Félix, Lucian e Igniatius ficam algo desconcertados pelo facto de os desenhos que este último traz a Lucian não estarem assinados… Isso cria uma espécie de tensão… ela própria propícia à multiplicação das interpretações… Nessa tensão, a ausência de assinatura faz aparecer… a impossibilidade da certeza… E, nessas condições, a imagem desenhada deixa de ser simplesmente um ato de propriedade (“isto é meu”). Torna-se um lugar de passagem. Algo aí se inscreve, mas esse algo excede sempre aquele que assina.
Poder-se-ia dizer, indo ainda mais longe: uma verdadeira assinatura não é apenas um nome escrito no fim de uma página. É uma maneira de ser que atravessa tudo o que se faz. Uma obra, um gesto, uma frase podem ser “assinados” sem que qualquer nome apareça. Não porque sejam reivindicados, mas porque transportam uma coerência, uma intensidade, uma maneira singular de habitar o mundo. Nesse sentido, a assinatura já não se situa no fim. Está em toda a parte. E talvez o mais perturbador seja isto: a assinatura mais profunda é aquela que não dominamos totalmente. Aquela que se deposita através de nós, mais do que aquela que decidimos apor. Assinar, então, já não seria apenas escrever o próprio nome. Seria tornar-se, pouco a pouco, legível.
Nounours recorda… Sem memória, o espelho seria ilegível… e essas memórias instalam-se como se fossem presentes. Ele está ali, numa luz que não decide totalmente entre o dia e a sombra. Aquilo que segura contra si, adivinha-lhe a forma sem a nomear, cede suavemente sob a pressão dos seus dedos, como se a matéria aceitasse ser habitada. Ele não olha realmente, ou melhor, olha de outro modo, com essa atenção flutuante que parece vir de mais longe do que os seus olhos.
A sua voz eleva-se, baixa, quase contida, mas não sai de um silêncio. Sai de um lugar que, com a Criança Lua, só eles conhecem. Está sentado sobre uma rocha, incrustada de minúsculos líquenes, amarelos ou alaranjados, formando como alfabetos desconhecidos ou antigos. Aqui e ali, tufos de erva seca com caules avermelhados tremem ao vento, agarrados a bolsas de terra cinzenta. Acumulam-se entre dois afloramentos de lava. Raízes poderosas, perfeitamente invisíveis, instalaram-se nos relevos da lava e, pela força, seguem o caminho da água… quando subitamente se elevam em direção ao céu… ao mesmo tempo que ele ouve a sua própria voz, vinda das profundezas de si mesmo, dialogar com a Criança Lua.
«Dizes que eu te faço viver… que te falo para aprender a falar…»
Inclina ligeiramente a cabeça, como se as palavras que acabou de pronunciar continuassem a ressoar diante dele… Uma hesitação, um leve arrepio percorre-lhe os ombros, algo ínfimo, mas que revela algo mais profundo que ele escuta.
«Mas se eu te falo… quem me fala a mim?»
Nesse instante, os seus dedos apertam-se quase imperceptivelmente. Este gesto não é uma defesa. É uma verificação. Como se procurasse, na consistência do que segura, uma resposta que as palavras não dão.
«Porque eu também… sou sustentado.»
Não o diz com certeza. Descobre-o. Vê-se na maneira como a sua respiração se suspende logo depois, como se algo tivesse acabado de aparecer e fosse preciso deixá-lo tomar lugar.
O silêncio que se segue interroga-o. É pleno, denso, carregado de uma presença difusa. A criança, tal como Nounours, não se move, mas algo neles se desloca de um para o outro.
«Dizes que estás entre dois… nem totalmente fora, nem totalmente dentro. Mas eu… onde estou?»
As suas cabeças erguem-se ligeiramente, sem abrirem mais os olhos. Não procuram um ponto fixo. Parecem antes sentir o próprio espaço, como se a questão modificasse a textura do que os rodeia.
«Olham-me. Falam-me. Esperam por mim.»
Cada frase cai com uma lentidão particular, como se tivesse de encontrar o seu próprio peso antes de pousar. Ele não constata: apercebe-se.
«Acho que sou como tu…»
Uma dúvida aflora, visível na leve tensão do maxilar. Corrige-se quase de imediato, com uma doçura que não apaga a hesitação:
«Não… não como tu… contigo.»
O contacto da matéria sob os seus dedos torna-se mais atento, quase exploratório. Ele não acaricia, reconhece.
«Quando te falo… não és só tu que faço existir. É… um lugar…»
Procura as palavras, e quando as encontra, parece apoiar-se nelas, como numa pedra instável.
«Um lugar onde pode passar… onde acontece…»
A palavra «passar» atravessa-o. Vê-se na maneira como o seu peito se eleva mais profundamente, como se a própria respiração se ajustasse a essa descoberta.
«Porque passa… acontece em mim também.»
Um arrepio muito leve percorre-lhe o rosto, não como uma emoção violenta, mas como uma consciência que lentamente se difunde por todo o corpo antes de se tornar pensamento.
«Digo coisas que não sabia antes de as dizer.»
Pára, não para pensar, mas porque algo nele pede para ser deixado intacto.
«Então… talvez não seja eu que começo.»
Nesse momento, aproxima do peito o que segura, com uma delicadeza quase grave. O gesto deixa de ser apenas afetivo: torna-se necessário.
Nounours, de boca cosida, por dentro, ouve essa voz como se viesse de fora…
«Talvez eu já seja… falado.»
A palavra suspende o tempo. Sem pensar, acolhe-a.
«E tu… estás aí para me sustentar…»
Os seus ombros relaxam ligeiramente, como se essa frase tivesse encontrado um apoio justo. Não a verifica. Descansa nela.
«Mas eu também sou sustentado… por algo que posso sentir sem ver.»
Nounours continua a escutar. Vê-se na imobilidade particular do seu rosto, nessa maneira que tem de deixar vir…
«Dizes que és uma memória… que guardas quando eu vou embora.»
No rosto da Criança Lua passa um véu, muito leve, como uma tristeza que não se instala mas deixa um rasto.
«Mas eu… acho que guardo algo que ainda não veio e que tu não podes ver.»
A sua voz torna-se mais fina, quase transparente.
«Como se eu fosse… uma espera.»
Aperta suavemente Nounours contra si, não por necessidade, mas como para confirmar que essa espera pode ganhar corpo, mesmo que fugazmente.
«Então… se tu és um “objeto transicional”…»
Interrompe-se… e ouve a voz de Nounours responder-lhe.
«Eu também.»
A palavra permanece, como suspensa no ar.
Um último silêncio alonga-se, mas nada tem de concluído. Abre.
«Mas para quem?»
Nenhum dos dois procura responder. Os seus rostos não se fecham. Pelo contrário, algo neles permanece disponível, exposto, como se a própria questão bastasse para manter vivo aquilo que, sem ela, se dissolveria.
Permanecem ali, sustentando e sendo sustentados, nesse equilíbrio frágil em que já não se sabe muito bem quem sustenta quem, mas onde, precisamente, algo se sustém.

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