dimanche 19 juillet 2026

(149) A abracadabrante história da Criança Lua


Onde se vê acontecer algo de profundamente desconcertante: Igniatius surpreende-se com as suas próprias imagens. Já não são comparações que ele fabrica; regressam-lhe como se soubessem algo dele antes de ele próprio o saber. É um momento de reconhecimento, mas de um reconhecimento estranho: reconhece-se numa imagem inteiramente feita de palavras... que nunca tivera a intenção de fazer nascer. Mas essas palavras quase nada diziam. Então escreve que o mar permanecia ao pé dos rochedos «como uma fera que se tivesse esquecido de respirar».

Caderno de Igniatius

Parei. Não quisera criar uma imagem. Queria apenas tornar mais preciso aquilo que via. E, no entanto, mal terminei a frase, já não via o mar da mesma maneira. Deixara de se parecer com uma fera. Tornara-se uma. Permanecia ali, ao pé dos rochedos, imenso, silencioso, vindo desse longínquo onde, apenas um instante antes, eu o contemplava sem distinguir nele outra coisa senão a linha escura do horizonte. Não compreendi como pudera atravessar toda aquela extensão sem que eu o tivesse visto aproximar-se. Nenhuma ondulação anunciara a sua chegada. Nenhuma vaga parecia tê-lo transportado. Estava simplesmente ali. E, coisa mais estranha ainda, não tive a impressão de que viesse ao meu encontro. Tive a impressão de que sempre ali estivera e de que fora eu quem apenas acabara de chegar até ele.
Permaneci muito tempo sem escrever. A palavra que acabara de pousar sobre o papel olhava mais para mim do que eu para ela. Escrevera-a como quem designa uma coisa. Ela respondia-me como uma presença.
Compreendi então por que motivo certos desenhos me retinham durante tanto tempo sem que eu conseguisse dizer o que tinham de tão particular. Julgava observá-los. Esperava que me revelassem o seu segredo. Mas talvez estivessem, desde o princípio, ocupados a esperar que eu reconhecesse o meu.
O Leviatã.
Não sei por que motivo esse nome se apresentou diante de mim. Não o procurara. Não vinha resolver enigma algum. Limitava-se a oferecer àquela presença um lugar onde pudesse permanecer, por um instante, dentro das palavras. Ao escrevê-lo, senti algo de inesperado. Não reconhecia apenas o mar. Reconhecia-me na maneira como ele chegara até mim.
Durante muito tempo acreditara, de certo modo, conduzir as imagens. Escolhia-as... como e porquê... não o sei. Aproximava-as umas das outras como as personagens se reúnem sobre o palco de um teatro e, por vezes, abandonava-as... como os espectadores deixam o teatro e regressam às suas casas. No fundo, estava intimamente convencido de que elas me seguiam como viajantes dóceis. E eis que uma delas parava diante de mim, imensa, antiga, como se me tivesse esperado durante muito mais tempo do que eu a procurara.
Compreendi então... como e porquê... não o sei... que nunca fora eu à procura dessas imagens. Tinham sido elas que, pacientemente, me haviam conduzido até si.
Julgava falar apenas de um desenho. Descobria que ele já falava... de mim. Não da minha vida, nem da minha história, mas de um lugar em mim cuja existência eu ainda ignorava e que, no entanto, já estava habitado.
Veio-me então, de súbito, a lembrança de todos os desenhos para os quais olhara sem jamais entrar neles. Tinham permanecido diante de mim como portas que admiramos sem atravessar. Hoje compreendo que nunca lhes permitira olhar para mim.
Talvez seja isso o que acontece quando uma imagem se torna verdadeira. Deixa de estar diante de nós. Encontra-nos. E, quando nos encontra, já não podemos dizer com certeza se fomos nós que a inventámos ou se era ela que nos reconhecia desde sempre.
Desde esse dia, desconfio das palavras que me parecem obedecer demasiado bem... àquilo que não dizem.
As que verdadeiramente contam são, muitas vezes, as que me surpreendem. Fazem-me levantar os olhos do papel como se alguém acabasse de entrar na sala. Releio então aquilo que acabei de escrever com a estranha impressão de encontrar um desconhecido que conhece o meu nome desde há muito tempo.
Talvez seja isso escrever.
Não acrescentar palavras às imagens.
Mas descobrir, com um espanto que nunca se gasta, que certas imagens já esperavam, em silêncio, que a nossa voz lhes permitisse reconhecer-nos.

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