Enquanto Lucian, por sua vez, se defronta com o Leviatã, os dois papagaios conversam... como se nada tivesse acontecido.
Onde os podemos observar falando daquilo que, no entanto, não pode ser dito...
— Dizei-me... que significa essa estranha expressão: como se nada tivesse acontecido?
— A palavra como introduz uma comparação.
— Até aí é fácil de compreender. Mas aqui não compara duas realidades...
— Compara uma realidade com uma hipótese, se assim o preferirdes.
— Prefiro.
— Abre um espaço imaginário...
— ...um teatro do possível!
— Assim que ouvimos como se, entramos num mundo onde a verdade dos factos fica momentaneamente suspensa para observarmos um comportamento.
— É um pouco aquilo que nós próprios fazemos... Falamos como se fôssemos o nosso mestre.
— Mas não pretendemos sê-lo...
— Limitamo-nos a aceitar habitar essa possibilidade. Aqui, o se é o se do irreal.
— Tereis reparado... que não diz: «já que»...
— Quereis dizer que apenas diz: «suponhamos que»...
— E já sabemos que a condição não está preenchida.
— Mas dizer como se nada tivesse acontecido implica precisamente que alguma coisa aconteceu. Caso contrário, a expressão seria inútil. Por outras palavras, ela afirma indiretamente aquilo que parece negar.
— Conheceis a palavra efável?
— Que palavra curiosa...
— Soa estranha aos nossos ouvidos. Embora seja muito pouco usada, existe... tal como existe o Menino Lua...
— E que significa ela?
— O Menino Lua... isso não sei. Mas a palavra efável significa simplesmente «aquilo que pode ser expresso por palavras»...
— O que, precisamente, não caracteriza o Menino Lua... Então creio conhecer o seu contrário.
— Isso não me surpreende... Dizei-me.
— Eu sei-o... mas não o consigo dizer.
— Precisamente... Quase sempre o encontramos através do seu contrário: o inefável.
— Porque, no uso corrente, quase nunca sentimos necessidade de precisar que uma coisa é exprimível. Essa é a condição normal da linguagem.
— É por isso que só reparamos verdadeiramente na palavra quando ela encontra o seu limite.
— Diz-se que este é um fenómeno frequente nas línguas.
— Existem muitas palavras negativas cujo positivo se tornou raro ou desapareceu.
— Dai-nos alguns exemplos!
— Falamos de bom grado do invisível, do inaudito, do inconcebível... ou, simplesmente... do indizível.
— Simplesmente! Estais a gracejar...
— Os seus opostos existem teoricamente, mas utilizamo-los muito menos.
— Contudo, se abandonarmos a simples gramática, a questão torna-se muito mais interessante. Não vos parece?
— Porquê?
— Porque o verdadeiro contrário do inefável talvez não seja o efável...
— Estais cada vez mais misterioso...
— O efável designa apenas aquilo que pode ser dito.
— Mas muitas coisas podem ser ditas sem serem verdadeiramente compreendidas...
— O verdadeiro contrário do inefável poderia ser aquilo que é perfeitamente adequado à sua própria formulação.
— Que espécie de jargão é este que não consigo compreender?
— Uma coisa e a sua expressão coincidiriam então quase exatamente. Esse é, muitas vezes, o ideal da matemática ou de certas ciências: chegar a uma formulação em que cada termo corresponde precisamente àquilo que pretende designar.
— Se bem vos compreendo... a poesia vive, pelo contrário, na distância entre aquilo que é dito e aquilo que é visado.
— E é aí que a etimologia se torna interessante.
— Dizei...
— O verbo latino effari não significa simplesmente «falar».
— Então, que significa?
— Significa antes «fazer sair para a palavra». O prefixo ex- (que se torna ef- diante de certas consoantes) indica um movimento para o exterior.
— Então o inefável não é simplesmente aquilo que não pode ser dito.
— Não... É aquilo que não pode ser conduzido para fora de si mesmo para entrar inteiramente nas palavras.
— Então o seu positivo seria menos o efável do que o enunciado... ou o manifestado.
