Os rochedos desciam em direção ao mar sem que fosse possível dizer onde realmente começava essa descida. Vista de longe, quando o meu olhar consentia em permanecer sobre ela, aquilo que parecia imóvel revelava uma inclinação suspensa tão antiga que parecia pertencer menos à pedra do que ao próprio tempo. Entre as suas longas fendas escuras, algumas ervas tão finas que pareciam ter esquecido o vento continuavam, contudo, a inclinar-se. Não resistiam a coisa alguma. Pareciam apenas acompanhar um movimento iniciado muito antes do seu nascimento.
Mais acima, uma luz já cansada deslizava sobre os relevos do basalto sem conseguir abandoná-los por completo. Demorava-se nas rugosidades da rocha, desaparecia sob uma saliência, renascia um pouco mais adiante sobre uma aresta mais clara, como se a pedra possuísse uma maneira muito própria de reter o dia antes de o deixar partir.
Há muito que caminhava na sombra delicada do crepúsculo quando algumas aves passaram muito alto, ainda banhadas pela luz do poente que, tal como elas, parecia fugir.
Não saberia dizer qual dessas duas alturas atraía mais o meu olhar: aquela onde elas prosseguiam o seu voo ou aquela outra, ainda mais secreta, quase invisível, onde uma luz pálida continuava a circular entre as pedras.
Já iam longe quando levantei verdadeiramente os olhos. O céu parecia vazio. Contudo, alguma coisa continuava incessantemente a atravessá-lo enquanto eu permanecia imóvel.
Não era a passagem das aves que retinha a minha atenção. Elas tinham desaparecido... Era outra coisa. Como se o seu afastamento tivesse deixado atrás de si um caminho que nada vinha tornar a fechar.
À minha volta, nada parecia ter dado pela sua partida. As ervas prosseguiam a sua lenta inclinação. Um fio de água, quase invisível — e cada vez mais invisível — descia ao longo de uma parede escura antes de desaparecer sob uma pedra maior. O mar continuava a chegar. A luz continuava a abandonar os rochedos sem jamais os deixar inteiramente.
Retomei o meu caminho com essa estranha impressão de que as coisas nunca esperam pelo nosso olhar para começarem a existir. Prosseguem um trabalho do qual, por vezes, apenas surpreendemos um brevíssimo instante, como se entrássemos numa conversa iniciada há séculos.
Quando abri o meu caderno, não tive a sensação de ter alguma coisa para contar.
Há, no entanto, uma frase que ainda hoje me inquieta:
«Pareceu-me apenas que permanecia ainda um lugar livre entre a página e aquilo que, incessantemente, continuava a passar por ela.»

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