mardi 21 juillet 2026

(151) A abracadabrante história da Criança Lua

 Onde a palavra insurreição faz a sua aparição e onde ficamos a saber que Don Carotte, talvez considerado desaparecido... se tornou, doravante, Anatole.


Carta de Félix

Caro Lucian,
Escrevo-lhe depois de ter deixado repousar a sua última carta durante toda essa longa viagem que motivou a sua ausência, não por indiferença, mas por prudência. Pergunto-me se ela própria não exigia esse intervalo. Há textos que ganham ao serem relidos; o seu, por estranho que isto lhe possa parecer, exigia, tal como o senti, ser primeiro suportado... antes de poder ser assimilado. A fórmula com que conclui, disso não poderá duvidar, nunca deixou de me acompanhar, não como uma confidência, mas como uma discreta indicação daquilo que já está em vias de acontecer.
Avança a ideia de que Igniatius se apresenta como autor quando, na realidade, se tornou o lugar de passagem de figuras que já não governa. Como bem sabe, esta hipótese está longe de ser insignificante. Ela compromete menos uma teoria da escrita do que uma conceção da responsabilidade. Ser autor, mesmo de uma obra de ficção, pressupõe uma certa forma de soberania. Ser possuído, ainda que pelas próprias personagens, implica uma desapropriação progressiva que a linguagem procura depois recobrir.
O que mais me impressiona na sua análise é a maneira como Igniatius parece chegar sempre depois dos acontecimentos. Mostra-o atento ao que sobrevém e frequentemente pronto a explicá-lo, mas raramente a iniciá-lo. As transformações que atribui a uma necessidade interna da narrativa adquirem, assim, uma tonalidade diferente. Parecem mais tentativas de recuperação do que verdadeiras decisões. Ele fala para recuperar o atraso. Justifica para preservar uma coerência que sente ameaçada.
O desaparecimento de Don Carotte, seguido do seu reaparecimento sob o nome de Anatole, parece-me, a este respeito, particularmente significativo. Não é tanto a mudança de nome que importa, mas o facto de ela ocorrer sem que Igniatius possa reivindicar-lhe a origem. Limita-se a constatar os seus efeitos. Diria até que organiza as suas consequências, mas certamente não domina o impulso que as produz. A personagem não se transforma; desloca-se. E esse deslocamento afeta diretamente aquele que pretendia tê-la criado.
Quanto a Sang Chaud, a sua progressiva ocupação de uma posição central parece confirmar a sua leitura. Esta figura não espera ser chamada. Ocupa o espaço disponível com uma segurança que não procede de qualquer autorização recebida. Longe de o dirigir, Igniatius acompanha-o como quem segue um movimento já iniciado. Não há aqui estratégia consciente, mas uma adaptação contínua àquilo que se impõe.
Compreendo, por isso, o seu recurso ao termo possessão, que utiliza com uma reserva que o afasta de qualquer dramatização desnecessária. Não descreve uma invasão espetacular, mas uma porosidade duradoura. Igniatius parece ser atravessado pelas suas próprias figuras. Talvez seja por elas afetado, constrangido a dar-lhes sentido depois de elas já terem agido. Será esta inversão da relação habitual entre autor e criação suficiente para explicar a sensação de revolta que ele atribui às suas personagens...?
Não creio que esta hipótese deva ser entendida como um veredito. Ela ilumina, contudo, um ponto essencial: aquilo a que, com alguma pompa, chamamos insurreição das figuras poderá muito bem ser a consequência direta de uma autoridade já fragilizada. As personagens não se levantam contra um poder demasiado firme; aproveitam antes um centro que já só se mantém à força do discurso.
A sua carta, precisamente pela sua precisão, testemunha a atenção que dedica a este deslizamento. Escreve com uma lucidez que sabe estar exposta. Essa consciência do risco parece-me ser, por agora, a sua melhor garantia. Coloca-o numa posição delicada, mas ainda legível.
Dirijo-lhe estas observações não para contestar a sua leitura, mas para reconhecer o seu alcance. Parece-me que tocou em algo de verdadeiro e, talvez por isso mesmo, de incómodo para cada um de nós. Se Igniatius é menos autor do que alguém atravessado pelas suas próprias figuras, então aqueles que o observam não estão inteiramente ao abrigo desse movimento.
Escrevo-lhe, portanto, com uma vigilância que partilhamos e com a convicção de que aquilo que aqui está em jogo já ultrapassa as categorias de que nos servimos para o nomear.
Receba a expressão da minha mais atenta consideração...
Félix

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