— Seria um pensamento que passa integralmente para a sua formulação.
— Mas existirá realmente uma coisa assim?
— É legítimo duvidá-lo...
— Porque, logo que refletimos sobre a experiência humana, descobrimos que quase tudo é parcialmente inefável.
— Mesmo as coisas mais simples?
— Tentai descrever exatamente uma dor, uma cor, um perfume, uma recordação de infância, um rosto amado.
— Isso é, por vezes, muito difícil...
— As palavras funcionam. Tornam possível a comunicação.
— E, no entanto, permanece sempre um resíduo...
— Alguma coisa continua do lado da experiência.
— É por isso que me pergunto se o inefável não será menos o contrário do efável do que a sua sombra...
— Assim que uma coisa se torna efável, alguma coisa dela permanece inefável.
— E talvez seja por isso que as narrativas de Igniatius continuam a multiplicar-se.
— Uma história não vem substituir outra porque a primeira fosse falsa.
— Então, porque vem?
— Porque nenhuma história consegue esgotar aquilo que conta.
— Estais a esgotar-me...
— O inefável não seria, então, o contrário da palavra. Seria aquilo que acompanha toda a palavra...
— E o que seria isso?
— Como o horizonte acompanha toda a paisagem.
— Podemos até levar o paradoxo um pouco mais longe.
— Levai-o, então... ao ponto em que já nos encontramos...
— Talvez aquilo que fosse absolutamente efável fosse também aquilo que deixaria de precisar de ser contado.
— Seria como uma fórmula matemática perfeita.
— Creio que as personagens que atravessam o Arquipélago — seja Pinóquio o Outro, Don Carotte, Lucian, Igniatius ou até Félix — parecem existir precisamente porque nunca coincidem inteiramente com a sua própria definição. São sempre um pouco mais vastas do que aquilo que se pode dizer delas.
— Como uma ilha que emerge do mar: aquilo que aparece é visível, portanto efável. Mas aquilo que a sustenta sob a água permanece invisível e, no entanto, inseparável dela.
— Talvez o inefável não seja o contrário do efável.
— É a sua profundidade...
— ...que é a sua origem.
— A palavra como introduz uma comparação.
— Até aí é fácil de compreender. Mas aqui não compara duas realidades...
— Compara uma realidade com uma hipótese, se assim o preferirdes.
— Prefiro.
— Abre um espaço imaginário...
— ...um teatro do possível!
— Assim que ouvimos como se, entramos num mundo onde a verdade dos factos fica momentaneamente suspensa para observarmos um comportamento.
— É um pouco aquilo que nós próprios fazemos... Falamos como se fôssemos o nosso mestre.
— Mas não pretendemos sê-lo...
— Limitamo-nos a aceitar habitar essa possibilidade. Aqui, o se é o se do irreal.
— Tereis reparado... que não diz: «já que»...
— Quereis dizer que apenas diz: «suponhamos que»...
— E já sabemos que a condição não está preenchida.
— Mas dizer como se nada tivesse acontecido implica precisamente que alguma coisa aconteceu. Caso contrário, a expressão seria inútil. Por outras palavras, ela afirma indiretamente aquilo que parece negar.
— Conheceis a palavra efável?
— Que palavra curiosa...
— Soa estranha aos nossos ouvidos. Embora seja muito pouco usada, existe... tal como existe o Menino Lua...
— E que significa ela?
— O Menino Lua... isso não sei. Mas a palavra efável significa simplesmente «aquilo que pode ser expresso por palavras»...
— O que, precisamente, não caracteriza o Menino Lua... Então creio conhecer o seu contrário.
— Isso não me surpreende... Dizei-me.
— Eu sei-o... mas não o consigo dizer.
— Precisamente... Quase sempre o encontramos através do seu contrário: o inefável.
— Porque, no uso corrente, quase nunca sentimos necessidade de precisar que uma coisa é exprimível. Essa é a condição normal da linguagem.
— É por isso que só reparamos verdadeiramente na palavra quando ela encontra o seu limite.
