À primeira vista, aquilo que Lucian sabia acerca de personagens como a Criança Lua, Don Carotte, Pinóquio o Outro… e tantos outros… dependia do que Igniatius lhe tinha dito… Esquece-se assim que o saber não depende apenas do que ouvimos… ou então… seria preciso ouvir os dois sentidos desse verbo. Assim, será necessário compreender que estas diversas personagens figuram sobre… ou talvez fosse preciso dizer dentro dos desenhos. A maneira como se leem os desenhos, da mais simples à mais sofisticada, engendra sempre um saber. Que esse saber seja bom ou mau… isso já é outra história. Lucian não tem, portanto, apenas como fonte as palavras de Igniatius; ele tem essas imagens. Pouco importa, por agora, quem as produziu. O que também é certo é que nenhuma parte do que ele aprende pode ser considerada como verdade. No máximo, poderia atingir o estatuto de verdadeiro… sabendo que, mesmo nesse estádio, certos factos poderiam não passar de construções do seu próprio espírito… Lucian sabe-o. Isso não o impede de formular hipóteses… as quais, ao aglutinarem-se por afinidades, formam uma espécie de verdade mais próxima do vertigem do que da virtude. É por isso que ele as dirige a Félix, para lhes dar uma ordem… ele próprio no limite dos mesmos perigos quando, diante das imagens e das palavras que Lucian lhe propõe, se põem em movimento os diversos movimentos do espírito familiares à espécie humana reunidos sob a denominação de «imaginação».
De início, não vi com horror senão uma cabeça de criança, colocada à beira da água, ou na água, já não sei. Essa hesitação durou, ainda dura. Pois nada indica claramente onde termina o mundo e onde começa esse rosto. E muito rapidamente, outra coisa me reteve: essa cabeça não tem corpo. Não me espantei logo. Foi preciso voltar ao desenho, olhá-lo novamente, para compreender que essa falta não era um esquecimento, mas um dado.
O corpo não está lá… ou então está noutro lugar.
Só então comecei a prestar atenção às ondas. Elas não se limitam a bordear a cabeça; parecem prolongá-la, ou pelo menos acolhê-la num movimento que não tem início nem fim. E pensei, demasiado depressa, sem dúvida, que tudo aquilo pertencia ao mesmo fluxo, que a forma distante, alongada, participava desse movimento.
Mas enganava-me.
Essa forma, vejo-a agora mais claramente: é uma nuvem. Está no céu, e no entanto também está na água. Ou então é o seu reflexo, mas nesse caso o reflexo tem tanta presença quanto aquilo que reflete. Não consigo decidir qual dos dois precede o outro, e essa indecisão obriga-me a olhar de outro modo. O que eu julgava ser uma continuidade torna-se uma passagem.
É nesse momento, creio, que o desenho começou a insistir.
Pois o meu olhar voltou ao rosto, e mais precisamente ao nariz. Não queria deter-me nele. Parecia-me demasiado visível, quase demasiado evidente. E no entanto, é ele que comanda tudo. Está alongado, projetado, como se avançasse no lugar do resto do corpo. E de repente, sem saber bem porquê, um nome me veio: Pinóquio, mas isso só convinha pela metade.
Pois esse nariz não conta uma mentira.
Ele traz o seu vestígio de outra maneira. Compreendi… pouco a pouco, ou melhor, senti, que esse nariz cresceu não porque aquele que fala mente, mas porque ouve. E ouvir, aqui, não significa simplesmente receber palavras. Significa compreendê-las e, nessa própria compreensão, encontrar-se exposto, atingido, quase comprometido.
Há aqui uma forma de desconforto, difícil de nomear. Como se reconhecer aquilo que não cabe numa palavra fosse suportar o seu peso. E esse peso, o rosto não o rejeita. Deixa-o passar por si.
Então o nariz inclina-se.
Esse movimento é quase imperceptível, mas muda tudo. Não se ergue, não se afirma. Afunda-se na água, lentamente, como se procurasse deixar a superfície, esquivar-se a esse lugar onde tudo circula, onde tudo se diz demasiado depressa. Ao afundar-se, deixa de ser uma simples forma para se tornar uma linha, uma direção.
Surpreendi-me a pensar que se assemelhava à deriva de um barco.
Não ao casco visível, mas àquilo que, por baixo, corta a água, dá uma orientação, permite manter-se no movimento. E essa ideia deteve-me. Pois fez surgir outra coisa: se o nariz se torna quilha, então a cabeça flutua. E se flutua, de que matéria é feita?
De madeira, talvez.
Não sei se o devo dizer, mas impõe-se: essa cabeça poderia ser a de uma marioneta. Não aquela que conhecemos, ou pelo menos não exatamente. Algo foi deslocado. Como se a origem persistisse, mas alterada, devolvida a outra experiência.
E o que me perturba é que nada é dramático.
Não há queda, nem grito, nem sequer resistência. O corpo ausentou-se sem outra violência que uma espécie de desconstrução. O rosto permanece, os olhos semicerrados, como em estado de vigília interior, e o mundo, a água, o céu, a nuvem e o seu reflexo, continuam a passar.
Olho para este desenho, e tenho a sensação de que ele não me pede para compreender, mas para permanecer onde me coloca: nesse entre-dois onde ver e ouvir se confundem, onde aquilo que aparece nunca se dá de um só lado.
Ele fala-me, sim.
Mas aquilo que diz, só posso segui-lo.
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