se torna muitos... permanece Um precisamente ao dar origem a uma pluralidade que nunca deixa de o procurar...
Chego mesmo a acreditar que existe um parentesco muito profundo entre esta reflexão e aquela que Igniatius desenvolvera, noutro lugar, a propósito do ser.
O infinitivo ser não admite plural. Não dizemos «os seres» quando falamos do verbo, mas quando falamos dos entes. Do mesmo modo, não existem «verdades» no sentido de existirem várias verdades absolutas; existem proposições verdadeiras, perspetivas, interpretações. E talvez também não existam «uns». Existem coisas que participam da unidade, mas o Um, no momento em que se transforma em «uns», já se transformou em outra coisa.


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