— Diz-se que este é um fenómeno frequente nas línguas.
— Existem muitas palavras negativas cujo positivo se tornou raro ou desapareceu.
— Dai-nos alguns exemplos!
— Falamos de bom grado do invisível, do inaudito, do inconcebível... ou, simplesmente... do indizível.
— Simplesmente! Estais a gracejar...
— Os seus opostos existem teoricamente, mas utilizamo-los muito menos.
— Contudo, se abandonarmos a simples gramática, a questão torna-se muito mais interessante. Não vos parece?
— Porquê?
— Porque o verdadeiro contrário do inefável talvez não seja o efável...
— Estais cada vez mais misterioso...
— O efável designa apenas aquilo que pode ser dito.
— Mas muitas coisas podem ser ditas sem serem verdadeiramente compreendidas...
— O verdadeiro contrário do inefável poderia ser aquilo que é perfeitamente adequado à sua própria formulação.
— Que espécie de jargão é este que não consigo compreender?
— Uma coisa e a sua expressão coincidiriam então quase exatamente. Esse é, muitas vezes, o ideal da matemática ou de certas ciências: chegar a uma formulação em que cada termo corresponde precisamente àquilo que pretende designar.
— Se bem vos compreendo... a poesia vive, pelo contrário, na distância entre aquilo que é dito e aquilo que é visado.
— E é aí que a etimologia se torna interessante.
— Dizei...
— O verbo latino effari não significa simplesmente «falar».
— Então, que significa?
— Significa antes «fazer sair para a palavra». O prefixo ex- (que se torna ef- diante de certas consoantes) indica um movimento para o exterior.
— Então o inefável não é simplesmente aquilo que não pode ser dito.
— Não... É aquilo que não pode ser conduzido para fora de si mesmo para entrar inteiramente nas palavras.
— Então o seu positivo seria menos o efável do que o enunciado... ou o manifestado.
— Seria um pensamento que passa integralmente para a sua formulação.
— Mas existirá realmente uma coisa assim?
— É legítimo duvidá-lo...
— Porque, logo que refletimos sobre a experiência humana, descobrimos que quase tudo é parcialmente inefável.
— Mesmo as coisas mais simples?
— Tentai descrever exatamente uma dor, uma cor, um perfume, uma recordação de infância, um rosto amado.
— Isso é, por vezes, muito difícil...
— As palavras funcionam. Tornam possível a comunicação.
— E, no entanto, permanece sempre um resíduo...
— Alguma coisa continua do lado da experiência.
— É por isso que me pergunto se o inefável não será menos o contrário do efável do que a sua sombra...
— Assim que uma coisa se torna efável, alguma coisa dela permanece inefável.
— E talvez seja por isso que as narrativas de Igniatius continuam a multiplicar-se.
— Uma história não vem substituir outra porque a primeira fosse falsa.
— Então, porque vem?
— Porque nenhuma história consegue esgotar aquilo que conta.
— Estais a esgotar-me...
— O inefável não seria, então, o contrário da palavra. Seria aquilo que acompanha toda a palavra...
— E o que seria isso?
— Como o horizonte acompanha toda a paisagem.
— Podemos até levar o paradoxo um pouco mais longe.
— Levai-o, então... ao ponto em que já nos encontramos...
— Talvez aquilo que fosse absolutamente efável fosse também aquilo que deixaria de precisar de ser contado.
— Seria como uma fórmula matemática perfeita.
— Creio que as personagens que atravessam o Arquipélago — seja Pinóquio o Outro, Don Carotte, Lucian, Igniatius ou até Félix — parecem existir precisamente porque nunca coincidem inteiramente com a sua própria definição. São sempre um pouco mais vastas do que aquilo que se pode dizer delas.
— Como uma ilha que emerge do mar: aquilo que aparece é visível, portanto efável. Mas aquilo que a sustenta sob a água permanece invisível e, no entanto, inseparável dela.
— Talvez o inefável não seja o contrário do efável.
— É a sua profundidade...
— ...que é a sua origem.

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